quinta-feira, agosto 31, 2006

Olhos e Orelhas: Segundo quadrimestre de 2006

A literatura: «O Uruguai», José Basílio da Gama; «(Sub)Realidades», Pedro Lúcio; «O Sol Naquele Dia ou A Árvore de Zeus», S. Franclim; «Roma Eterna», Robert Silverberg; «O Anjo de Pasqual» («A Invenção de Leonardo»), Paul McAuley; «O Último Cabalista de Lisboa», Richard Zimler; «O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa» e «A Voz da Terra», Miguel Real.
A música: «Renegade», Thin Lizzy; «Mummer», XTC; «Tusk», Fleetwood Mac; «Outside», David Bowie; «Parallel Lines» e «Eat To The Beat», Blondie; «Os Homens Não Se Querem Bonitos» e «Psicopátria», GNR; «Parachutes» e «A Rush Of Blood To The Head», Coldplay; «Mind, Body & Soul», Joss Stone; «Medúlla», Bjork; «Floribella», Luciana Abreu, e outros; «Sabbath Bloody Sabbath», Black Sabbath; «Miserere, Lamentations, Stabat Mater», João Rodrigues Esteves (pelo Ensemble Européen dirigido por Graham O’Reilly).
O cinema: «Pollock», Ed Harris; «Rio Mystic», Clint Eastwood; «Fintar O Destino», Fernando Vendrell; «Cabine Telefónica», Joel Schumacher; «Caçador de Sonhos», Lawrence Kasdan; «Adriana», Margarida Gil; «O Dragão de Fumo», José Carlos Oliveira; «X-Men: O Confronto Final», Brett Ratner; «Starship Troopers 2: Herói da Federação», Phil Tippett; «A Supremacia de Bourne», Paul Greengrass; «Era uma Vez no México», Robert Rodriguez; «S. W. A. T.», Clark Johnson; «Delicatessen», Jean Pierre Jeunet e Marc Caro; «História de Tubarões», Vicky Jenson, Bibo Bergeron e Rob Letterman; «Espectáculo Cinematográfico de Horror Rocky», James Sherman; «Medo Primário», Gregory Hoblit.
E ainda...: «1755: O Grande Terramoto», Miguel Real e Filomena Oliveira, Teatro da Trindade, Lisboa; Zoomarine, Algarve.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Outros: «OND» na Exame

A edição Nº 269, Setembro de 2006, da revista Exame, inclui, na página 123 (rubrica Livros), o seguinte comentário ao livro - sob a imagem da respectiva capa - «Os Novos Descobrimentos – Do Império à CPLP: Ensaios sobre História, Política, Economia e Cultura Lusófonas», escrito por mim e por Luís Ferreira Lopes: «Novo Império: os autores fazem do que foi o império colonial o motor da viagem ao universo da lusofonia, estratégico para o futuro de Portugal.»

domingo, agosto 13, 2006

Outros: «Carta» (agora «aberta») a MRS...

... Enviada hoje para asescolhasdemarcelo@rtp.pt

Caro Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa:
A emissão de hoje (domingo, 13 de Agosto) do seu programa «As Escolhas de Marcelo Rebelo de Sousa», emitido na RTP, foi a terceira consecutiva em que aguardei que o senhor corrigisse um erro que cometeu na emissão de 23 de Julho. Infelizmente, e mais uma vez, tal não aconteceu.
Naquela data um dos temas que o senhor abordou foi o décimo aniversário da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, que se assinalou no passado dia 17 de Julho – nomeadamente, com uma cimeira de chefes de Estado e de Governo na Guiné-Bissau. Então, e após fazer um balanço da actividade da organização nestes últimos dez anos, apontando os pontos positivos e os negativos, o senhor disse mais ou menos o seguinte: que em Portugal ninguém se havia lembrado da efeméride, que no nosso país nada havia sido feito para evocar o acontecimento.
Ora, tal não corresponde à verdade.
Sou um dos dois autores – o outro é o meu amigo e também jornalista Luís Ferreira Lopes – de um livro intitulado «Os Novos Descobrimentos – Do Império à CPLP: Ensaios sobre História, Política, Economia e Cultura Lusófonas». Com prefácio de José Manuel Durão Barroso e editado pela Almedina com apoio do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o nosso livro foi apresentado na livraria daquela editora no Atrium Saldanha no passado dia 17 de Julho – exactamente, foi propositado, para coincidir com o décimo aniversário da CPLP. Na mesa estavam - além de, obviamente, nós, os autores – Adriano Moreira, Carlos Pinto Coelho, Manuel Ennes Ferreira e Nicolau Santos – que, mais do que comentarem o nosso trabalho, debateram a importância da criação e da acção daquela Comunidade na passada década.
Estas informações não deveriam constituir novidade para si: além de umas estarem constantes, claro, no livro, outras podiam ser confirmadas no convite que, juntamente com um exemplar da nossa obra, lhe foi enviado pela Almedina logo a 24 ou a 25 de Julho – para o senhor poder confirmar, precisamente, a inexactidão da sua afirmação, e fazer menção disso mesmo no seu programa. A questão que se deve colocar agora é se essa menção alguma vez será feita...
... Porque, sinceramente, penso que temos direito a ela. À partida, não contaríamos que o senhor se referisse ao nosso livro no seu programa – afinal, sabemos e compreendemos que são muitas as solicitações que o senhor recebe e que são poucos os livros que o senhor pode mostrar no pouco tempo de que dispõe. Porém, o nosso «caso», espero que concorde, tornou-se em algo mais do que uma mera «sugestão de leitura»: trata-se de repor a verdade sobre um determinado – e importante - assunto junto dos (muitos) telespectadores que semanalmente assistem ao seu programa.
Aliás, e voltando à emissão de hoje, e comentando uma decisão de Aníbal Cavaco Silva – a promulgação da chamada Lei da Paridade – que não decorreu como previa, o senhor disse: «Eu enganei-me. E gosto de dizer quando me engano.» Não quero acreditar que tal atitude se aplique apenas quando estão em causa o Presidente da República, outros políticos ou individualidades de... maior notoriedade.
Os meus cumprimentos,
Octávio dos Santos

Esta mensagem foi depois reencaminhada para o Provedor do Telespectador da RTP.

sábado, julho 29, 2006

Outros: «OND» no Expresso

Hoje, 29 de Julho de 2006, na edição Nº 1761 do Expresso, mais concretamente na sua rubrica «Cem por Cento» inserida no suplemento de economia (página 2) daquele jornal, Nicolau Santos faz uma referência ao livro «Os Novos Descobrimentos – Do Império à CPLP: Ensaios sobre História, Política, Economia e Cultura Lusófonas», escrito por mim e por Luís Ferreira Lopes e editado este mês pela Almedina.
No seu (pequeno) artigo «Dez anos de CPLP», o jornalista e director-adjunto daquele semanário – que conheci pessoalmente aquando da sessão de apresentação do livro, que decorreu, recorde-se, no passado dia 17 na Livraria Almedina do Atrium Saldanha em Lisboa, e em cuja mesa estiveram, além dele e dos autores, Adriano Moreira, Manuel Ennes Ferreira e Carlos Pinto Coelho – escreve, entre outras, as seguintes considerações: «A Comunidade de Países de Língua Portuguesa cumpriu dez anos de existência, com uma cimeira na Guiné-Bissau. (...) Em Portugal, a data só foi assinalada pelo lançamento do livro "Os Novos Descobrimentos", de que é co-autor o jornalista da SIC, Luís Lopes. (...) A CPLP é uma excelente ideia, que já teve algumas vitórias (...) mas está muito aquém de realizar todo o seu potencial. (...) Temos a obrigação e o dever de ser o grande motor de afirmação da CPLP, porque esse é um vector fundamental da estratégia de afirmação de Portugal no século XXI.»
Note-se que Nicolau Santos terá feito uma referência ao nosso livro a 21 de Julho, no programa «O Expresso da Meia Noite», emitido na SIC Notícias.

sábado, julho 22, 2006

Oráculo: 5 nomes para 9 de Novembro

Dos dois colóquios/exposições cuja realização neste ano eu propus à Biblioteca Nacional (que aceitou), um já tem o alinhamento de oradores praticamente definido: é o de 9 de Novembro, o segundo a ter lugar no grande edifício do Campo Grande, e que tem como título/tema «Livros de 1756».
Felizmente, todos as cinco personalidades que eu sugeri para esta iniciativa aceitaram o convite da BN. Vasco Graça Moura, Jorge P. Pires, Miguel Real, Faustino Cordeiro e António de Araújo irão falar, principal e respectivamente, de Voltaire, Francisco Xavier de Oliveira, Gabriel Malagrida, António Ribeiro Sanches e Immanuel Kant. Vasco Graça Moura traduziu o «Poema sobre o Desastre de Lisboa» (Alêtheia); Jorge P. Pires também traduziu aquela obra do grande filósofo francês e ainda o «Discurso Patético» do Cavaleiro (Frenesi); Miguel Real e Faustino Cordeiro dedicaram muito tempo à investigação das vidas, obras e épocas, respectivamente, do padre italiano e do médico português – de que resultou, nomeadamente, para o primeiro, o romance «A Voz da Terra» (QuidNovi), e, para o segundo, duas colectâneas de textos inéditos do cientista natural de Penamacor (edição da respectiva Câmara Municipal); e António de Araújo foi o organizador do livro «Escritos Sobre o Terramoto de Lisboa» do grande filósofo alemão, editado no ano passado pela Almedina.
Em relação à outra (e primeira – será a 19 de Outubro) iniciativa, «250 Anos da Arcádia Lusitana», continua-se a fazer contactos e convites. Espero apresentar em breve os nomes dos respectivos oradores.

segunda-feira, julho 17, 2006

Obrigado: Aos que compareceram hoje

Exprimo aqui o nosso agradecimento – meu e de Luís Ferreira Lopes – a todos aqueles - familiares, amigos, colegas, conhecidos - que compareceram hoje na sessão de apresentação do nosso livro «Os Novos Descobrimentos – Do Império à CPLP: Ensaios sobre História, Política, Economia e Cultura Lusófonas», realizada na Livraria Almedina, no Atrium Saldanha, em Lisboa. Dizemos um «muito obrigado» muito especial a Adriano Moreira, Manuel Ennes Ferreira, Carlos Pinto Coelho e Nicolau Santos por nos terem dado a honra da sua presença e o valor das suas intervenções. E uma saudação especial à SIC por ter emitido, no final do seu Jornal da Noite de hoje, uma reportagem sobre a sessão de apresentação do nosso livro e o décimo aniversário da fundação da Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

sexta-feira, junho 30, 2006

Oráculo: «Os Novos Descobrimentos» é apresentado a 17 de Julho

É no próximo dia 17 de Julho – data em que se assinala também o décimo aniversário da fundação da Comunidade de Países de Língua Portuguesa – que se realiza, a partir das 17.30 horas e na Livraria Almedina do centro comercial Atrium Saldanha, em Lisboa, a sessão de apresentação do livro - escrito por mim e por Luís Ferreira Lopes - «Os Novos Descobrimentos – Do Império à CPLP: Ensaios sobre História, Política, Economia e Cultura Lusófonas».
O Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros apoiou a edição, pela Almedina, deste livro – cujo prefácio foi escrito por José Manuel Durão Barroso, actual presidente da Comissão Europeia, ex-primeiro ministro, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-secretário de Estado da Cooperação de Portugal. O também ex-presidente do Partido Social Democrata não estará presente na sessão de apresentação; porém, estarão presentes os professores Adriano Moreira e Manuel Ennes Ferreira e os jornalistas Carlos Pinto Coelho e Nicolau Santos.

sábado, junho 10, 2006

Oráculo: Celebrar 1756 em 2006

A Biblioteca Nacional de Lisboa vai realizar, no próximo Outono, duas iniciativas (colóquios/exposições) que eu propus à sua direcção no final do ano passado – primeiro a Diogo Pires Aurélio, depois a Jorge Couto – e que podem ser relacionadas com a evocação do Portugal do século XVIII, e em especial com o Terramoto de 1755. São elas: «250 Anos da Arcádia Lusitana», a 19 de Outubro; e «Livros de 1756», a 9 de Novembro. Ambas as datas são, por enquanto, provisórias.
A segunda iniciativa terá como objectivos recordar livros fundamentais publicados há 250 anos, enunciar e analisar os seus significados e impactos na época em que foram publicados, e avaliar a sua relevância na actualidade. São eles: «Discurso Patético», de Francisco Xavier de Oliveira; «Tratado da Conservação da Saúde dos Povos», de António Ribeiro Sanches; «Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto», de Gabriel Malagrida; e «Poema sobre o Desastre de Lisboa», de Voltaire. Serão ainda abordados os «Escritos sobre o Terramoto de Lisboa», de Immnuel Kant – escritos esses publicados originalmente em jornais alemães também em 1756 e só posteriormente reunidos em livro.
Os mesmos objectivos podem ser aplicados à primeira iniciativa, embora nesta estejam principalmente em destaque, antes dos livros, os seus autores – mais especificamente, uma associação de poetas. Trata-se de assinalar, um quarto de milénio depois, a fundação de uma instituição que viria a influenciar decisivamente, não só a literatura, mas também toda a cultura em Portugal, tanto na sua primeira «encarnação» - que incluiu nomes como Pedro Correia Garção, Domingos dos Reis Quita, António da Cruz e Silva – como na segunda – Manuel Barbosa du Bocage, Domingos Caldas Barbosa, José Agostinho de Macedo.
Estas duas iniciativas poderão constituir igualmente o pretexto para a organização, paralela e/ou posterior, de outros eventos, artísticos e não só, relativos aos factos e às figuras nacionais daquela época.

quinta-feira, maio 25, 2006

Outros: SbH - e «Visões» - na Feira do Livro

Hoje, 25 de Maio de 2006, abriu ao público, no Parque Eduardo VIII, a 76ª Feira do Livro de Lisboa, que se prolonga até 13 de Junho. A Solutions by Heart está presente neste certame através de um expositor colocado no pavilhão das pequenas editoras, e nesse expositor está o meu áudio-livro «Visões», juntamente com as duas outras obras já editadas pela SbH: (os dois volumes de) «Contos», de Hans Christian Andersen, e «O Islão segundo um Ocidental», de S. Franclim.
Deste autor, pseudónimo do meu amigo Sérgio Sousa Rodrigues, estão também disponíveis outros livros em pavilhões de outras editoras: «O Alfarrabista que mandou falsificar Os Lusíadas», na Prefácio; e «Os Dois Corvos de Odin» e «O Sol Naquele Dia ou A Árvore de Zeus», na Zéfiro/Tribuna da História. Outros amigos escritores com obras à venda na Feira do Livro 2006 incluem: António de Macedo, com «As Furtivas Pegadas da Serpente», na Caminho, e «Esoterismo da Bíblia», na Ésquilo; Cristina Flora, com «A Saudade do Rei», na Minerva, e «A Inconstância dos teus Caprichos», na Presença; e Luís Sequeira, com «Quatro Andamentos», na Caminho.

quarta-feira, maio 24, 2006

Ocorrência: Livros salvados

Hoje, 24 de Maio de 2006, abriu ao público, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, a Exposição da Campanha Salve um Livro II (que se prolonga até 28 de Julho), que reúne e mostra obras antigas que foram objecto de trabalhos de conservação e de restauro. Eu estive presente... na qualidade de (um dos) mecenas desta campanha.
Foi há mais de dois anos, a 14 de Maio de 2004, que me desloquei à BN para entregar um cheque no valor de 285 euros «para pagar a intervenção de conservação e restauro da obra Nº 7 ao abrigo da campanha “Salve um Livro”.» Essa intervenção incluiu: a «realização de (nova) encadernação em pele» – porque a anterior, «embora esteja em bom estado de conservação, descaracteriza a obra» por ter sido feita «com materiais de má qualidade e cujo estilo não é contemporâneo da obra em questão»; o «tratamento integral do corpo do livro» - porque este apresenta(va) «sujidade superficial depositada, foxing, intervenções anteriores de restauro e orifícios provocados pela acção dos insectos»; o «acondicionamento em caixa de cartão isento de acidez»; e a execução de um microfilme.
E qual é a «obra Nº 7» da lista de quase uma centena desta (segunda) campanha «Salve um Livro» (a primeira foi em 1994)? É «O Uruguai», de José Basílio da Gama, cuja primeira edição – a do exemplar que foi restaurado – é de 1769. A importância deste livro e do seu autor pode melhor ser aferida através da leitura das citações que se seguem, apenas duas das que recolhi e transcrevi durante as pesquisas que efectuei para escrever o meu livro «Espíritos das Luzes». António José Saraiva e Óscar Lopes afirmam que «o primeiro poema heróico em que se encarecem as populações nativas do Brasil e em que a sua paisagem perpassa, embora muito palidamente, é o “Uruguai” de Basílio da Gama, nascido em Minas Gerais, educado pelos jesuítas, homem culto e viajado, que, apesar das suspeitas resultantes do seu noviciado na Companhia de Jesus, soube conciliar o favor do Marquês de Pombal e nobilitar-se. O poema tem como assunto principal a campanha do governador Gomes Freire de Andrade contra certas tribos ameríndias que o Tratado de Madrid de 1750 incluiu dentro do território colonial português, mas nas quais os missionários jesuítas haviam fortificado as aspirações autonomistas. Basílio da Gama preenche cinco pequenos cantos de verso decassilábico branco sem recorrer aos artifícios da mitologia clássica, utilizando o árido desenrolar histórico da campanha militar como enquadramento de um romance ameríndio, em que se salienta o pundonor dos chefes guerreiros, a tragédia de amor da jovem Lindóia, a caricatura de um factótum dos jesuítas e, finalmente, uma visão dantesca das maquinações em prol do império universal que atribui à Companhia de Jesus. É significativo o contraste entre o convencionalismo com que Basílio da Gama retrata os militares portugueses e a desenvoltura do romance ameríndio, e deve notar-se a justeza, conquanto esmaecida, da cor local. O “Uruguai” não fica mal ao lado do “Camões” de Garrett, o primeiro poema geralmente tido como romântico na nossa literatura, e que visivelmente influenciou; contribuiu, mais do que qualquer outra obra setecentista, para uma autonomia temática da literatura brasileira. (SARAIVA, António José, LOPES, Óscar, «O Século das Luzes», em História da Literatura Portuguesa, Porto, Porto Editora, 1979 (11ª edição), pp. 680-681).
Vinte anos mais tarde, Jorge Henrique Bastos, depois de referir – e repetir – as características da obra e as circunstâncias em que ela surgiu, realçará o facto de o poema - «considerado um dos principais marcos fundadores da nacionalidade literária brasileira» - ter sido publicado «no ano em que Pombal recebera o título de Marquês, e teve um tão intenso impacto sobre ele que mesmo (as pinturas d)o tecto do palácio de Pombal, em Oeiras, parece ter sido inspirado em passagens do poema.» (BASTOS, Jorge Henrique, «O Marquês e o Rei», em Expresso, Lisboa, 1999/8/14, pp. 69-73 (Revista)).

sexta-feira, maio 05, 2006

Opinião: Não (n)os esqueceremos

Não. Não nos esqueceremos. Não os esqueceremos. Mas... como poderíamos? Como poderemos esquecer que pessoas que amámos desapareceram, da maneira mais cruel e injusta?
Eles não mereciam isto.
Morreram antes de experimentarem tantas emoções, tantas sensações que a vida pode, e deve, oferecer. Quantos sonhos ficaram por realizar? Muitos, muitos, muitos.
Saber que eles ficaram ali, esmagados, mutilados, crucificados, entre os ferros da carruagem da morte, é ainda difícil de acreditar. Ter-se-ão eles apercebido do que ia acontecer? Será que eles sofreram muito? Que dor, que agonia!
Nós, os que ficámos, também sentimos a dor e a agonia. Poderia ter sido connosco em vez de com eles.
Já se passou um mês, mas o sofrimento persiste. E daqui a um, cinco, dez, muitos anos, continuaremos a sofrer.
Que posso eu fazer? Poucos dias antes da tragédia, eu e o Chico, meu grande, meu querido amigo, tínhamos conversado longamente, sobre as nossas vidas, as nossas experiências, sobre aquilo que gostaríamos de fazer. A sua imagem e a sua voz ficaram marcadas em mim para sempre. Digam-me: que posso eu fazer? Que podem fazer os pais, os irmãos, os parentes, os amigos?
Enterrar os mortos e cuidar dos vivos? Está feito.
Nestas ocasiões, nunca faltam as condolências, os sentimentos de pesar, o luto oficial, os gestos de solidariedade, as tomadas de posição, os pedidos de esclarecimento, as exigências. No entanto, tudo isto não os trará de volta. Nada se pode fazer pelos que morrem.
Os inquéritos da CP também não os farão regressar. Os administradores, os gestores, os responsáveis, estão demasiado ocupados em conseguir o equilíbrio financeiro da empresa. Para eles, o acidente não passou de um pequeno contratempo. Vai ser necessário que sintam na carne horrores como este para se decidirem a fazer alguma coisa pelos que – por enquanto – estão vivos.
Entretanto, continuamos a correr riscos diariamente.
Quando é que a vida deixará de ser uma eterna fuga à morte? Quando?

Hoje, 5 de Maio de 2006, passam 20 anos sobre o grande acidente ferroviário da Póvoa de Santa Iria. Onde, entre os mortos, estavam amigos meus. Onde, entre os feridos, estavam amigos meus. Onde, entre os assustados, estavam amigos meus. Não me esqueci. Não os esqueci.

Artigo publicado no jornal Notícias de Alverca, Nº 17, 1986/6.

domingo, abril 30, 2006

Olhos e Orelhas: Primeiro quadrimestre de 2006

«Olhos e Orelhas» é um novo espaço - uma nova «rubrica» - de «Octanas» em que, de quatro em quatro meses, darei a conhecer (quase todos) os produtos culturais e de entretenimento que «consumi», em «estreia», durante o período precedente. A literatura, a música (em CD), o cinema (nas salas, na televisão, em DVD)... e não só.

A literatura: «Páginas Despidas», Ozias Filho; «Contos Místicos», Maria de Menezes; «O Alquimista» e «Maktub», Paulo Coelho; «Sou Português... E Agora?», Luís Filipe Borges; «Bons Augúrios», Neil Gaiman e Terry Pratchett.
A música: «Confessions On A Dance Floor», Madonna; «Bitches Brew», Miles Davis; «The Slider», Marc Bolan & T-Rex; «Burn», Deep Purple; «Resistir É Vencer», José Mário Branco; «3121», Prince; «Te Deum», João de Sousa Carvalho (pelo Coro e Orquestra Gulbenkian de Lisboa dirigidos por Michel Corboz).
O cinema: «Sr. e Sra. Smith», Doug Liman; «A Ilha», Michael Bay; «A Cidade do Pecado», Robert Rodriguez e Frank Miller; «O Aviador», Martin Scorsese; «O Grinch», Ron Howard; «Eu, Robot», Alex Proyas; «Gosford Park», Robert Altman; «O Delfim», Fernando Lopes; «O Cabo do Medo», Martin Scorsese; «Inimigo às Portas», Jean Jacques Annaud; «28 Dias Depois», Danny Boyle; «Agatha», Michael Apted; «Kilas, o Mau da Fita», José Fonseca e Costa; «EdTV», Ron Howard; «Dia de Treino», Antoine Fuqua; «Hulk», Ang Lee; «A Máquina do Tempo», Simon Wells; «Confissões de uma Mente Perigosa», George Clooney; «Seabiscuit», Gary Ross; «Donnie Darko», Richard Kelly; «A Paixão de Cristo», Mel Gibson; «Capitães de Abril», Maria de Medeiros.

Oráculo: «Os Novos Descobrimentos» é editado em Julho

«Os Novos Descobrimentos - Ensaios sobre História, Política, Economia e Cultura Lusófonas: do Império à CPLP», livro escrito por mim e pelo meu amigo e colega Luís Ferreira Lopes, vai ser publicado no próximo mês de Julho pela editora Almedina. Esta obra, que reúne mais de 20 textos sobre aqueles temas, a maior parte dos já quais publicados em diversos jornais e revistas, e que começámos a escrever, individualmente ou em conjunto, há quase 20 anos, vai assim, tudo o indica, estar disponível aquando da celebração dos dez anos da fundação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Oportunamente darei a conhecer mais pormenores sobre a edição e também de datas e locais de lançamento.

terça-feira, abril 25, 2006

Opinião: Revolução ou reformas?

Apesar de a instituição militar ser merecedora das mais severas críticas, é importante não esquecer que todos os portugueses lhe devem muito: sem os Capitães, o 25 de Abril não teria acontecido.
Mas hoje, passados que são quinze anos sobre o Dia da Liberdade, não falta quem afirme que a época das revoluções já passou, que o «espírito revolucionário» já se perdeu... definitivamente. Actualmente, não é a Revolução que está na moda mas sim o Mercado Único de 1992 – aliás, isto pode ser exemplarmente demonstrado pelos inúmeros casos de «revolucionários» que posteriormente se converteram (reciclaram?) em «europeístas». E também são muitos os que dizem que o 25 de Abril pouco ou nada significa para os jovens. Mas será mesmo assim?
Durante muito tempo se discutiu: revolução ou reformas? Em Portugal parece ter-se optado pelas reformas. Todavia, se analisarmos aquelas que têm sido aplicadas recentemente, não podemos deixar de ficar, no mínimo, surpreendidos com o seu carácter um tanto ou quanto... peculiar: com a «reforma» do ensino, o acesso à Universidade é ainda mais difícil; com a «reforma» fiscal, paga-se ainda mais impostos; com a «reforma» da justiça, o provérbio «o crime não compensa» tornou-se completamente obsoleto. Com «reformas» destas, não será melhor deixar tudo como está?
Não! Há que mudar, há que transformar, para mais e para melhor. No entanto, isso será extremamente difícil, se não impossível, enquanto a imoralidade, sob as formas de corrupção impune, incompetência institucionalizada ou ostentação fútil continuar a prevalecer em Portugal. Neste país os atentados à legalidade e à ética sucedem-se, quantas vezes em nome de um «interesse público» muito duvidoso. Exemplos? Um programa televisivo de grande qualidade é censurado, invocando-se «valores históricos» arcaicos e ridículos; num concurso público para a atribuição de frequências de rádio são contemplados membros do júri; um ministro envolvido em negócios pouco claros anuncia, sorridente, a entrada em vigor de medidas económicas extremamente restritivas, que vão diminuir o poder de compra e o nível de vida, já de si fracos, da maioria dos portugueses. A lista é extensa e não fica por aqui.
Face ao acumular destas situações – que, é certo, não são só de agora – os portugueses acreditam cada vez menos em si próprios e no seu país. Esta descrença exprime-se não só na emigração mas também na reduzida participação na vida colectiva, aos níveis político, social e cultural. Mas é exactamente ficando e participando que os portugueses poderão modificar este estado de coisas.
Os grandes ideais e objectivos com os quais se fez o 25 de Abril encontraram uma excelente tradução na fórmula dos três «D»: Descolonizar, Democratizar e Desenvolver. Porém, é preciso acrescentar hoje outro «D»: Dignificar. Muito há a fazer neste aspecto em Portugal. Por isso, o 25 de Abril não acabou. Pelo contrário: a Revolução ainda está a começar.

Artigo publicado no boletim DivulgACÇÃO, Nº 3, 1989/6.

domingo, abril 16, 2006

Origens: Uma breve biografia («segunda edição»)

Octávio José Pato dos Santos nasceu em Lisboa a 16 de Abril de 1965. Começou a escrever poesia em 1978, e o seu primeiro poema foi publicado na edição de Maio de 1979 da revista O Professor – inserido, com outros, num artigo da Professora Doutora Leonor Arroio Malik, que era então a sua docente de português. O tema desse artigo era uma exposição de textos e de desenhos, feitos por alunos da Escola Secundária Gago Coutinho de Alverca do Ribatejo, sobre o livro «Esteiros», de Soeiro Pereira Gomes.
Após passar pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, segue Sociologia no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, onde foi um dos alunos a concluir o primeiro seminário (especialização) de Sociologia da Comunicação daquela licenciatura; a sua tese foi orientada pelo Professor Doutor José Manuel Paquete de Oliveira. Naquele estabelecimento de ensino foi ainda membro da Direcção e Presidente do Conselho Fiscal da Associação de Estudantes do ISCTE, membro da Assembleia de Escola e da Assembleia Especial para a Aprovação dos Estatutos do ISCTE, membro do Conselho Directivo do ISCTE, e membro da Comissão Executiva do 1º Encontro Nacional de Estudantes de Sociologia, realizado em 1990.
Com excepção de um breve estágio em publicidade na McCann Erickson Portugal em 1991, e de colaborações pontuais e posteriores em outras instituições, praticamente toda a sua carreira tem sido feita no jornalismo. Actividade que iniciou em 1985, enquanto «amador», como redactor e chefe de redacção do jornal regional Notícias de Alverca, e que prosseguiu como coordenador do DivulgACÇÃO, boletim informativo da Associação de Estudantes do ISCTE. Enquanto profissional, começou na (equipa inicial da) revista TV Mais, esteve na revista África Hoje, e desde 1997 que observa de perto a evolução do sector das tecnologias de informação, media e telecomunicações em Portugal. Ao serviço das revistas Cyber.Net, Inter.Face e Comunicações, foi distinguido - com, respectivamente, um primeiro lugar absoluto, uma menção honrosa e um co-primeiro lugar ex-aequo - em três anos consecutivos – 1998, 1999 e 2000 - pelo Prémio de Jornalismo Sociedade da Informação, uma iniciativa do anterior Ministério da Ciência e da Tecnologia. Eis os títulos desses três artigos premiados: «A cartilha virtual», «A vida em sociedade» e «No país dos comerci@ntes» - este escrito com João Paulo Aires.
Colaborou e/ou colabora em outros jornais e revistas, nomeadamente A Capital, Diário de Notícias, Diário Digital, Diário Económico, Finisterra, Fórum Estudante, Jornal de Leiria, Media XXI, Número, Page, Público, Seara Nova, Semanário, Tempo, Vértice e Vida Ribatejana.
Leitor desde criança de livros, clássicos e modernos, de todos os géneros literários, é porém na música e no cinema que tem as suas principais fontes de inspiração e de influência. Contudo, o seu fascínio pela cultura popular anglo-americana é superado pela sua paixão pela lusofonia. Sobre este tema: escreveu vários artigos; mantém, desde 1988, um arquivo de imprensa; e prepara actualmente, enquanto principal projecto profissional, a edição da revista MAR, que tem como lema e objectivo (noticiar os casos de) «sucesso que fala(m) português».
Após 18 anos a tentar editar as suas obras, «Visões» – escrito na sua maior parte em 1997 mas que inclui textos elaborados em 1982 e em 1985/87 – constituiu, em Novembro de 2003, a sua estreia literária. Este livro é o Nº 7 da colecção - dirigida pelo escritor e cineasta António de Macedo - «Bibliotheca Phantastica» da Hugin Editores. Dois dos contos que o integram - «A caixa negra» e «Caminhos de ferro» – já haviam sido seleccionados como «merecedores de publicação» pela associação Simetria FC & F, no âmbito da edição de 2000 do seu Prémio Literário de Ficção Científica. «Visões» foi novamente editado, em Novembro de 2005, pela Solutions by Heart, em formato áudio-livro (disco com leitura/representação de textos).
Entre os seus outros livros já prontos para publicação, e registados na Inspecção Geral das Actividades Culturais, incluem-se: «Alma Portuguesa», «Espelhos» e «Museu da História» (poesia); «Espíritos das Luzes» e «Festas» (prosa); «Códigos», «Estados» (escrito com Rui Almas), «Nautas», «O Novo Portugal» e «Os Novos Descobrimentos» (escrito com Luís Ferreira Lopes) (ensaio).
A sua dedicação à literatura não se traduz apenas nas obras que produz, pelo que participou na segunda campanha «Salve um Livro», promovida em 2004 pela Biblioteca Nacional, financiando o restauro de um exemplar da primeira edição de «O Uruguai» (1769), de José Basílio da Gama.
Entretanto, continuou a sua ligação às novas tecnologias por duas outras formas: em Janeiro de 2004 iniciou um projecto, e respectiva equipa, para a reconstituição virtual, em computação gráfica, do Teatro Real do Paço da Ribeira, ou Ópera do Tejo; em Abril de 2005 iniciou «Octanas», o seu blog na Internet.

Obras: "No dia dos meus ciclos solares"

No dia dos meus ciclos solares
apaguei as velas de um bolo lunar.
As velas eram cometas;
o bolo era feito de massa estelar.

Recebi muitos presentes universais:
uma chuva de meteoros de brincar;
um jogo de planetas;
uma galáxia completa para montar.

A festa durou até à eternidade.
No dia dos meus ciclos solares
esqueço sempre... a minha idade.


Poema (Nº 59) escrito em 1982 e incluído no meu livro «Espelhos».

quarta-feira, março 29, 2006

Outros: SbH - e «Visões» - no Jornal de Letras

A edição Nº 926 do Jornal de Letras, Artes e Ideias, publicada hoje, 29 de Março de 2006, inclui, entre as páginas 8 e 11, um artigo intitulado «Um mundo cheio de livros», da autoria de Ricardo Duarte e Sofia Freire, que aborda o tema das novas editoras surgidas recentemente em Portugal. Uma delas é, precisamente, a Solutions by Heart; e a juntar ao depoimento de Albertina Dias, sobre os objectivos e a estratégia da SbH, é referido o actual catálogo, que integra, entre outras, a minha obra «Visões». É de notar que é a segunda vez num mês que a editora especializada em áudiolivros é mencionada na imprensa - antes tinha sido na revista Exame Executiva.

terça-feira, março 21, 2006

Obras: "Escrever um livro, plantar uma árvore, fazer um filho"

Sim, eu gostava de escrever um livro,
mas parece-me que não teria leitores que me quisessem e pudessem ler.

Sim, eu gostava de plantar uma árvore,
mas parece-me que já não existe terra suficiente para semear e colher.

Sim, eu gostava de fazer um filho,
mas parece-me que não há mulher que comigo queira se envolver.

E sem árvores para dar papel não é possível escrever.

Hoje, a situação é tal que quase se poderia dizer:
só analfabetos escrevem livros,
só madeireiros plantam árvores
e só crianças fazem filhos.

Escrever um livro, plantar uma árvore, fazer um filho…
É cada vez mais difícil alcançar a plenitude.
Escrever um livro, plantar uma árvore, fazer um filho…
No rasgar, derrubar e abandonar é que está a virtude?


Hoje, 21 de Março de 2006, celebra-se o Dia Mundial da Poesia... e o Dia Mundial da Árvore.

Poema (Nº 254) escrito em 1992 (antes de ser publicado o meu primeiro livro e de nascer a minha primeira filha – ainda me falta plantar uma árvore!) e incluído no meu livro «Espelhos».

domingo, março 19, 2006

Outros: Uma associação de pais com blog

Hoje, 19 de Março de 2006, celebra-se mais um Dia do Pai. É pois lógico que, aqui e agora, faça um convite para que se visite o blog – cuja criação eu sugeri e concretizei - da Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola do 1º Ciclo do Ensino Básico do Sobralinho, cujos órgãos sociais - mais concretamente, o Conselho Fiscal – eu integro desde Outubro de 2005.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Opinião: Falem português, porra!

Em Março de 2004 comprei o DVD do filme «Exterminador Implacável 3 – Ascensão das Máquinas» («Terminator 3 – Rise of the Machines», no original), distribuído no nosso país pela Columbia Tristar Home Entertainment. E encontrei neste DVD dois tipos de falhas. Primeiro, refere na caixa a inclusão de conteúdos que... não estão lá: não há «trailer» do filme «Bad Boys II», não há galeria fotográfica, não há (imagens da) ante-estreia... e a introdução por Arnold Schwarzenegger está não no disco 2 mas sim no disco 1, mesmo antes do filme. Segunda falha, e para mim mais grave: no disco 2, o dos «extras», todo o menu, muitos dos textos e as únicas legendas disponíveis estão em... castelhano.
Pouco tempo depois, contactei a Sony Portugal (posteriormente, contactaria igualmente a DECO), e a pessoa com quem falei disse-me que – além de não ter tido ainda reclamações (antes da minha) e de, também por isso, não ter conhecimento de eventuais defeitos do DVD – as decisões na empresa quanto ao tipo de produtos distribuídos na península ibérica são tomadas... em Madrid.
Poder-se-á perguntar: mais palavras (em português) para quê? Mas a questão é precisamente essa! Aparentemente, a língua portuguesa está, ao invés de se expandir e de se valorizar, a passar por um processo de secundarização, e, por vezes, de eliminação. A vários níveis, em várias instâncias, de várias formas. E nem a religião parece valer-nos muito: não foi há muito tempo que o Vaticano deixou de considerar o português – «apenas» o segundo idioma mais falado pelos católicos! - uma «língua de trabalho». E «descendo» do «sagrado» para o «profano», verifica-se que a nossa língua perde terreno nas instruções, nas legendas e até nos lemas (slogans originais, não traduzidos, nos anúncios publicitários) de produtos e serviços de consumo corrente – veja-se como os textos na nossa língua surgem muitas vezes em itálico e/ou em caracteres mais pequenos.
E a culpa não é só de «nuestros hermanos» – que, é verdade, parecem não perder uma oportunidade (como o referido caso do DVD parece demonstrar) para «apagarem» a nossa língua e a nossa identidade e para imporem as deles. Como acontece em tantas outras situações, os abusos são mais permitidos do que impostos. E até que nem é preciso muito: a diferença está muitas vezes nos pormenores. Porquê falar em «ibérico» – como a propósito do Mercado Ibérico de Electricidade - em vez de «luso-espanhol»? Quando é que os (alguns) portugueses, em especial jornalistas de televisão, vão deixar de falar castelhano com espanhóis, em Portugal mas não só? Eles percebem-nos! O problema não estava tanto em que José António Camacho, espanhol, então treinador do Benfica, falasse castelhano em Portugal; o problema estava mais em que Carlos Queirós, português, então treinador do Real Madrid, não falasse português em Espanha (e Luís Figo, e Ronaldo, e Roberto Carlos...)
Afinal, o que pode e deve ser feito nesta matéria? Que entidades podem e devem intervir? O Presidente da República de Portugal? Jorge Sampaio, primeira figura do Estado, deveria ser dos primeiros a dar o exemplo na utilização da sua língua nas viagens ao estrangeiro que efectua e nas cimeiras internacionais em que participa. Em vez disso, é frequente ouvi-lo falar em inglês e em francês... e, pior do que isso, em castelhano. E depois ainda há quem se escandalize por continuar a haver tantos estrangeiros que pensam que Portugal é mais uma das regiões de Espanha... Este mau hábito – que, é certo, não é só de agora, e que tem sido «partilhado» por muitas outras pessoas (António Guterres era outro «notório» praticante) – não só é ridículo como é também denunciador de uma certa hipocrisia: sempre a apregoarem a necessidade de defender a língua e a cultura portuguesas, acabam por, na prática, serem dos primeiros a colaborarem para o seu enfraquecimento. No fundo, é o perene fascínio pelo que é estrangeiro... Bem pode a presidente do Instituto Camões tentar definir e concretizar estratégias de difusão e de valorização do português no Mundo... Com «patronos» destes a darem maus exemplos, a «meterem golos na própria baliza» e a darem «tiros nos próprios pés» constantemente, para quê dar-se ao trabalho?
As incongruências na utilização do português também acontecem no espaço da lusofonia. Veja-se o que aconteceu com a TVI. No início de 2004 o canal de televisão dirigido por José Eduardo Moniz deu grande destaque à compra e exibição no Brasil, por parte da TV Bandeirantes, de algumas das suas novelas e séries de televisão, em especial «Olhos de Água» e «Olá Pai». A «Quatro» «embandeirou em arco», pode mesmo dizer-se. De facto, estar-se-ia perante um momento de viragem algo «histórico», uma inversão na tendência até hoje dominante – a da «invasão» de Portugal por telenovelas brasileiras. Algum tempo depois, soube-se que havia um (grande) «mas»: as «exportações» da TVI iriam ser dobradas... em «português do Brasil». Motivo? «Os portugueses falam excessivamente rápido e juntam o final das palavras com a seguinte, o que dificulta o entendimento.» Afinal, em que ficamos? É assim que se promove a «reciprocidade», o «intercâmbio de culturas», a «aproximação de povos irmãos»... eliminando as diferenças que supostamente – é o que estão sempre a dizer - nos enriquecem? Isto não é um incentivo à comunicação... é um convite à preguiça! Compare-se com o que aconteceu no nosso país quando «Gabriela» começou a ser transmitida: não se fez dobragem, e, progressivamente, adaptámo-nos, habituámo-nos ao sotaque. E no início não era assim tão fácil entender tudo o que os actores brasileiros diziam...
No fundo, é tudo uma questão de orgulho e de respeito por nós próprios e pela nossa língua... ou de falta de um e de outro. Mas porque é que isso haveria de acontecer? Em 2002, um estudo da UNESCO afirmava que o português era (é) a sexta língua mais falada no Mundo, atrás do mandarim, hindi, castelhano, inglês e bengali... de um total de mais de 6700. Não nos saímos assim tão mal, pois não?

Hoje, 21 de Fevereiro de 2006, celebra-se o Dia Internacional da Língua Materna.

Artigo escrito para o Nº 01 (projecto/protótipo) da revista MAR em 2004.