quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Observação: E, porém, ela existe…

Hoje assinala-se mais um – infeliz – aniversário do regicídio de 1908, um vergonhoso atentado, um hediondo crime, em que efectivamente viria a assentar a república em Portugal, «oficialmente» instaurada em 1910 por via de um golpe militar – e que por isso, e também por nunca ter sido directa e explicitamente ratificada em eleições, continua a constituir um regime ilegítimo. No que já se tornou uma – honrosa – tradição, a funesta data foi igualmente evocada pela Real Associação de Lisboa através da realização de uma missa de sufrágio na Igreja de São Vicente de Fora, seguida de uma romagem ao Panteão Real.  
Entretanto, e embora não tanto como em anteriores anos e ocasiões, as referências e mesmo as discussões a propósito, não só do assassinato do Rei D. Carlos e do Príncipe D. Luiz em particular mas da dicotomia, da questão Monarquia-República em geral, vão surgindo, sendo feitas, no espaço mediático nacional. Dois textos recentes, um num jornal (digital) e outro num blog, constituem disso demonstrações.
O primeiro, «Extremistas a ensinarem crianças», foi escrito por Maria João Marques e publicado no Observador – e reproduzido, em parte, no blog O Insurgente, onde a autora também colabora. Nele ela relata e comenta o que havia acontecido com um dos seus filhos, na escola, na disciplina de História. Um excerto: «(No) meio do programa algo fez o rapaz ficar baralhado com as misérias do Portugal monárquico e as maravilhas do Portugal republicano. Por razões misteriosas, ficou convencido que monarquia era sinónimo de ditadura e pobreza. E que a república, em Portugal, havia trazido o melhor dos mundos. Lá tive eu – que sou republicana, mesmo que não diabolize a monarquia (ok, assumo, é impossível resistir a gozar com certos membros de certas famílias reais) – que repor, naquela impressionável e adorável cabeça, a verdade. Que a pobreza dos tempos monárquicos se devia mais às características secularmente estruturais de Portugal (e que muitas delas persistem hoje, iguais ou ligeiramente travestidas) que ao singelo facto de termos monarcas. Que a Primeira República foi uma rebaldaria indecorosa, com atropelos graves aos direitos e liberdades dos portugueses e de um anticlericalismo radical e dispensável. Que chegou à infâmia de proibir explicitamente o voto feminino, anteriormente possível em circunstâncias estreitas. Que nada faz equivaler ditaduras a monarquias. Que o ditatorial Estado Novo (de resto convidado pela rebaldaria) era um regime republicano. Que vários países europeus ricos e democráticos são monarquias e que a coisa socialista proto-totalitária venezuelana é uma república, bem como todos os totalitarismos comunistas (sendo que estes costumam descambar em monarquias das más, de facto).» Uma atitude – de mãe e de pedagoga – louvável e correcta, e uma explanação que corresponde à verdade dos factos, apesar de serem prejudicadas, ironicamente, pela utilização do abjecto AO90, o mais recente dejecto de uma «(di)gestão ortográfica» prepotente, regularmente enfraquecedora da língua e da cultura, e que foi iniciada (em 1911), precisamente, pelos republicanos, e desde logo criticada, condenada, entre outros, por Fernando Pessoa.
O segundo texto, «Saraiva, Sena e Salazar», foi escrito por António Cirurgião e publicado no Malomil. Nele o autor recorda e relata encontros que teve, há mais de 30 anos, com António José Saraiva, e a opinião do famoso historiador (irmão de José Hermano Saraiva, pai de José António Saraiva) sobre o (então) presente e o passado recente do país. Um excerto: «Depois de ele proferir os maiores horrores sobre a situação política, social, económica e cultural de Portugal, eu perguntei-lhe que remédios aventava ele para solucionar essa deplorável situação. E a resposta dele não se fez esperar. “Essa deplorável situação” resolvia-se com a restauração da monarquia, com um reizinho, uma figura paternal, à imitação de Salazar. Só dessa maneira se poderiam governar os portugueses, o povo mais individualista e ingovernável do planeta.» Porque a outra interveniente nessa (e testemunha dessa) conversa, Maria de Lourdes Belchior, também já faleceu, o depoimento do Dr. Cirurgião não pode ser confirmado. Mas, a ser verdade, não deixa de ser deveras interessante o que um suposto marxista, comunista, concluíra quanto à que poderia ser a melhor solução para o país… embora, obviamente, o ditador vindo de Santa Comba Dão não constituísse – aliás, não constitui e nunca constituirá – uma figura modelar para uma monarquia que se pretende democrática…
… E que foi imaginada, por mais do que um autor, na antologia colectiva de contos de história alternativa «A República Nunca Existiu!», que eu concebi, organizei, em que participei, e que consegui publicar em 2008, no centenário do Regicídio. E, porém, ela existe… infelizmente. (Também no MILhafre.)

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