quinta-feira, julho 14, 2022

Ocorrência: «Um Novo Portugal» já tem 10 anos

Há precisamente uma década, em Julho de 2012, o meu livro «Um Novo Portugal – Ideias de, e para, um País» começou a ser distribuído e vendido em livrarias. Publicado pela editora Fronteira do Caos, do Porto (que, no final do mesmo ano, lançaria outro projecto meu, a antologia colectiva de ficção científica e fantástico «Mensageiros das Estrelas»), esta obra reúne, por ordem cronológica, alguns dos meus mais importantes artigos de opinião, jornalísticos, ensaísticos...
... Que têm como denominador comum Portugal, a sua (então) actualidade, a sua história tanto contemporânea como antiga, as grandes questões e controvérsias, os protagonistas. Na minha actividade de escritor a vertente de ficcionista (em prosa) veio depois da de poeta, mas esta veio depois da de cronista, como bem o demonstra o texto que abre o livro, escrito em 1976 quando eu não tinha mais de 11 anos. Uma década depois, a partir de 1986, vêm os textos escritos num âmbito local e regional – para o Notícias de Alverca – e num âmbito universitário – para o DivulgAcção (boletim, que eu co-fundei, da Associação de Estudantes do ISCTE, cuja Direcção integrei) e outras publicações similares. A seguir será a vez de se somar as colaborações, mais irregulares do que regulares, para jornais e revistas de âmbito nacional, dos quais sobressai o Público. E, a partir de Abril de 2005, com a criação do Octanas, passei a dispôr de um meio alternativo quando não conseguia encontrar um «tradicional» para expressar as minhas opiniões e/ou quando não queria perder tempo a fazê-lo. «Um Novo Portugal» reflecte essa diversidade de fontes mas, em simultâneo, surge como um todo organizado e coeso – ou pelo menos assim o tentei – em que não é difícil identificar o meu principal «alvo»: o regime saído do 25 de Abril de 1974, a Terceira República – na verdade, toda a República desde 1910 – com as suas ridículas e incompetentes figuras de proa, as decisões mais ou menos desastrosas que tomaram, com um especial (e muito negativo) destaque para essa aberração denominada «acordo ortográfico» que não contribuiu, certamente, para a melhoria das relações com os outros países de língua oficial portuguesa.
«Um Novo Portugal» nunca chegou a ter uma apresentação propriamente dita; o mais próximo disso que aconteceu foi um encontro em que participei com outros escritores, realizado em Lisboa em Abril de 2014. Enfim, este meu livro, tal como todos os outros da minha autoria que consegui publicar, não teve o sucesso que acredito que merecia ter. E, obviamente, depois disso continuei a escrever e a divulgar outros textos que formam, ou poderão formar, o que poderá ser «Um Novo Portugal – Parte 2»; porém, a sua eventual publicação parece ser, neste momento, problemática e pouco provável. (Também no MILhafre.)

sexta-feira, junho 10, 2022

Observação: Um país em eutanásia

Hoje assinala-se e «celebra-se» mais um «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas». Um «feriado» sempre e cada vez mais ridículo, que não deveria ser o principal, o «dia nacional» do nosso (?) país. Não apenas por este, na verdade, e oficialmente, ter por nome «República Portuguesa», qual delegação sul-europeia e ocidental da «grande república mundial». Não apenas por ser uma invenção da II República e do Estado Novo, que a III e o Estado Social adoptaram após uma ligeira alteração na sua designação; antes de 1974 era também o dia da «raça», depois passou a ser também o das «comunidades portuguesas», algo como o que aconteceu com a ponte sobre o Tejo que liga Lisboa a Almada, inaugurada em 1966, que antes se chamava «Salazar» e depois passou a chamar-se «25 de Abril». Não apenas por ser estúpido, e até ofensivo, «festejar-se» a morte de um artista, de um poeta, o maior e o melhor que este «jardim à beira-mar plantado» alguma vez teve mas que tão mal tratou; e, em simultâneo, e na prática, «festejar-se» a perda da independência de Portugal, ocorrida igualmente em 1580; continua a ser bizarra a obsessão dos republicanos portugueses pelo iberismo, obsessão inconsciente e, sim, até mesmo consciente, demonstrada pela persistente e irritante mania de querer-se organizar um Campeonato do Mundo de Futebol em conjunto com a Espanha – deles não se deve esperar apoio para mudar o dia de Portugal para 14 de Agosto. Enfim, o 10 de Junho tornou-se, como se tal fosse possível (mas é), ainda mais ridículo porque este ano, na véspera, foram aprovados na casa da «deputação» nacional não um, não dois, não três mas sim quatro projectos de lei para a dita despenalização da «morte medicamente assistida», mais vulgarmente conhecida como eutanásia. Seria muito difícil, quiçá impossível, alcançar-se um mais perfeito simbolismo para a presente situação deste deprimente país; afinal, já não se quer tanto sentir «a voz dos egrégios avós» mas sim calá-la definitivamente - e, obviamente, os inevitáveis abusos deste procedimento sinistro não incidirão exclusivamente sobre os mais velhos. Esta é uma nação em pleno suicídio, o que aliás ficou comprovado nas mais recentes eleições legislativas, que proporcionaram uma segunda maioria absoluta aos que nos levaram à bancarrota há pouco mais de 10 anos. Que «não» se desespere, porém: a auto-destruição terá como «ortografia oficial» a do «acordo ortográfico de 1990», sem dúvida a adequada à «gramática» da cobardia, da desistência e até da traição.

terça-feira, maio 17, 2022

Outros: VGM evocado n’OLdLP

Isabel A. Ferreira, com o seu blog O Lugar da Língua Portuguesa, é, e desde há bastantes anos, a maior «guerreira» em Portugal contra o ilegítimo, ilegal, ridículo e prejudicial «acordo ortográfico de 1990», e nessa capacidade (e qualidade) só tem ao seu nível João Pedro Graça com o seu Apartado 53. No passado sábado ela publicou um post «recordando as ofensas póstumas a Vasco Graça Moura...», que inclui reproduções de dois textos meus que têm como tema, precisamente, o prematuramente falecido grande homem de cultura (em palavras e em actos). As referidas (e autênticas) ofensas foram cometidas pela Academia das Ciências de Lisboa e por Marcelo Rebelo de Sousa.

sábado, abril 30, 2022

Olhos e Orelhas: Primeiro Quadrimestre de 2022

A literatura: «Alix - A Tiara de Oribal» e «(...) - A Garra Negra», Jacques Martin; «Cavaleiro Ardente - A Lei da Estepe», «(...) - A Trompa de Névoa» e «(...) - A Harpa Sagrada», François Craenhals; «Blueberry - Forte Navajo» e «(...) - A Pista dos Navajos», Jean-Michel Charlier e Jean Giraud; «Corto Maltese - Tango», Hugo Pratt; «Dunquerque/Operação Dínamo», Pierre Dupuis; «Os Quadradinhos Completos de Kake», Tom of Finland (Dian Hanson, org.); «Michel Vaillant - Steve Warson Contra Michel Vaillant», «(...) - Rali Sobre um Vulcão» e «(...) - Rebuliço na F1», Jean Graton; «V de Vendetta», Alan Moore e David Lloyd; «Intenções Comestíveis, ou Nova Tábua de Cebes», David Soares e Filipe Abranches.
A música: «Amália Em Paris - Olympia 1956», Amália Rodrigues; «With A Little Help From My Friends» e «Joe Cocker!», Joe Cocker; «I Got Dem Ol' Kozmic Blues Again Mama!», Janis Joplin; «Chunga's Revenge», Frank Zappa; «Crónicas Da Terra Ardente», Fausto; «Washing Machine», Sonic Youth; «Wild Mood Swings», Cure; «Blood On Ice», Bathory; «Odelay», Beck; «Mumadji», Maria João e Mário Laginha; «Welcome 2 America», Prince; «Happier Than Ever», Billie Eilish; «Voyage», Abba; «30», Adele; «Rinaldo», George Frideric Handel (por Armand Arapian, Carolyn Watkinson, Charles Brett, Ileana Cotrubas, Paul Esswood, Ulrik Cold, e outros, com La Grande Écurie et La Chambre du Roy dirigida por Jean-Claude Malgoire); «Die Schopfung», Joseph Haydn (por Edith Mathis, Francisco Araiza e José Van Dam, com o Coro de Viena dirigido por Helmuth Froschauer e a Orquestra Filarmónica de Viena dirigida por Herbert Von Karajan).     
O cinema: «Casa de Lava», Pedro Costa; «Requiem Por um Sonho», Darren Aronofsky; «Mapa Para as Estrelas», David Cronenberg; «A Rapariga da Porta ao Lado», Luke Greenfield; «O Clube do Pequeno Almoço», John Hughes; «Nader e Simin, Uma Separação», Asghar Farhadi; «Carta Selvagem», Simon West; «Rápidos e Furiosos Apresentam - Hobbs & Shaw», David Leitch; «Plano de Fuga», Mikael Hafstrom; «Rambo - Último Sangue», Adrian Grunberg; «Memórias de Assassínio», Bong Joon Ho; «Anon», Andrew Niccol; «Vida», Daniel Espinosa; «Ultravioleta», Kurt Wimmer; «Mundo de Água», Kevin Reynolds; «Metrópolis», Fritz Lang; «Stan & Ollie», Jon S. Baird; «Olhos Grandes», Tim Burton; «Lenny», Bob Fosse; «Patsy e Loretta», Callie Khouri; «Clímax», Gaspar Noé; «Dois Para o Dinheiro», D. J. Caruso; «O Equalizador 2», Antoine Fuqua; «A Dívida», John Madden; «O Jogo Choroso», Neil Jordan; «Bela de Dia», Luis Buñuel; «A Vida Aquática com Steve Zissou», Wes Anderson.
E ainda...: (Sítio na Internet) 75 anos (do nascimento) de David Bowie; Fundação Calouste Gulbenkian - exposição «Hergé»; RTP2/HBO - (documentário) «Mapplethorpe - Olhem Para as Imagens», Fenton Bailey e Randy Barbato; Museu do Neo-Realismo - exposição «Jorge Vieira - Monumento ao prisioneiro político desconhecido» + exposição «Representações do povo»; FNAC - exposição de fotografias de Rita Carmo «Exit - Saída de Emergência» (Chiado); RTP2/BBC - (documentário) «David Bowie - Encontrando Fama», Francis Whately; Biblioteca Nacional de Portugal - exposição «Bibliotecas limpas - Censura dos livros impressos nos séculos XV a XIX» + exposição «Viagem a um país desconhecido - Emílio Biel, "A Arte e a Natureza em Portugal"» + mostra «Um modernista autodidacta - Delfim Maya» + mostra «Mário Domingues - Anarquista, cronista e escritor da condição negra» + mostra «Rui de Pina - 500 anos depois» + mostra «O império informal dos portugueses na Ásia»; «Hey Hey Rise Up», (vídeo musical dos) Pink Floyd; Câmara Municipal de Vila Franca de Xira - CartoonXira 2022/Cartoons do Ano 2021-Desenhos à Margem/Simanca (Celeiro da Patriarcal).

sábado, abril 16, 2022

Orientação: Sobre a longa noite, no DN

(Adenda a 20 de Abril - Hoje foi enfim publicada digitalmente a versão alargada e integral do artigo, entregue em simultâneo com a versão inicial e reduzida para a edição em papel.)
Na edição de hoje (Nº 55878) do jornal Diário de Notícias, na página 9, e também, na sua versão alargada e integral, no sítio na Internet daquele, está o meu artigo «A longa noite socialista». Um excerto: «As esperanças proporcionadas pelo “movimento dos capitães” cedo começaram a desvanecer-se com um “processo revolucionário em curso” pródigo em prepotências disfarçadas e/ou desculpadas em nome da “justiça popular”; a descolonização foi desastrosa; as nacionalizações foram desastrosas; a então nova Constituição foi e é desastrosa, não só porque durante vários anos, e precisamente, consagrou a “irreversibilidade” das nacionalizações, mas ainda porque continua a ter como objectivo “abrir caminho para uma sociedade socialista” e a impôr a “forma republicana de governo” como única possível.» (Também no MILhafre.)

quarta-feira, março 30, 2022

Observação: «Filhos» e «enteados»

Acaso o sector editorial-literário português terá registado alguma melhoria e/ou dado alguns sinais de (verdadeiro) progresso – no sentido de um maior respeito tanto para com o público leitor (real e potencial) como para com os escritores sem «cunhas» e/ou desalinhados com o «sistema» - desde 2018, quando denunciei a fraude perpetrada pela Sociedade Portuguesa de Autores na atribuição de um prémio, e ainda o boicote generalizado (e concertado?) a obras (mais concretamente, uma minha) que divergem do «consenso» quanto à análise da situação política nos EUA?
Nem por isso, a avaliar pelos factos de que vou tendo conhecimento... Seria, por exemplo, de esperar que novas editoras se comportassem de um modo diferente, talvez mais... transparente. Infelizmente, não é o caso da Editorial Divergência, cujo fundador-director-editor principal, para além de ter decidido impor-me «regras» - na verdade, restrições – personalizadas num projecto que eu estava a organizar (e que por isso não se concretizou), mais recentemente confessou(-me) que tem sido sempre membro do júri do Prémio António de Macedo – uma designação que a mim se deve – apesar de saber quem são os autores dos romances supostamente submetidos anonimamente porque... é ele quem os recebe, numa conta de correio electrónico que detém! Algo que coloca em causa, e quiçá até invalida, todas as deliberações – e, logo, todos os «vencedores» – das edições anteriores, incluindo, obviamente, a última, em que o «triunfo» foi para uma obra cujos título e enredo são tão bizarros que se justifica questionar se efectivamente não haveria outra(s) eventualmente mais merecedora(s) da distinção... e de publicação.
E que dizer de alguns escritores ainda novos mas que são já – para muitas, talvez demasiadas, pessoas – como que «vacas sagradas»? Em Portugal dois exemplos se destacam. Um é José Luís Peixoto, cujo mais recente trabalho poderá não ser tão ficcional, e original, como aparenta: uma peça de teatro que provavelmente é um «diário» dissimulado, resultante de uma viagem à Roménia feita por aquele no ano passado – vá lá que, desta vez, não foi à Coreia do Norte; e escreve utilizando o abominável «acordo pornortográfico», pelo que também por isso não merece respeito. O segundo exemplo é Afonso Reis Cabral, que, nem de propósito, trabalhou numa vacaria; tal como Peixoto, também venceu o Prémio José Saramago... mas quando já se sabia de quem ele é descendente; sendo a oposição (e a expressão) entre «filhos» e «enteados» utilizada frequentemente para apontar e salientar injustas diferenças de tratamento, com Cabral justifica-se alargar o grau de parentesco para netos... e trinetos, e é igualmente por isso que ele foi designado, há pouco mais de um mês, como novo presidente do conselho de administração da Fundação Eça de Queiroz; enfim, e tal como o dinheiro, o nome da família não traz necessariamente a felicidade... mas ajuda muito.

terça-feira, fevereiro 22, 2022

Opinião: A confirmação do conformismo

No passado dia 7 de Fevereiro Henrique Pereira dos Santos publicou no blog Corta-Fitas o seu texto «Sampaio, Santana e as instituições», em que afirma que «(Somos) tão poucos a ter a opinião de que Sampaio, quando dissolveu o parlamento em Novembro de 2004, o fez de uma forma institucionalmente inadmissível. (...) O governo de Sócrates foi muito pior e perigoso para o país que o de Santana Lopes, culminando num pedido de assistência externa. (...) Sampaio resolveu, de acordo com o poder discricionário que a constituição lhe dá, dissolver a Assembleia da República, mas é completamente terceiro-mundista fazê-lo sem que o justifique, tornando uma prerrogativa numa prepotência. (...) O problema é que esta fragilidade institucional nos deixa quase indefesos, como sociedade, face à possibilidade de cometermos os mesmos erros.»
Porque eu considero este facto político o mais significativo e consequente (no mau sentido) em Portugal dos últimos 20 anos, senti-me na «obrigação» de deixar o meu comentário: «Não sei se são assim “tão poucos” os que pensam, e afirmam, que Jorge Sampaio dissolveu o parlamento em 2004 de uma forma “institucionalmente inadmissível”. De qualquer forma, eu sou um deles, e em 2007, no meu artigo “Sem pejo”, publicado n'O Diabo (e depois incluído no meu livro “Um Novo Portugal”, editado em 2012), escrevi o seguinte: “A decisão de maior impacto que Jorge Sampaio tomou, não só em 2004 mas em todos os dez anos enquanto presidente, foi sem dúvida a demissão (indirecta) do Governo de Pedro Santana Lopes através da dissolução da Assembleia da República, processo que decorreu entre Novembro e Dezembro daquele ano. Já em Outubro Sampaio teria afirmado, numa entrevista, ‘que preferia que outro partido tivesse ganho as eleições (legislativas de 2002), mas o PR não pode expressar estados de alma...’ Afinal, expressou-os e concretizou-os. Justificou a sua decisão com uma alegada série de ‘incidentes, contradições e descoordenações’ - que não explicitou - e com uma alegada ‘concordância geral’ por parte da opinião pública – que não demonstrou. Tanto aos governos de António Guterres, antes, como ao de José Sócrates, depois, podem ser apontados autênticos, muitos e mais graves ‘incidentes, contradições e descoordenações’... mas em relação a esses Sampaio não teve a mesma atitude. Porque eram do seu partido? Quando, em Julho de 2005, Luís Campos e Cunha se demitiu (ou foi demitido?) de ministro das Finanças por discordar dos projectos da Ota e do TGV, o então PR não deve ter considerado tal facto um motivo para dissolver a AR... mas fê-lo depois de Henrique Vale se demitir por não concordar com os pelouros que Santana lhe atribuíra. Enfim, é uma questão de saber o que é mais importante...” Mais recentemente, e sobre o mesmo assunto, acabei por manter um breve “diálogo” com Luís Menezes Leitão no Delito de Opinião.»
Nesse «diálogo», ocorrido a propósito de um texto de LML publicado em 23 de Fevereiro de 2019 (sim, há exactamente três anos), eu afirmei: «Já o disse e escrevi anteriormente, incluindo aqui no DdO, e espanta-me que tenha de voltar ao assunto: afirmar que o governo presidido por Pedro Santana Lopes foi o “pior”, ou “o mais desastroso”, ou qualquer outra idiotice desse tipo, só demonstra que quem o faz tem sérios problemas de (falta de) inteligência, de memória e/ou de saúde. José Sócrates decerto agradece tais disparates. (…) José Sócrates agradeceu, sim (e, se não o fez, devia tê-lo feito), a Jorge Sampaio a oportunidade que teve. E, comparado com o do “engenheiro ao domingo”, o governo de Pedro Santana Lopes foi mesmo magnífico. (...) A alusão às “pessoas que continuam a apostar em (Pedro) Santana Lopes” não é para mim de certeza, pois não “aposto” nele nem em praticamente qualquer figura do actual regime - regime que, volto a dizer, já há muito passou do “prazo de validade” e deve ser substituído. Porém, isso não implica que aceite, nem que seja pelo silêncio, as mentiras, as falácias, as distorções, enfim, a reescrita falseada da História, que atingem PSL ou qualquer outra pessoa. Obviamente, o governo daquele tinha de facto “um mínimo de consistência” - interna e ainda um apoio maioritário no parlamento - e não andou a “perder tempo com incubadoras” - tal foi apenas um “fait-divers”, um “sound-bite”, que, claro, os opositores e a comunicação social “amiga” daqueles trataram de exagerar até à histeria, criando o ambiente propício para que em eleições legislativas (indevidamente) antecipadas o PS obtivesse um (imerecido) triunfo. Desastrosa foi, sim, a presidência de Jorge Sampaio, cujas consequências continuamos a sofrer.» E ao domínio «rosa» será suficiente existir somente uma alternativa «laranja»? Há muitas pessoas que pensam isso, entre as quais José Miguel Roque Martins, que, também no Corta-Fitas, mas a 23 de Julho de 2021, escreveu, no seu texto «A responsabilidade total do PS», que «é difícil vislumbrar um futuro para Portugal sem um pacto de regime entre os dois maiores partidos, o PS e o PSD.» Em resposta comentei e perguntei: «A sério? É esse o único futuro que se vislumbra para Portugal? Uma continuada partilha entre os partidos do “centrão”, pródiga em incompetência e em corrupção? Que mais não tem feito do que “gerir” a desmoralização, o declínio, a degradação deste país, a diferentes níveis, político, social, económico, cultural? E porque não um futuro diferente? Que implique, por exemplo, uma radical renovação, quiçá uma revolução, que acabe com este regime, a III República? Que, aliás, acabe com a República, pura e simplesmente? Que permita trazer e aplicar novos valores, novas ideias, novos talentos?»
Os resultados das eleições legislativas do passado dia 30 de Janeiro vieram demonstrar, nova e infelizmente, que essa (muito) necessária transformação fundamental não é possível em Portugal, pelo menos por meios pacíficos. O mais recente escrutínio nacional apenas constituiu (mais um)a confirmação do conformismo em que se encontra uma parte considerável, quiçá maioritária, da população deste país, que proporcionou ao Partido Socialista a segunda maioria absoluta da sua história. O mesmo é dizer, proporcionou aos mesmos protagonistas (menos um ou outro) da primeira, que levou a nação à falência, uma segunda oportunidade para, sem obstáculos institucionais, arrastarem-nos, talvez desta vez definitiva e irreversivelmente, para a ruína total. Serão esses cidadãos irremediavelmente estúpidos? Simples masoquistas? Terão memórias (muito) curtas? Seja como for, é cada vez mais legítimo questionar se todos os povos merecem a democracia, e se a plena igualdade de direitos e de deveres para todos os indivíduos se justifica. Porque é que uns, lúcidos e motivados, têm de ser sucessivamente prejudicados por outros, iludidos e manipulados? E porque é que para muitos dos que não se resignam com a cobardia, a estagnação e a mediocridade que os rodeia a melhor, ou a única, solução continua a ser a emigração?  
Os que erram constantemente não merecem respeito. Cada vez mais se impõe desafiar a noção, ou o dogma, de que «a vontade popular é soberana» se essa suposta «vontade» não passa de uma obediência rotineira a ordens ilógicas, injustas e/ou ilegítimas. A sujeição é algo de sujo. 

domingo, janeiro 23, 2022

Observação: Há «guerreiros» que não desistem

A 3 de Janeiro último assinalei, no blog MILhafre, o 80º aniversário do nascimento de Vasco Graça Moura. Cujos consideráveis contributos para a cultura nacional incluiram, para além da sua vasta produção literária (tanto própria como traduzindo outros), os seus desempenhos enquanto Presidente da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e co-criador da Expo 98 e, obviamente, a sua militância activa contra o abjecto «acordo ortográfico de 1990». Que durou praticamente até à sua morte, ocorrida quando era Presidente do Centro Cultural de Belém, onde – demonstrando a sua coerência e a sua coragem ao passar das palavras (com todas as consoantes) aos actos – ordenou que todos os meios de comunicação e de informação daquela instituição voltassem a ser redigidos em Português Normal e CorreCto.
É possível que uma situação semelhante aconteça em breve na Fundação Calouste Gulbenkian. E isto porque o novo Presidente daquela, António Feijó, é, tem sido, era também (segundo as mais recentes afirmações públicas sobre este tema) forte opositor do AO90. Em princípio será mais fácil, ou menos difícil, voltar a impôr a ortografia certa numa entidade privada como a FCG do que numa pública como o CCB. Porém, recuperar e revitalizar aquela fundação não passa apenas por restaurar nela a prática de escrever bem e sem erros. Com efeito, tal implica igualmente, por exemplo, não tomar decisões ridículas como atribuir um «Prémio para a Humanidade» a uma adolescente estrangeira com evidentes problemas mentais, doutrinada e manipulada desde a infância para servir de «símbolo» de uma «causa» que mais não é do que uma enorme fraude.
Entretanto, enquanto se espera pelas acções de António Feijó (que só tomará posse do seu novo cargo em Maio próximo), há que não esquecer que existem «guerreiros» contra o «acordo pornortográfico» que não desistem de lutar, e que por isso são dignos guardiães do legado de Vasco Graça Moura, entre os quais se pode e deve destacar Francisco Miguel Valada, Isabel A. Ferreira, João Pedro Graça, Nuno Pacheco e Rui Valente. Leiam-nos e divulguem-nos!