A edição Nº 926 do Jornal de Letras, Artes e Ideias, publicada hoje, 29 de Março de 2006, inclui, entre as páginas 8 e 11, um artigo intitulado «Um mundo cheio de livros», da autoria de Ricardo Duarte e Sofia Freire, que aborda o tema das novas editoras surgidas recentemente em Portugal. Uma delas é, precisamente, a Solutions by Heart; e a juntar ao depoimento de Albertina Dias, sobre os objectivos e a estratégia da SbH, é referido o actual catálogo, que integra, entre outras, a minha obra «Visões». É de notar que é a segunda vez num mês que a editora especializada em áudiolivros é mencionada na imprensa - antes tinha sido na revista Exame Executiva.
quarta-feira, março 29, 2006
terça-feira, março 21, 2006
Obras: "Escrever um livro, plantar uma árvore, fazer um filho"
Sim, eu gostava de escrever um livro,
mas parece-me que não teria leitores que me quisessem e pudessem ler.
Sim, eu gostava de plantar uma árvore,
mas parece-me que já não existe terra suficiente para semear e colher.
Sim, eu gostava de fazer um filho,
mas parece-me que não há mulher que comigo queira se envolver.
E sem árvores para dar papel não é possível escrever.
Hoje, a situação é tal que quase se poderia dizer:
só analfabetos escrevem livros,
só madeireiros plantam árvores
e só crianças fazem filhos.
Escrever um livro, plantar uma árvore, fazer um filho…
É cada vez mais difícil alcançar a plenitude.
Escrever um livro, plantar uma árvore, fazer um filho…
No rasgar, derrubar e abandonar é que está a virtude?
Hoje, 21 de Março de 2006, celebra-se o Dia Mundial da Poesia... e o Dia Mundial da Árvore.
Poema (Nº 254) escrito em 1992 (antes de ser publicado o meu primeiro livro e de nascer a minha primeira filha – ainda me falta plantar uma árvore!) e incluído no meu livro «Espelhos».
mas parece-me que não teria leitores que me quisessem e pudessem ler.
Sim, eu gostava de plantar uma árvore,
mas parece-me que já não existe terra suficiente para semear e colher.
Sim, eu gostava de fazer um filho,
mas parece-me que não há mulher que comigo queira se envolver.
E sem árvores para dar papel não é possível escrever.
Hoje, a situação é tal que quase se poderia dizer:
só analfabetos escrevem livros,
só madeireiros plantam árvores
e só crianças fazem filhos.
Escrever um livro, plantar uma árvore, fazer um filho…
É cada vez mais difícil alcançar a plenitude.
Escrever um livro, plantar uma árvore, fazer um filho…
No rasgar, derrubar e abandonar é que está a virtude?
Hoje, 21 de Março de 2006, celebra-se o Dia Mundial da Poesia... e o Dia Mundial da Árvore.
Poema (Nº 254) escrito em 1992 (antes de ser publicado o meu primeiro livro e de nascer a minha primeira filha – ainda me falta plantar uma árvore!) e incluído no meu livro «Espelhos».
domingo, março 19, 2006
Outros: Uma associação de pais com blog
Hoje, 19 de Março de 2006, celebra-se mais um Dia do Pai. É pois lógico que, aqui e agora, faça um convite para que se visite o blog – cuja criação eu sugeri e concretizei - da Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola do 1º Ciclo do Ensino Básico do Sobralinho, cujos órgãos sociais - mais concretamente, o Conselho Fiscal – eu integro desde Outubro de 2005.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Opinião: Falem português, porra!
Em Março de 2004 comprei o DVD do filme «Exterminador Implacável 3 – Ascensão das Máquinas» («Terminator 3 – Rise of the Machines», no original), distribuído no nosso país pela Columbia Tristar Home Entertainment. E encontrei neste DVD dois tipos de falhas. Primeiro, refere na caixa a inclusão de conteúdos que... não estão lá: não há «trailer» do filme «Bad Boys II», não há galeria fotográfica, não há (imagens da) ante-estreia... e a introdução por Arnold Schwarzenegger está não no disco 2 mas sim no disco 1, mesmo antes do filme. Segunda falha, e para mim mais grave: no disco 2, o dos «extras», todo o menu, muitos dos textos e as únicas legendas disponíveis estão em... castelhano.
Pouco tempo depois, contactei a Sony Portugal (posteriormente, contactaria igualmente a DECO), e a pessoa com quem falei disse-me que – além de não ter tido ainda reclamações (antes da minha) e de, também por isso, não ter conhecimento de eventuais defeitos do DVD – as decisões na empresa quanto ao tipo de produtos distribuídos na península ibérica são tomadas... em Madrid.
Poder-se-á perguntar: mais palavras (em português) para quê? Mas a questão é precisamente essa! Aparentemente, a língua portuguesa está, ao invés de se expandir e de se valorizar, a passar por um processo de secundarização, e, por vezes, de eliminação. A vários níveis, em várias instâncias, de várias formas. E nem a religião parece valer-nos muito: não foi há muito tempo que o Vaticano deixou de considerar o português – «apenas» o segundo idioma mais falado pelos católicos! - uma «língua de trabalho». E «descendo» do «sagrado» para o «profano», verifica-se que a nossa língua perde terreno nas instruções, nas legendas e até nos lemas (slogans originais, não traduzidos, nos anúncios publicitários) de produtos e serviços de consumo corrente – veja-se como os textos na nossa língua surgem muitas vezes em itálico e/ou em caracteres mais pequenos.
E a culpa não é só de «nuestros hermanos» – que, é verdade, parecem não perder uma oportunidade (como o referido caso do DVD parece demonstrar) para «apagarem» a nossa língua e a nossa identidade e para imporem as deles. Como acontece em tantas outras situações, os abusos são mais permitidos do que impostos. E até que nem é preciso muito: a diferença está muitas vezes nos pormenores. Porquê falar em «ibérico» – como a propósito do Mercado Ibérico de Electricidade - em vez de «luso-espanhol»? Quando é que os (alguns) portugueses, em especial jornalistas de televisão, vão deixar de falar castelhano com espanhóis, em Portugal mas não só? Eles percebem-nos! O problema não estava tanto em que José António Camacho, espanhol, então treinador do Benfica, falasse castelhano em Portugal; o problema estava mais em que Carlos Queirós, português, então treinador do Real Madrid, não falasse português em Espanha (e Luís Figo, e Ronaldo, e Roberto Carlos...)
Afinal, o que pode e deve ser feito nesta matéria? Que entidades podem e devem intervir? O Presidente da República de Portugal? Jorge Sampaio, primeira figura do Estado, deveria ser dos primeiros a dar o exemplo na utilização da sua língua nas viagens ao estrangeiro que efectua e nas cimeiras internacionais em que participa. Em vez disso, é frequente ouvi-lo falar em inglês e em francês... e, pior do que isso, em castelhano. E depois ainda há quem se escandalize por continuar a haver tantos estrangeiros que pensam que Portugal é mais uma das regiões de Espanha... Este mau hábito – que, é certo, não é só de agora, e que tem sido «partilhado» por muitas outras pessoas (António Guterres era outro «notório» praticante) – não só é ridículo como é também denunciador de uma certa hipocrisia: sempre a apregoarem a necessidade de defender a língua e a cultura portuguesas, acabam por, na prática, serem dos primeiros a colaborarem para o seu enfraquecimento. No fundo, é o perene fascínio pelo que é estrangeiro... Bem pode a presidente do Instituto Camões tentar definir e concretizar estratégias de difusão e de valorização do português no Mundo... Com «patronos» destes a darem maus exemplos, a «meterem golos na própria baliza» e a darem «tiros nos próprios pés» constantemente, para quê dar-se ao trabalho?
As incongruências na utilização do português também acontecem no espaço da lusofonia. Veja-se o que aconteceu com a TVI. No início de 2004 o canal de televisão dirigido por José Eduardo Moniz deu grande destaque à compra e exibição no Brasil, por parte da TV Bandeirantes, de algumas das suas novelas e séries de televisão, em especial «Olhos de Água» e «Olá Pai». A «Quatro» «embandeirou em arco», pode mesmo dizer-se. De facto, estar-se-ia perante um momento de viragem algo «histórico», uma inversão na tendência até hoje dominante – a da «invasão» de Portugal por telenovelas brasileiras. Algum tempo depois, soube-se que havia um (grande) «mas»: as «exportações» da TVI iriam ser dobradas... em «português do Brasil». Motivo? «Os portugueses falam excessivamente rápido e juntam o final das palavras com a seguinte, o que dificulta o entendimento.» Afinal, em que ficamos? É assim que se promove a «reciprocidade», o «intercâmbio de culturas», a «aproximação de povos irmãos»... eliminando as diferenças que supostamente – é o que estão sempre a dizer - nos enriquecem? Isto não é um incentivo à comunicação... é um convite à preguiça! Compare-se com o que aconteceu no nosso país quando «Gabriela» começou a ser transmitida: não se fez dobragem, e, progressivamente, adaptámo-nos, habituámo-nos ao sotaque. E no início não era assim tão fácil entender tudo o que os actores brasileiros diziam...
No fundo, é tudo uma questão de orgulho e de respeito por nós próprios e pela nossa língua... ou de falta de um e de outro. Mas porque é que isso haveria de acontecer? Em 2002, um estudo da UNESCO afirmava que o português era (é) a sexta língua mais falada no Mundo, atrás do mandarim, hindi, castelhano, inglês e bengali... de um total de mais de 6700. Não nos saímos assim tão mal, pois não?
Hoje, 21 de Fevereiro de 2006, celebra-se o Dia Internacional da Língua Materna.
Artigo escrito para o Nº 01 (projecto/protótipo) da revista MAR em 2004.
Pouco tempo depois, contactei a Sony Portugal (posteriormente, contactaria igualmente a DECO), e a pessoa com quem falei disse-me que – além de não ter tido ainda reclamações (antes da minha) e de, também por isso, não ter conhecimento de eventuais defeitos do DVD – as decisões na empresa quanto ao tipo de produtos distribuídos na península ibérica são tomadas... em Madrid.
Poder-se-á perguntar: mais palavras (em português) para quê? Mas a questão é precisamente essa! Aparentemente, a língua portuguesa está, ao invés de se expandir e de se valorizar, a passar por um processo de secundarização, e, por vezes, de eliminação. A vários níveis, em várias instâncias, de várias formas. E nem a religião parece valer-nos muito: não foi há muito tempo que o Vaticano deixou de considerar o português – «apenas» o segundo idioma mais falado pelos católicos! - uma «língua de trabalho». E «descendo» do «sagrado» para o «profano», verifica-se que a nossa língua perde terreno nas instruções, nas legendas e até nos lemas (slogans originais, não traduzidos, nos anúncios publicitários) de produtos e serviços de consumo corrente – veja-se como os textos na nossa língua surgem muitas vezes em itálico e/ou em caracteres mais pequenos.
E a culpa não é só de «nuestros hermanos» – que, é verdade, parecem não perder uma oportunidade (como o referido caso do DVD parece demonstrar) para «apagarem» a nossa língua e a nossa identidade e para imporem as deles. Como acontece em tantas outras situações, os abusos são mais permitidos do que impostos. E até que nem é preciso muito: a diferença está muitas vezes nos pormenores. Porquê falar em «ibérico» – como a propósito do Mercado Ibérico de Electricidade - em vez de «luso-espanhol»? Quando é que os (alguns) portugueses, em especial jornalistas de televisão, vão deixar de falar castelhano com espanhóis, em Portugal mas não só? Eles percebem-nos! O problema não estava tanto em que José António Camacho, espanhol, então treinador do Benfica, falasse castelhano em Portugal; o problema estava mais em que Carlos Queirós, português, então treinador do Real Madrid, não falasse português em Espanha (e Luís Figo, e Ronaldo, e Roberto Carlos...)
Afinal, o que pode e deve ser feito nesta matéria? Que entidades podem e devem intervir? O Presidente da República de Portugal? Jorge Sampaio, primeira figura do Estado, deveria ser dos primeiros a dar o exemplo na utilização da sua língua nas viagens ao estrangeiro que efectua e nas cimeiras internacionais em que participa. Em vez disso, é frequente ouvi-lo falar em inglês e em francês... e, pior do que isso, em castelhano. E depois ainda há quem se escandalize por continuar a haver tantos estrangeiros que pensam que Portugal é mais uma das regiões de Espanha... Este mau hábito – que, é certo, não é só de agora, e que tem sido «partilhado» por muitas outras pessoas (António Guterres era outro «notório» praticante) – não só é ridículo como é também denunciador de uma certa hipocrisia: sempre a apregoarem a necessidade de defender a língua e a cultura portuguesas, acabam por, na prática, serem dos primeiros a colaborarem para o seu enfraquecimento. No fundo, é o perene fascínio pelo que é estrangeiro... Bem pode a presidente do Instituto Camões tentar definir e concretizar estratégias de difusão e de valorização do português no Mundo... Com «patronos» destes a darem maus exemplos, a «meterem golos na própria baliza» e a darem «tiros nos próprios pés» constantemente, para quê dar-se ao trabalho?
As incongruências na utilização do português também acontecem no espaço da lusofonia. Veja-se o que aconteceu com a TVI. No início de 2004 o canal de televisão dirigido por José Eduardo Moniz deu grande destaque à compra e exibição no Brasil, por parte da TV Bandeirantes, de algumas das suas novelas e séries de televisão, em especial «Olhos de Água» e «Olá Pai». A «Quatro» «embandeirou em arco», pode mesmo dizer-se. De facto, estar-se-ia perante um momento de viragem algo «histórico», uma inversão na tendência até hoje dominante – a da «invasão» de Portugal por telenovelas brasileiras. Algum tempo depois, soube-se que havia um (grande) «mas»: as «exportações» da TVI iriam ser dobradas... em «português do Brasil». Motivo? «Os portugueses falam excessivamente rápido e juntam o final das palavras com a seguinte, o que dificulta o entendimento.» Afinal, em que ficamos? É assim que se promove a «reciprocidade», o «intercâmbio de culturas», a «aproximação de povos irmãos»... eliminando as diferenças que supostamente – é o que estão sempre a dizer - nos enriquecem? Isto não é um incentivo à comunicação... é um convite à preguiça! Compare-se com o que aconteceu no nosso país quando «Gabriela» começou a ser transmitida: não se fez dobragem, e, progressivamente, adaptámo-nos, habituámo-nos ao sotaque. E no início não era assim tão fácil entender tudo o que os actores brasileiros diziam...
No fundo, é tudo uma questão de orgulho e de respeito por nós próprios e pela nossa língua... ou de falta de um e de outro. Mas porque é que isso haveria de acontecer? Em 2002, um estudo da UNESCO afirmava que o português era (é) a sexta língua mais falada no Mundo, atrás do mandarim, hindi, castelhano, inglês e bengali... de um total de mais de 6700. Não nos saímos assim tão mal, pois não?
Hoje, 21 de Fevereiro de 2006, celebra-se o Dia Internacional da Língua Materna.
Artigo escrito para o Nº 01 (projecto/protótipo) da revista MAR em 2004.
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Opinião: Mestre, Profeta, Santo
Agostinho da Silva está vivo! A sua presença, concreta se bem que não física, a sua influência imensamente abrangente, o seu espírito multifacetado, iluminam a minha existência e a minha experiência, tal como as de muitas outras pessoas, ontem, hoje e amanhã.
Foi há vinte anos. Conheci pessoalmente o professor em 1984, pouco depois da morte do meu pai, por intermédio de uma boa amiga e uma grande senhora chamada Maria Violante Vieira, sua vizinha, amiga e antiga aluna, presidente do comité português da UNICEF e uma das proprietárias da empresa onde o meu pai trabalhava.
O encontro com este homem de idade já avançada mas de mente surpreendentemente jovem, lúcido e interessado por tudo o que o rodeava, constituiu para mim, desde logo, como que um alívio, uma ajuda, um amparo depois do grande sofrimento por que passara. Porém, e para além disso, aquele patriarca, ao acolher-me em sua casa, oferecendo-me a sua amizade como a um membro da sua família, da sua grande família que se estende para além do mar, deu assim início a um percurso pessoal de diálogo e de descoberta, que me permitiu alargar os meus horizontes de uma maneira que antes nem imaginara que fosse possível.
Ainda me lembro como se fosse hoje. Foram tantas as vezes em que, vindo da Rua da Escola Politécnica ou do Bairro Alto, chegava à praça do Príncipe Real e descia alguns passos até à Travessa do Abarracamento de Peniche, onde, no terceiro andar direito do número sete, se situava a sua casa, a sua «escola», o seu «santuário». Entrava e sentava-me, reconhecendo as coisas e as cores que já se haviam tornado familiares, os objectos pessoais, os livros, os gatos, a janela com Lisboa e o Tejo ao anoitecer. A mim, tal como a outros homens e mulheres, o professor concedia-nos o privilégio do seu tempo e da sua atenção, e conversávamos. Uma conversa sem rumo definido, sem orientação prévia, em que se podia falar de tudo, mas em que os temas recorrentes eram, invariavelmente, Portugal, os portugueses, os que falam português, quem são, o que fazem, de onde vinham, para onde iam.
Houve que dissesse, ou sugerisse, que Agostinho da Silva poderia ser uma reencarnação do padre António Vieira. Na verdade, as semelhanças em termos de estilo, de vida e de escrita, de percurso e até mesmo de fisionomia eram várias e impressionantes. Todavia, o mais importante é lembrar, mais do que as coincidências, o facto de ele ter sido, tal como o ilustre eclesiástico e diplomata do século dezassete, a personalização, a corporização concreta e verdadeira de ideias, de conceitos, de expressões que outros conhecem meramente no plano teórico. Quais? «Portugalidade», «Lusofonia», «Encontro de Culturas», «Interdisciplinaridade», «Luso-Tropicalismo», e tantas outras. A actividade, a carreira e as obras deste homem valeram por dezenas, por centenas de acordos culturais, de institutos de investigação, de bibliotecas. Está por fazer-se o «inventário» completo da sua influência em várias áreas do espaço que fala a língua de Camões e de Pessoa, na filosofia, na educação, na cultura, nas artes, até mesmo no pensamento político e na acção social, em Portugal, no Brasil, em África, em todo o Mundo.
Foi há dez anos. Quando ele nos deixou, em 1994, eu estive entre a multidão de admiradores e discípulos, conhecidos e desconhecidos, que passou diante do seu caixão no Mosteiro dos Jerónimos. Pouco tempo depois da sua morte, fui pai pela primeira vez. A vida parece às vezes possuir estranhas harmonias...
Desde então a minha vontade de escrever e de participar nesta Causa, da qual Agostinho da Silva foi o Mestre, o Profeta e o Santo, tem crescido continuamente e irreversivelmente. E tenho tentado aproveitar todas as oportunidades, grandes ou pequenas, sozinho ou acompanhado, para aumentar, espalhar e solidificar a herança que ele e muitas outras pessoas nos deixaram. Sou um «guerreiro-sacerdote» da «Ordem» que ele fundou. Saibamos colher os frutos da árvore que na terra ele plantou. Saibamos navegar no barco que ao mar ele lançou.
Hoje, 13 de Fevereiro de 2006, celebram-se 100 anos do nascimento de Agostinho da Silva.
Artigo publicado na revista África Hoje, Nº 195, 2004/11.
Foi há vinte anos. Conheci pessoalmente o professor em 1984, pouco depois da morte do meu pai, por intermédio de uma boa amiga e uma grande senhora chamada Maria Violante Vieira, sua vizinha, amiga e antiga aluna, presidente do comité português da UNICEF e uma das proprietárias da empresa onde o meu pai trabalhava.
O encontro com este homem de idade já avançada mas de mente surpreendentemente jovem, lúcido e interessado por tudo o que o rodeava, constituiu para mim, desde logo, como que um alívio, uma ajuda, um amparo depois do grande sofrimento por que passara. Porém, e para além disso, aquele patriarca, ao acolher-me em sua casa, oferecendo-me a sua amizade como a um membro da sua família, da sua grande família que se estende para além do mar, deu assim início a um percurso pessoal de diálogo e de descoberta, que me permitiu alargar os meus horizontes de uma maneira que antes nem imaginara que fosse possível.
Ainda me lembro como se fosse hoje. Foram tantas as vezes em que, vindo da Rua da Escola Politécnica ou do Bairro Alto, chegava à praça do Príncipe Real e descia alguns passos até à Travessa do Abarracamento de Peniche, onde, no terceiro andar direito do número sete, se situava a sua casa, a sua «escola», o seu «santuário». Entrava e sentava-me, reconhecendo as coisas e as cores que já se haviam tornado familiares, os objectos pessoais, os livros, os gatos, a janela com Lisboa e o Tejo ao anoitecer. A mim, tal como a outros homens e mulheres, o professor concedia-nos o privilégio do seu tempo e da sua atenção, e conversávamos. Uma conversa sem rumo definido, sem orientação prévia, em que se podia falar de tudo, mas em que os temas recorrentes eram, invariavelmente, Portugal, os portugueses, os que falam português, quem são, o que fazem, de onde vinham, para onde iam.
Houve que dissesse, ou sugerisse, que Agostinho da Silva poderia ser uma reencarnação do padre António Vieira. Na verdade, as semelhanças em termos de estilo, de vida e de escrita, de percurso e até mesmo de fisionomia eram várias e impressionantes. Todavia, o mais importante é lembrar, mais do que as coincidências, o facto de ele ter sido, tal como o ilustre eclesiástico e diplomata do século dezassete, a personalização, a corporização concreta e verdadeira de ideias, de conceitos, de expressões que outros conhecem meramente no plano teórico. Quais? «Portugalidade», «Lusofonia», «Encontro de Culturas», «Interdisciplinaridade», «Luso-Tropicalismo», e tantas outras. A actividade, a carreira e as obras deste homem valeram por dezenas, por centenas de acordos culturais, de institutos de investigação, de bibliotecas. Está por fazer-se o «inventário» completo da sua influência em várias áreas do espaço que fala a língua de Camões e de Pessoa, na filosofia, na educação, na cultura, nas artes, até mesmo no pensamento político e na acção social, em Portugal, no Brasil, em África, em todo o Mundo.
Foi há dez anos. Quando ele nos deixou, em 1994, eu estive entre a multidão de admiradores e discípulos, conhecidos e desconhecidos, que passou diante do seu caixão no Mosteiro dos Jerónimos. Pouco tempo depois da sua morte, fui pai pela primeira vez. A vida parece às vezes possuir estranhas harmonias...
Desde então a minha vontade de escrever e de participar nesta Causa, da qual Agostinho da Silva foi o Mestre, o Profeta e o Santo, tem crescido continuamente e irreversivelmente. E tenho tentado aproveitar todas as oportunidades, grandes ou pequenas, sozinho ou acompanhado, para aumentar, espalhar e solidificar a herança que ele e muitas outras pessoas nos deixaram. Sou um «guerreiro-sacerdote» da «Ordem» que ele fundou. Saibamos colher os frutos da árvore que na terra ele plantou. Saibamos navegar no barco que ao mar ele lançou.
Hoje, 13 de Fevereiro de 2006, celebram-se 100 anos do nascimento de Agostinho da Silva.
Artigo publicado na revista África Hoje, Nº 195, 2004/11.
segunda-feira, janeiro 30, 2006
Organização: «Os Novos Descobrimentos» registado na IGAC
Entreguei hoje, 30 de Janeiro de 2006, na sede da Inspecção-Geral das Actividades Culturais, situada no Palácio Foz, em Lisboa, o requerimento de registo de direito de autor - que deu entrada sob o número 489/06 - sobre mais uma obra: «Os Novos Descobrimentos» é um livro que reúne ensaios sobre história, economia, língua e cultura portuguesas e lusófonas escritos – a «solo» ou em «dueto» - por mim e pelo meu amigo Luís Ferreira Lopes, também jornalista, actualmente editor de economia da SIC.
Alguns desses ensaios são inéditos, mas na sua maioria são artigos publicados em diferentes jornais e revistas. O primeiro, e que dá título ao livro, foi editado no Diário de Notícias em 1988; o relato de uma viagem ao Brasil feita por um grupo de jovens portugueses é o pretexto para uma reflexão, não só sobre a estratégia então seguida nas comemorações dos Descobrimentos Portugueses, mas também sobre o papel de Portugal no Mundo em geral e a relação do nosso país com os outros povos de língua oficial portuguesa em particular. Estes são também os temas dominantes em praticamente todos os outros textos seguintes, dos quais se pode destacar «Vozes pela lusofonia: propostas de estratégia para o “reencontro de culturas”», editado na revista Finisterra (em dois números) em 1994, e ainda «Comunidade lusófona: para que te quero?», editado no Diário Económico em 1996. O último texto no livro está datado de 1999/2001.
No prefácio está escrito que este livro não é nem pretende ser «uma obra de carácter científico» mas assenta na convicção de que «Portugal só conseguirá verdadeiramente ultrapassar os seus problemas, tanto os ancestrais como os recentes, e alcançar plenamente a sua grandeza intrínseca, quando assumir como prioridade, de uma forma clara, a defesa e o engrandecimento da lusofonia.» Na verdade, «há vinte anos muito poucos eram os que ousavam questionar as consequências da adesão de Portugal à Comunidade Europeia para lá dos milhões dos fundos comunitários; e que, além disso, insistiam mesmo que não era só na Europa que se poderia encontrar as respostas às nossas perguntas e as soluções para os nossos problemas.» Sempre actual, este debate ganha actualmente uma especial relevância à medida que se aproxima o décimo aniversário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que se celebrará no próximo dia 17 de Julho.
Entretanto, no passado dia 16 de Janeiro apresentámos na Sociedade da Língua Portuguesa, em Lisboa, a candidatura deste livro ao Grande Prémio Internacional de Linguística Luís Filipe Lindley Cintra 2005, promovido por aquela instituição.
«Os Novos Descobrimentos» espera, agora, uma editora que se disponha a publicá-lo e a promovê-lo.
Alguns desses ensaios são inéditos, mas na sua maioria são artigos publicados em diferentes jornais e revistas. O primeiro, e que dá título ao livro, foi editado no Diário de Notícias em 1988; o relato de uma viagem ao Brasil feita por um grupo de jovens portugueses é o pretexto para uma reflexão, não só sobre a estratégia então seguida nas comemorações dos Descobrimentos Portugueses, mas também sobre o papel de Portugal no Mundo em geral e a relação do nosso país com os outros povos de língua oficial portuguesa em particular. Estes são também os temas dominantes em praticamente todos os outros textos seguintes, dos quais se pode destacar «Vozes pela lusofonia: propostas de estratégia para o “reencontro de culturas”», editado na revista Finisterra (em dois números) em 1994, e ainda «Comunidade lusófona: para que te quero?», editado no Diário Económico em 1996. O último texto no livro está datado de 1999/2001.
No prefácio está escrito que este livro não é nem pretende ser «uma obra de carácter científico» mas assenta na convicção de que «Portugal só conseguirá verdadeiramente ultrapassar os seus problemas, tanto os ancestrais como os recentes, e alcançar plenamente a sua grandeza intrínseca, quando assumir como prioridade, de uma forma clara, a defesa e o engrandecimento da lusofonia.» Na verdade, «há vinte anos muito poucos eram os que ousavam questionar as consequências da adesão de Portugal à Comunidade Europeia para lá dos milhões dos fundos comunitários; e que, além disso, insistiam mesmo que não era só na Europa que se poderia encontrar as respostas às nossas perguntas e as soluções para os nossos problemas.» Sempre actual, este debate ganha actualmente uma especial relevância à medida que se aproxima o décimo aniversário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que se celebrará no próximo dia 17 de Julho.
Entretanto, no passado dia 16 de Janeiro apresentámos na Sociedade da Língua Portuguesa, em Lisboa, a candidatura deste livro ao Grande Prémio Internacional de Linguística Luís Filipe Lindley Cintra 2005, promovido por aquela instituição.
«Os Novos Descobrimentos» espera, agora, uma editora que se disponha a publicá-lo e a promovê-lo.
sexta-feira, janeiro 27, 2006
Outros: Contacto com o CIMP
Sendo eu um apaixonado e, de certa forma, um estudioso da música, não poderia deixar de me regozijar pela criação do Centro de Informação da Música Portuguesa. Pelo que decidi enviar ontem, 26 de Janeiro, uma mensagem aos seus fundadores e dinamizadores.
Começando por lhes dar os parabéns pela constituição do Centro, classificando-a como «uma iniciativa importantíssima, indispensável, que, de facto, já tardava», a seguir fazia um apelo para que «efectivamente, e assim que vos for possível, alarguem a vossa acção a outros géneros... e, muito especialmente, a outras épocas. Sou um apreciador de música portuguesa em geral, mas, recentemente, tornei-me grande admirador – e consumidor – de música portuguesa do século XVIII.» Tal aconteceu, obviamente, por ter escrito o livro «Espíritos das Luzes» e ter iniciado o projecto de reconstituição virtual da Ópera do Tejo – que, aliás, «convidei» o CIMP a «visitar» no sítio da ARCI. E prossegui dizendo acreditar que já era mais que tempo que compositores como Carlos Seixas, Francisco António de Almeida, João de Sousa Carvalho, Marcos Portugal e João Domingos Bomtempo, entre outros, «sejam resgatados ao esquecimento quase completo em que permanecem; já é mais que tempo que os portugueses – e os estrangeiros – saibam que, contemporâneos de Bach, Haendel, Mozart, Rossini, Beethoven, e outros, houve compositores portugueses que atingiram a excelência – e, em alguns casos, a fama - nas suas épocas, e que pouco ou nada ficaram a dever a essas grandes figuras estrangeiras que continuamente são reverenciadas e tocadas pelas nossas orquestras (e passadas nas nossas rádios e televisões...). Em Portugal existe um passado musical magnífico que deve ser divulgado, aquém e além fronteiras, e de que nos devemos orgulhar... e que representa igualmente uma herança, e uma validação, de um presente musical que se pretende cada vez mais desenvolvido e relevante.»
Hoje, 27 de Janeiro, recebi a resposta da CIMP, através de João Carlos Callixto:
«Caro Octávio dos Santos: muito obrigado pelo seu contacto e pelo interesse no trabalho desenvolvido pelo Centro de Informação da Música Portuguesa. Parabéns pelas importantes iniciativas que tem desenvolvido e pelo contributo que tem prestado para o reconhecimento e divulgação da cultura musical portuguesa: é uma motivação e afinidade que certamente nos une. Em relação ao seu segundo ponto, é evidente a necessidade de alargar géneros e épocas representadas actualmente no site do CIMP. Todavia, e por estranho que possa parecer, é sobretudo o século XX português que apresenta as maiores carências em termos de levantamento de documentação e de trabalho musicológico, tendo sido essa uma das principais razões que nos levou a começar a orientar o nosso estudo por essa época. Com o tempo, e em função dos recursos humanos e financeiros de que dispusermos, ocupar-nos-emos de outras épocas e géneros. Neste momento, o compositor com a mais antiga data de nascimento é Luís de Freitas Branco, mas progressivamente iremos recuando algumas décadas e abrangendo criadores de outras áreas musicais. (...) Mantemo-nos desde já ao seu dispor para qualquer outro tipo de sugestão ou comentário que pretenda fazer, na certeza que só com a colaboração de todos os interessados poderemos de facto prosseguir da melhor forma o nosso trabalho.»
O Centro de Informação da Música Portuguesa é uma – nova - instituição cujo trabalho merece, de facto, ser acompanhado e apoiado.
Começando por lhes dar os parabéns pela constituição do Centro, classificando-a como «uma iniciativa importantíssima, indispensável, que, de facto, já tardava», a seguir fazia um apelo para que «efectivamente, e assim que vos for possível, alarguem a vossa acção a outros géneros... e, muito especialmente, a outras épocas. Sou um apreciador de música portuguesa em geral, mas, recentemente, tornei-me grande admirador – e consumidor – de música portuguesa do século XVIII.» Tal aconteceu, obviamente, por ter escrito o livro «Espíritos das Luzes» e ter iniciado o projecto de reconstituição virtual da Ópera do Tejo – que, aliás, «convidei» o CIMP a «visitar» no sítio da ARCI. E prossegui dizendo acreditar que já era mais que tempo que compositores como Carlos Seixas, Francisco António de Almeida, João de Sousa Carvalho, Marcos Portugal e João Domingos Bomtempo, entre outros, «sejam resgatados ao esquecimento quase completo em que permanecem; já é mais que tempo que os portugueses – e os estrangeiros – saibam que, contemporâneos de Bach, Haendel, Mozart, Rossini, Beethoven, e outros, houve compositores portugueses que atingiram a excelência – e, em alguns casos, a fama - nas suas épocas, e que pouco ou nada ficaram a dever a essas grandes figuras estrangeiras que continuamente são reverenciadas e tocadas pelas nossas orquestras (e passadas nas nossas rádios e televisões...). Em Portugal existe um passado musical magnífico que deve ser divulgado, aquém e além fronteiras, e de que nos devemos orgulhar... e que representa igualmente uma herança, e uma validação, de um presente musical que se pretende cada vez mais desenvolvido e relevante.»
Hoje, 27 de Janeiro, recebi a resposta da CIMP, através de João Carlos Callixto:
«Caro Octávio dos Santos: muito obrigado pelo seu contacto e pelo interesse no trabalho desenvolvido pelo Centro de Informação da Música Portuguesa. Parabéns pelas importantes iniciativas que tem desenvolvido e pelo contributo que tem prestado para o reconhecimento e divulgação da cultura musical portuguesa: é uma motivação e afinidade que certamente nos une. Em relação ao seu segundo ponto, é evidente a necessidade de alargar géneros e épocas representadas actualmente no site do CIMP. Todavia, e por estranho que possa parecer, é sobretudo o século XX português que apresenta as maiores carências em termos de levantamento de documentação e de trabalho musicológico, tendo sido essa uma das principais razões que nos levou a começar a orientar o nosso estudo por essa época. Com o tempo, e em função dos recursos humanos e financeiros de que dispusermos, ocupar-nos-emos de outras épocas e géneros. Neste momento, o compositor com a mais antiga data de nascimento é Luís de Freitas Branco, mas progressivamente iremos recuando algumas décadas e abrangendo criadores de outras áreas musicais. (...) Mantemo-nos desde já ao seu dispor para qualquer outro tipo de sugestão ou comentário que pretenda fazer, na certeza que só com a colaboração de todos os interessados poderemos de facto prosseguir da melhor forma o nosso trabalho.»
O Centro de Informação da Música Portuguesa é uma – nova - instituição cujo trabalho merece, de facto, ser acompanhado e apoiado.
terça-feira, janeiro 24, 2006
Outros: SbH - e «Visões» - no Lifecooler.com
A partir de hoje, 24 de Janeiro de 2006, está publicado no sítio Lifecooler.com – um associado do portal IOL – um artigo intitulado «Audiolivros: ler com os ouvidos», da autoria de Ana Raposo, onde, para além de uma breve retrospectiva «histórico-técnica» do conceito – e do produto – que é o audiolivro, se faz referência à editora Solutions by Heart e às obras (actuais e futuras) do seu catálogo – entre as quais «Visões», da minha autoria.
Esta é apenas a mais recente presença da SbH e do meu livro nos media nacionais. Já na viragem de 2005 para 2006 – a seguir ao Natal e ao Ano Novo, mais concretamente – tanto a editora como a minha obra haviam sido objecto de uma reportagem, exibida, mais do que uma vez, nos principais serviços noticiosos da RTP 1.
Esta é apenas a mais recente presença da SbH e do meu livro nos media nacionais. Já na viragem de 2005 para 2006 – a seguir ao Natal e ao Ano Novo, mais concretamente – tanto a editora como a minha obra haviam sido objecto de uma reportagem, exibida, mais do que uma vez, nos principais serviços noticiosos da RTP 1.
sexta-feira, janeiro 06, 2006
Obras: «Festas»
«(...) 6 de Janeiro. Era o Dia de Reis, e toda a família estava reunida para mais uma festa.
Esta data marca, pode dizer-se, o fim da época de Natal. Assinala aquele outro dia acontecido, segundo a lenda, há muitos, muitos, muitos anos, em que três homens muito importantes dessa época, os Reis Magos, de nomes Baltazar, Gaspar e Belchior, visitaram o Menino Jesus e lhe ofereceram ouro, incenso e mirra. E é por isso que existem sítios no Mundo onde é neste dia, e não no de Natal, que são oferecidas as prendas. Para os nossos heróis este Dia de Reis tinha um significado bem especial porque... estavam na companhia de um rei! O Rei Momo, meio a sério, meio a brincar, dizia-lhes: "Quem sabe se eu não descendo de Baltazar? Não tinha ele a pele escura, como eu?"
Uma vez mais, os nossos amigos estavam em movimento, em viagem. Mas desta vez deslocavam-se não numa estrada mas sim numa linha férrea. Estavam num comboio, num enorme comboio, o maior que já tinham visto. Haviam partido ao fim da tarde do dia 1 de Janeiro. O Pai Natal Principal decidira, depois de se reunir e consultar os seus colegas, retribuir a visita do Rei Momo ao País do Natal... com uma visita sua ao Reino do Carnaval. Explicou ele: "Será uma expedição magnífica como nunca se viu antes! Juntas, as gentes do Carnaval e do Natal formarão a maior embaixada de culturas, um invencível exército de paz! Levaremos a mensagem da alegria, do desenvolvimento, da tolerância, do entendimento, do sucesso, enfim, da ordem e do progresso, a outros países e a outros povos que destes valores estão muito necessitados. Proponho-vos, porém, que tomemos outro rumo. Em vez de regressarmos pelo mesmo caminho, para Ocidente, iremos para Oriente. E em vez de irmos, como vocês vieram, em caravana, em cortejo, pela estrada, iremos no nosso comboio. É mais rápido, mais seguro, e, além disso, nos sítios por onde iremos passar está agora muito frio. Para cá o Rei Momo, depois de atravessar o oceano Atlântico, chegou a Portugal, e depois passou por Espanha, França, Bélgica e Holanda, Alemanha, a Escandinávia... até que chegaram aqui. Nesta viagem continuaremos no mesmo sentido, e faremos, praticamente, uma volta ao Mundo! Vamos! Vai ser formidável!" (...)
Este dia estava a correr calmamente, tranquilamente, embalado pelo comboio. Tudo levava a crer que nada de extraordinário iria acontecer. Mas aconteceu mesmo! De repente, uma travagem mais forte manda todos os passageiros para o chão, uns para cima dos outros. Das mesas, dos armários e das prateleiras caem louça e talheres, malas, livros, e muitas outras coisas, que ficaram desarrumadas e espalhadas. Ficou tudo numa bagunça! Felizmente, e por sorte, ninguém ficou ferido, apenas uns arranhões e umas nódoas negras. Foi mais um grande susto! Mas o que teria acontecido? O que se teria passado lá fora que obrigara o maquinista a parar o comboio tão depressa? Assim que se levantaram, e que tiveram a certeza que estavam bem, correram para as janelas... e o que viram pregou-lhes outro, e ainda maior, susto!
Estavam cercados por um exército, com soldados e com canhões. Estes apontavam para o comboio, para a locomotiva, para as carruagens e para os vagões! Quem seriam eles, e o que queriam? Eram centenas, e parecia que vinham do passado, de uma aula de História, de um livro ou de um filme: os seus uniformes eram antigos, iguais aos que usavam os militares do início do século dezanove. Os chapéus altos com pala, os casacos de estilo jaquetão de cores azul e encarnada, as calças brancas justas, as botas pretas de cano alto. Às costas usavam uma mochila, nas mãos tinham uma espingarda com uma baioneta. Muitos montavam cavalos. Eram como soldadinhos de chumbo, mas em tamanho grande... e vivos! (...)
Então, saíram, de entre as fileiras de soldados, três cavaleiros, que começaram a descer a colina. Quase de certeza que eram os líderes daquele estranho exército: via-se pelo porte garboso que ostentavam, pelas medalhas no peito que mostravam... Contudo, a meio caminho, os três desequilibraram-se... e caíram! Por entre muitos insultos murmurados entre dentes, e os risos dissimulados dos seus soldados, lá voltaram a montar os seus corcéis e continuaram, um pouco abalados, amarrotados... e também um pouco sujos. Quais seriam as suas intenções? Amistosas ou hostis? Em breve iriam saber. Aproximaram-se. Pararam. E apresentaram-se.
"Salve! Eu sou o General Junot...", disse o primeiro. "... Eu sou o General Soult...", disse o segundo. "... E eu sou o General Massena", disse o terceiro. "Somos descendentes dos oficiais com o mesmo nome que, há muitos anos, estiveram sob as ordens do grande imperador Napoleão", disse Junot. "E hoje, tal como ontem, os ideais, os princípios pelos quais nos guiamos e orientamos o nosso combate, mantêm-se. Liberdade, igualdade, fraternidade! Lutamos contra todos os tiranos, onde quer que eles se encontrem", reforçou Soult. "É uma feliz coincidência que, neste Dia de Reis, tenhamos encontrado mais um dos que se dizem soberanos, que se intitulam monarcas, enfim, mais uma das infames cabeças coroadas. Ó tu, que dizes chamar-te Rei Momo, prepara-te para dizer as tuas últimas orações! O teu crime é ainda mais hediondo porque, se tens a pele negra, não és mais do que um mísero escravo a usurpar um trono que nem sequer existe. Se ainda não sabes, vais ficar a saber o que fazemos no nosso país a indivíduos da tua laia... cortamos-lhes as cabeças! Tragam a guilhotina!", sentenciou Massena. (...)
(Excertos do meu livro «Festas», uma narrativa infanto-juvenil... para todos!)
Esta data marca, pode dizer-se, o fim da época de Natal. Assinala aquele outro dia acontecido, segundo a lenda, há muitos, muitos, muitos anos, em que três homens muito importantes dessa época, os Reis Magos, de nomes Baltazar, Gaspar e Belchior, visitaram o Menino Jesus e lhe ofereceram ouro, incenso e mirra. E é por isso que existem sítios no Mundo onde é neste dia, e não no de Natal, que são oferecidas as prendas. Para os nossos heróis este Dia de Reis tinha um significado bem especial porque... estavam na companhia de um rei! O Rei Momo, meio a sério, meio a brincar, dizia-lhes: "Quem sabe se eu não descendo de Baltazar? Não tinha ele a pele escura, como eu?"
Uma vez mais, os nossos amigos estavam em movimento, em viagem. Mas desta vez deslocavam-se não numa estrada mas sim numa linha férrea. Estavam num comboio, num enorme comboio, o maior que já tinham visto. Haviam partido ao fim da tarde do dia 1 de Janeiro. O Pai Natal Principal decidira, depois de se reunir e consultar os seus colegas, retribuir a visita do Rei Momo ao País do Natal... com uma visita sua ao Reino do Carnaval. Explicou ele: "Será uma expedição magnífica como nunca se viu antes! Juntas, as gentes do Carnaval e do Natal formarão a maior embaixada de culturas, um invencível exército de paz! Levaremos a mensagem da alegria, do desenvolvimento, da tolerância, do entendimento, do sucesso, enfim, da ordem e do progresso, a outros países e a outros povos que destes valores estão muito necessitados. Proponho-vos, porém, que tomemos outro rumo. Em vez de regressarmos pelo mesmo caminho, para Ocidente, iremos para Oriente. E em vez de irmos, como vocês vieram, em caravana, em cortejo, pela estrada, iremos no nosso comboio. É mais rápido, mais seguro, e, além disso, nos sítios por onde iremos passar está agora muito frio. Para cá o Rei Momo, depois de atravessar o oceano Atlântico, chegou a Portugal, e depois passou por Espanha, França, Bélgica e Holanda, Alemanha, a Escandinávia... até que chegaram aqui. Nesta viagem continuaremos no mesmo sentido, e faremos, praticamente, uma volta ao Mundo! Vamos! Vai ser formidável!" (...)
Este dia estava a correr calmamente, tranquilamente, embalado pelo comboio. Tudo levava a crer que nada de extraordinário iria acontecer. Mas aconteceu mesmo! De repente, uma travagem mais forte manda todos os passageiros para o chão, uns para cima dos outros. Das mesas, dos armários e das prateleiras caem louça e talheres, malas, livros, e muitas outras coisas, que ficaram desarrumadas e espalhadas. Ficou tudo numa bagunça! Felizmente, e por sorte, ninguém ficou ferido, apenas uns arranhões e umas nódoas negras. Foi mais um grande susto! Mas o que teria acontecido? O que se teria passado lá fora que obrigara o maquinista a parar o comboio tão depressa? Assim que se levantaram, e que tiveram a certeza que estavam bem, correram para as janelas... e o que viram pregou-lhes outro, e ainda maior, susto!
Estavam cercados por um exército, com soldados e com canhões. Estes apontavam para o comboio, para a locomotiva, para as carruagens e para os vagões! Quem seriam eles, e o que queriam? Eram centenas, e parecia que vinham do passado, de uma aula de História, de um livro ou de um filme: os seus uniformes eram antigos, iguais aos que usavam os militares do início do século dezanove. Os chapéus altos com pala, os casacos de estilo jaquetão de cores azul e encarnada, as calças brancas justas, as botas pretas de cano alto. Às costas usavam uma mochila, nas mãos tinham uma espingarda com uma baioneta. Muitos montavam cavalos. Eram como soldadinhos de chumbo, mas em tamanho grande... e vivos! (...)
Então, saíram, de entre as fileiras de soldados, três cavaleiros, que começaram a descer a colina. Quase de certeza que eram os líderes daquele estranho exército: via-se pelo porte garboso que ostentavam, pelas medalhas no peito que mostravam... Contudo, a meio caminho, os três desequilibraram-se... e caíram! Por entre muitos insultos murmurados entre dentes, e os risos dissimulados dos seus soldados, lá voltaram a montar os seus corcéis e continuaram, um pouco abalados, amarrotados... e também um pouco sujos. Quais seriam as suas intenções? Amistosas ou hostis? Em breve iriam saber. Aproximaram-se. Pararam. E apresentaram-se.
"Salve! Eu sou o General Junot...", disse o primeiro. "... Eu sou o General Soult...", disse o segundo. "... E eu sou o General Massena", disse o terceiro. "Somos descendentes dos oficiais com o mesmo nome que, há muitos anos, estiveram sob as ordens do grande imperador Napoleão", disse Junot. "E hoje, tal como ontem, os ideais, os princípios pelos quais nos guiamos e orientamos o nosso combate, mantêm-se. Liberdade, igualdade, fraternidade! Lutamos contra todos os tiranos, onde quer que eles se encontrem", reforçou Soult. "É uma feliz coincidência que, neste Dia de Reis, tenhamos encontrado mais um dos que se dizem soberanos, que se intitulam monarcas, enfim, mais uma das infames cabeças coroadas. Ó tu, que dizes chamar-te Rei Momo, prepara-te para dizer as tuas últimas orações! O teu crime é ainda mais hediondo porque, se tens a pele negra, não és mais do que um mísero escravo a usurpar um trono que nem sequer existe. Se ainda não sabes, vais ficar a saber o que fazemos no nosso país a indivíduos da tua laia... cortamos-lhes as cabeças! Tragam a guilhotina!", sentenciou Massena. (...)
(Excertos do meu livro «Festas», uma narrativa infanto-juvenil... para todos!)
domingo, dezembro 25, 2005
Obras: "Cristo renasceu na Roménia"
Cristo renasceu na Roménia
e os novos anjos espalharam rapidamente a notícia sensação.
Aconteceu nas ruas, que o parto inundou de sangue e de lágrimas,
porque nas casas já não havia lugar para o silêncio e para a resignação.
Cristo renasceu na Roménia
e o velho tirano, receoso, mandou matar as crianças, inocentes reféns.
Os que têm paz no ódio declararam guerra ao amor
mas não venceram mesmo depois de abaterem os pais e as mães.
Cristo renasceu na Roménia
e os reis do Mundo acorreram a oferecer riquezas.
Foram guiados pela estrela de fogo que brilhava da terra até ao céu,
e recebidos pelos cadáveres dos pastores que se cansaram de tristezas.
Poema (Nº 208) escrito em 1989 e incluído no meu livro «Museu da História».
e os novos anjos espalharam rapidamente a notícia sensação.
Aconteceu nas ruas, que o parto inundou de sangue e de lágrimas,
porque nas casas já não havia lugar para o silêncio e para a resignação.
Cristo renasceu na Roménia
e o velho tirano, receoso, mandou matar as crianças, inocentes reféns.
Os que têm paz no ódio declararam guerra ao amor
mas não venceram mesmo depois de abaterem os pais e as mães.
Cristo renasceu na Roménia
e os reis do Mundo acorreram a oferecer riquezas.
Foram guiados pela estrela de fogo que brilhava da terra até ao céu,
e recebidos pelos cadáveres dos pastores que se cansaram de tristezas.
Poema (Nº 208) escrito em 1989 e incluído no meu livro «Museu da História».
quarta-feira, dezembro 21, 2005
Obras: "Guitarra"
Pega na minha guitarra
e vamos guitarrar.
Dedilha suavemente as minhas cordas;
toca uma música de embalar.
A noite ainda é uma criança que quer brincar,
maravilhada com sons festivos e perfumes inebriantes.
No reino da boémia o meu reinado acaba de principiar;
sou dono e senhor até os arautos da madrugada se revelarem triunfantes.
Canto o fado entre gritos apaixonados
de amantes capazes de matar por ciúmes.
Uma cigana lê-me a sina e prevê momentos sublimados
enquanto fogosas dançarinas me abordam com lânguidos queixumes.
Sinto a inspiração a embriagar-me;
pelo prazer e pela arte vale a pena viver a vida.
Uma rodada de êxtase para todos, pago eu!
Dêem de beber ao amor, e a dor não será sentida.
Agarra na minha guitarra
e vamos guitarrar!
Dedilha violentamente as minhas cordas;
toca uma música de arrebatar!
Hoje, 21 de Dezembro de 2005, passam 200 anos sobre a morte de Manuel Maria Barbosa du Bocage.
Poema (Nº 156) escrito em 1986 e incluído no meu livro «Alma Portuguesa».
e vamos guitarrar.
Dedilha suavemente as minhas cordas;
toca uma música de embalar.
A noite ainda é uma criança que quer brincar,
maravilhada com sons festivos e perfumes inebriantes.
No reino da boémia o meu reinado acaba de principiar;
sou dono e senhor até os arautos da madrugada se revelarem triunfantes.
Canto o fado entre gritos apaixonados
de amantes capazes de matar por ciúmes.
Uma cigana lê-me a sina e prevê momentos sublimados
enquanto fogosas dançarinas me abordam com lânguidos queixumes.
Sinto a inspiração a embriagar-me;
pelo prazer e pela arte vale a pena viver a vida.
Uma rodada de êxtase para todos, pago eu!
Dêem de beber ao amor, e a dor não será sentida.
Agarra na minha guitarra
e vamos guitarrar!
Dedilha violentamente as minhas cordas;
toca uma música de arrebatar!
Hoje, 21 de Dezembro de 2005, passam 200 anos sobre a morte de Manuel Maria Barbosa du Bocage.
Poema (Nº 156) escrito em 1986 e incluído no meu livro «Alma Portuguesa».
sexta-feira, dezembro 02, 2005
Organização: MAR é minha marca
Hoje, 2 de Dezembro de 2005, desloquei-me ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial, em Lisboa, onde procedi – concluindo um processo que se iniciou em 21 de Novembro de 2003 - ao registo nacional definitivo, em meu nome, da marca MAR, que é também o título da revista que constitui, há mais de três anos, o meu principal projecto profissional.
A ideia surgiu-me há quase dez anos. A 5 de Fevereiro de 1996 apresentei no Palácio Foz, na então Direcção Geral de Espectáculos, actualmente Inspecção Geral das Actividades Culturais, um requerimento de registo em meu favor do direito de autor sobre um «projecto de uma revista mensal, de edição nacional e (também) com distribuição internacional, sobre os factos e as figuras das culturas dos povos lusófonos.»
Em 1998 uma primeira versão da MAR esteve perto de se tornar realidade. Na editora onde eu então trabalhava um grupo de trabalho chegou a ser formado, um primeiro estudo gráfico chegou a ser realizado... mas não se foi além disso. Só em 2002 o projecto viria a registar não só um novo dinamismo mas também uma nova direcção. E a causa da mudança foi... o Campeonato do Mundo de Futebol desse ano, que decorreu no Japão e na Coreia do Sul. Para ser mais preciso, foi a prestação vergonhosa da selecção nacional nesse campeonato, que, à semelhança de anteriores «humilhações futebolísticas», mergulhou o país num exagerado mas inegável estado de frustração colectiva. Como se o destino de uma nação se jogasse única e exclusivamente na forma como onze marmanjos chutam uma bola. O sentimento generalizado de desilusão, de desânimo, de decepção, ficou bem ilustrado numa caricatura de António Maia publicada no jornal O Ribatejo de 4 de Julho desse ano: nela viam-se dois homens que levantavam uma faixa onde se lia «Queremos ser campeões de qualquer coisa!!» Quando a vi pensei: «Mas... nós somos, ou fomos, campeões de muita coisa!!» E então na minha mente fez-se «luz»!
Assim, o nome mantém-se, as secções então pensadas estão praticamente todas, o «espírito» é o mesmo, os destinatários não mudaram. O que mudou sim foi o âmbito, que se alargou, e a abordagem, que se especializou.
A MAR tem como lema «Sucesso que fala português» (registado em 21 de Janeiro de 2004 na IGAC), e é esse também o seu objectivo: procurar os nossos vencedores - individualidades e instituições - em todos os sectores; dar a conhecer (melhor) todos os falantes da nossa língua – sejam eles portugueses, brasileiros, africanos, timorenses, luso-descendentes - que alcança(ra)m o «pódio» - ou quase – em qualquer área de actividade (política, economia, ciência, cultura, desporto...), que ganharam fama e/ou proveito não só no presente, como também no passado.... mas sempre numa perspectiva internacional: agora, o critério básico, determinante, é a (vitória em) competição com estrangeiros e/ou o reconhecimento (distinção) por estrangeiros – isto é, não falantes de português.
Houve quem me dissesse que este seria um mau momento para se lançar uma nova publicação. Muito pelo contrário: esta é a melhor altura para se lançar um novo tipo de revista, de um género que nunca até hoje havia existido no nosso país... precisamente porque faz (fazia) falta algo para contrariar o negativismo que nos rodeia. Que, é certo, não é só recente, mas que se agravou, e muito, nos últimos dois, três anos. Devido, sim, ao Campeonato do Mundo de Futebol, mas também à multiplicação dos estudos, das sondagens, das comparações, dos relatos e das opiniões que apontam invariavelmente na mesma direcção, que retiram a mesma conclusão: somos dos piores da Europa, quando não do Mundo, em diversos indicadores de desenvolvimento, na saúde, na educação, na (reduzidas produtividade e competitividade da) economia, na segurança (ou seja, na criminalidade...) As situações escandalosas, os exemplos de fracasso, os casos de insucesso, os últimos lugares nas tabelas estatísticas sucedem-se. A nossa auto-estima está muito por baixo. A desmotivação, a depressão, são dominantes.
Nem tudo é sempre uma «apagada e vil tristeza»; é preciso igualmente pensar, dizer e agir pela positiva. Recusamos a «ditadura da negatividade»... e também recusamos a «ditadura da actualidade». À MAR não interessa, dentro do seu âmbito, apenas o que aconteceu no dia, na semana ou no mês anterior. Se for relevante para o seu objectivo, também nos interessa o que aconteceu há um, dez, cinquenta, cem anos atrás. Ou mais! Há histórias que devem ser reveladas; há outras que merecem ser recordadas. E os casos de sucesso «em português», de hoje e de ontem, são muitos e não são difíceis de encontrar; eles estão espalhados um pouco por todo o lado; encontramos com frequência referências a compatriotas, ou a irmãos no idioma, que se tornaram, em várias áreas, o «número um»... ou ficaram muito perto disso. Era pois necessária uma revista que reunisse, que centralizasse, aprofundasse, e, logo, que valorizasse, todos esses casos, todas essas referências.
A MAR surge também como um meio, um contributo, para tentar estabelecer um equilíbrio no panorama da informação no - e sobre o - espaço dos países e dos povos de língua portuguesa; é um projecto plural. A MAR quer estar onde estiver um falante (ou leitor) de português, constituindo assim um factor de identificação, um elo de ligação, entre uma comunidade mundial que partilha uma língua e uma cultura. São muitas as possibilidades; a questão está em saber se queremos – porque de certeza que podemos – torná-las realidades. Para a MAR, a frase «a minha pátria é a língua portuguesa» não é uma figura de retórica: é um ideal que é real, em que acredita(re)mos e que vive(re)mos todos os dias.
A ideia surgiu-me há quase dez anos. A 5 de Fevereiro de 1996 apresentei no Palácio Foz, na então Direcção Geral de Espectáculos, actualmente Inspecção Geral das Actividades Culturais, um requerimento de registo em meu favor do direito de autor sobre um «projecto de uma revista mensal, de edição nacional e (também) com distribuição internacional, sobre os factos e as figuras das culturas dos povos lusófonos.»
Em 1998 uma primeira versão da MAR esteve perto de se tornar realidade. Na editora onde eu então trabalhava um grupo de trabalho chegou a ser formado, um primeiro estudo gráfico chegou a ser realizado... mas não se foi além disso. Só em 2002 o projecto viria a registar não só um novo dinamismo mas também uma nova direcção. E a causa da mudança foi... o Campeonato do Mundo de Futebol desse ano, que decorreu no Japão e na Coreia do Sul. Para ser mais preciso, foi a prestação vergonhosa da selecção nacional nesse campeonato, que, à semelhança de anteriores «humilhações futebolísticas», mergulhou o país num exagerado mas inegável estado de frustração colectiva. Como se o destino de uma nação se jogasse única e exclusivamente na forma como onze marmanjos chutam uma bola. O sentimento generalizado de desilusão, de desânimo, de decepção, ficou bem ilustrado numa caricatura de António Maia publicada no jornal O Ribatejo de 4 de Julho desse ano: nela viam-se dois homens que levantavam uma faixa onde se lia «Queremos ser campeões de qualquer coisa!!» Quando a vi pensei: «Mas... nós somos, ou fomos, campeões de muita coisa!!» E então na minha mente fez-se «luz»!
Assim, o nome mantém-se, as secções então pensadas estão praticamente todas, o «espírito» é o mesmo, os destinatários não mudaram. O que mudou sim foi o âmbito, que se alargou, e a abordagem, que se especializou.
A MAR tem como lema «Sucesso que fala português» (registado em 21 de Janeiro de 2004 na IGAC), e é esse também o seu objectivo: procurar os nossos vencedores - individualidades e instituições - em todos os sectores; dar a conhecer (melhor) todos os falantes da nossa língua – sejam eles portugueses, brasileiros, africanos, timorenses, luso-descendentes - que alcança(ra)m o «pódio» - ou quase – em qualquer área de actividade (política, economia, ciência, cultura, desporto...), que ganharam fama e/ou proveito não só no presente, como também no passado.... mas sempre numa perspectiva internacional: agora, o critério básico, determinante, é a (vitória em) competição com estrangeiros e/ou o reconhecimento (distinção) por estrangeiros – isto é, não falantes de português.
Houve quem me dissesse que este seria um mau momento para se lançar uma nova publicação. Muito pelo contrário: esta é a melhor altura para se lançar um novo tipo de revista, de um género que nunca até hoje havia existido no nosso país... precisamente porque faz (fazia) falta algo para contrariar o negativismo que nos rodeia. Que, é certo, não é só recente, mas que se agravou, e muito, nos últimos dois, três anos. Devido, sim, ao Campeonato do Mundo de Futebol, mas também à multiplicação dos estudos, das sondagens, das comparações, dos relatos e das opiniões que apontam invariavelmente na mesma direcção, que retiram a mesma conclusão: somos dos piores da Europa, quando não do Mundo, em diversos indicadores de desenvolvimento, na saúde, na educação, na (reduzidas produtividade e competitividade da) economia, na segurança (ou seja, na criminalidade...) As situações escandalosas, os exemplos de fracasso, os casos de insucesso, os últimos lugares nas tabelas estatísticas sucedem-se. A nossa auto-estima está muito por baixo. A desmotivação, a depressão, são dominantes.
Nem tudo é sempre uma «apagada e vil tristeza»; é preciso igualmente pensar, dizer e agir pela positiva. Recusamos a «ditadura da negatividade»... e também recusamos a «ditadura da actualidade». À MAR não interessa, dentro do seu âmbito, apenas o que aconteceu no dia, na semana ou no mês anterior. Se for relevante para o seu objectivo, também nos interessa o que aconteceu há um, dez, cinquenta, cem anos atrás. Ou mais! Há histórias que devem ser reveladas; há outras que merecem ser recordadas. E os casos de sucesso «em português», de hoje e de ontem, são muitos e não são difíceis de encontrar; eles estão espalhados um pouco por todo o lado; encontramos com frequência referências a compatriotas, ou a irmãos no idioma, que se tornaram, em várias áreas, o «número um»... ou ficaram muito perto disso. Era pois necessária uma revista que reunisse, que centralizasse, aprofundasse, e, logo, que valorizasse, todos esses casos, todas essas referências.
A MAR surge também como um meio, um contributo, para tentar estabelecer um equilíbrio no panorama da informação no - e sobre o - espaço dos países e dos povos de língua portuguesa; é um projecto plural. A MAR quer estar onde estiver um falante (ou leitor) de português, constituindo assim um factor de identificação, um elo de ligação, entre uma comunidade mundial que partilha uma língua e uma cultura. São muitas as possibilidades; a questão está em saber se queremos – porque de certeza que podemos – torná-las realidades. Para a MAR, a frase «a minha pátria é a língua portuguesa» não é uma figura de retórica: é um ideal que é real, em que acredita(re)mos e que vive(re)mos todos os dias.
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Opinião: O real eixo atlântico
É cada vez mais evidente aquilo em que Portugal se tornou: um país destruído - por incêndios (grande parte, talvez a maior, de origem criminosa) mas não só - e deprimido, desequilibrado, ridicularizado no estrangeiro por acontecimentos típicos do Terceiro Mundo – sejam prostitutas em Bragança, «arrastões» na praia de Carcavelos e nos comboios da linha de Sintra, ou a IP5 como a «segunda estrada mais perigosa do Mundo». Na república portuguesa o crime compensa; reinam o desinteresse e a incompetência, a permissividade e a impunidade. O Estado não mostra ter autoridade, e não inspira segurança e confiança aos cidadãos.
Porém, por incrível que isso possa parecer, existe um país, muito distante mas ao mesmo tempo muito próximo de nós, cuja situação é ainda pior: o Brasil. O escândalo que ficou conhecido como «Mensalão» - em que grandes empresas portuguesas poderão estar envolvidas! - veio provar definitivamente, em especial aos mais ingénuos, que na república federativa do Brasil nenhum sector da política, da «esquerda» à «direita», se aproveita; lá, onde as assimetrias sociais são inacreditáveis, a corrupção não é um mal - é um modo de vida; e que, além dos futebolistas, o grupo de profissionais com as carreiras mais promissoras são os criminosos – sejam eles os dos palácios de Brasília ou os das favelas do Rio de Janeiro. E, entretanto, a Amazónia continua a arder...
Nos dois países irmãos os problemas são semelhantes, apesar de as suas dimensões serem diferentes. E a - melhor - solução é a mesma: a restauração da Monarquia.
Já existem, felizmente, muitas ligações entre Portugal e o Brasil. Construamos, reforcemos, mais uma: um real eixo atlântico. Que, unindo os monárquicos dos dois países – e as famílias dos pretendentes aos tronos, aliás já há muito unidas por laços de sangue, de parentesco – numa causa comum, contribua para restituir, o mais rápida e firmemente possível, a honra e o amor-próprio a ambas os povos, eliminando ao mesmo tempo os «bandidos» que, nas duas margens do mar, se apoderaram do «ouro» - literal e figurado.
No Brasil a grande ladroagem começou em 1889: foi neste ano que a república foi instaurada... depois de a Monarquia ter abolido definitivamente (em 1888...) a escravatura. Ou seja, 21 anos antes de os assassinos terem tomado o poder em Portugal. Numa e noutra nação já é tempo demais de baixaria; numa e noutra nação já é chegado o tempo de as vozes da coragem, da probidade e da tradição se erguerem e proclamarem bem alto que o regime tem de mudar... e passarem das palavras aos actos.
E esses actos implicam... pegar em armas. Retribuir, pagar bem caro, e na mesma moeda, a afronta feita em 5 de Outubro de 1910. Não tenhamos mais ilusões: pelo menos em Portugal a restauração da Monarquia só se fará pela força. Nunca os «republicanos» de meia-tigela deste país permitirão que se faça sequer um referendo sobre o assunto... e isso comprovou-se novamente neste ano de 2005, quando, durante o processo – mais um! – de revisão constitucional, se introduziu um novo artigo (o 295º) que permite a realização de referendo(s) sobre tratado(s) europeu(s) mas não se introduziu outro que permitisse a realização de um referendo sobre o regime! Aliás, nem o famigerado artigo 288º - o de qualquer revisão ter de respeitar a «forma republicana de governo» - foi alterado.
E com que armas se pode derrubar a república? Com as das forças policiais e militares nacionais, que estão entre os segmentos sócio-profissionais mais descontentes com a actual situação de Portugal, e, em particular, com os ataques de que estão a ser alvo por parte do actual governo. Na verdade, esse descontentamento é geral... e praticamente total: os portugueses – nota-se nas ruas e nas mensagens que, de uma forma ou de outra, chegam aos meios de comunicação – atingiram o ponto de saturação; fartos dos políticos, dos quais dizem serem «todos o mesmo», querem, exigem, uma mudança completa; entre outras propostas mais ou menos radicais, alguns até propõem na brincadeira – ou será que é a sério?! – que sejamos anexados pela Espanha... Como se não houvesse outra alternativa. Mas há. E décadas de desinformação, de propaganda, de deturpação da História, não foram suficientes para a apagar, para a destruir.
A democracia é, sem qualquer dúvida, e quase sempre, a melhor forma de governar uma sociedade. Todavia, ela não passará de um embuste, de uma fraude, se não estiver assente sobre bases sólidas e visíveis; se, à partida, os dados estiverem viciados, se as cartas estiverem marcadas. É o que se passa tanto em Portugal como no Brasil: não foram removidos todos os elementos, agrupamentos e comportamentos nocivos que, directa ou indirectamente, corroem, minam, as legítimas estruturas e os processos normais dos dois países, e impedem um verdadeiro desenvolvimento em todos os aspectos. Ambos precisam de um período de excepção; de uma breve, embora implacável, ditadura. Para pôr as «casas» em ordem; para as «limpar». E para depois se poder, realmente, recomeçar.
Hoje, 1 de Dezembro de 2005, passam 365 (300+50+10+5) anos sobre a Restauração da Independência de Portugal.
Porém, por incrível que isso possa parecer, existe um país, muito distante mas ao mesmo tempo muito próximo de nós, cuja situação é ainda pior: o Brasil. O escândalo que ficou conhecido como «Mensalão» - em que grandes empresas portuguesas poderão estar envolvidas! - veio provar definitivamente, em especial aos mais ingénuos, que na república federativa do Brasil nenhum sector da política, da «esquerda» à «direita», se aproveita; lá, onde as assimetrias sociais são inacreditáveis, a corrupção não é um mal - é um modo de vida; e que, além dos futebolistas, o grupo de profissionais com as carreiras mais promissoras são os criminosos – sejam eles os dos palácios de Brasília ou os das favelas do Rio de Janeiro. E, entretanto, a Amazónia continua a arder...
Nos dois países irmãos os problemas são semelhantes, apesar de as suas dimensões serem diferentes. E a - melhor - solução é a mesma: a restauração da Monarquia.
Já existem, felizmente, muitas ligações entre Portugal e o Brasil. Construamos, reforcemos, mais uma: um real eixo atlântico. Que, unindo os monárquicos dos dois países – e as famílias dos pretendentes aos tronos, aliás já há muito unidas por laços de sangue, de parentesco – numa causa comum, contribua para restituir, o mais rápida e firmemente possível, a honra e o amor-próprio a ambas os povos, eliminando ao mesmo tempo os «bandidos» que, nas duas margens do mar, se apoderaram do «ouro» - literal e figurado.
No Brasil a grande ladroagem começou em 1889: foi neste ano que a república foi instaurada... depois de a Monarquia ter abolido definitivamente (em 1888...) a escravatura. Ou seja, 21 anos antes de os assassinos terem tomado o poder em Portugal. Numa e noutra nação já é tempo demais de baixaria; numa e noutra nação já é chegado o tempo de as vozes da coragem, da probidade e da tradição se erguerem e proclamarem bem alto que o regime tem de mudar... e passarem das palavras aos actos.
E esses actos implicam... pegar em armas. Retribuir, pagar bem caro, e na mesma moeda, a afronta feita em 5 de Outubro de 1910. Não tenhamos mais ilusões: pelo menos em Portugal a restauração da Monarquia só se fará pela força. Nunca os «republicanos» de meia-tigela deste país permitirão que se faça sequer um referendo sobre o assunto... e isso comprovou-se novamente neste ano de 2005, quando, durante o processo – mais um! – de revisão constitucional, se introduziu um novo artigo (o 295º) que permite a realização de referendo(s) sobre tratado(s) europeu(s) mas não se introduziu outro que permitisse a realização de um referendo sobre o regime! Aliás, nem o famigerado artigo 288º - o de qualquer revisão ter de respeitar a «forma republicana de governo» - foi alterado.
E com que armas se pode derrubar a república? Com as das forças policiais e militares nacionais, que estão entre os segmentos sócio-profissionais mais descontentes com a actual situação de Portugal, e, em particular, com os ataques de que estão a ser alvo por parte do actual governo. Na verdade, esse descontentamento é geral... e praticamente total: os portugueses – nota-se nas ruas e nas mensagens que, de uma forma ou de outra, chegam aos meios de comunicação – atingiram o ponto de saturação; fartos dos políticos, dos quais dizem serem «todos o mesmo», querem, exigem, uma mudança completa; entre outras propostas mais ou menos radicais, alguns até propõem na brincadeira – ou será que é a sério?! – que sejamos anexados pela Espanha... Como se não houvesse outra alternativa. Mas há. E décadas de desinformação, de propaganda, de deturpação da História, não foram suficientes para a apagar, para a destruir.
A democracia é, sem qualquer dúvida, e quase sempre, a melhor forma de governar uma sociedade. Todavia, ela não passará de um embuste, de uma fraude, se não estiver assente sobre bases sólidas e visíveis; se, à partida, os dados estiverem viciados, se as cartas estiverem marcadas. É o que se passa tanto em Portugal como no Brasil: não foram removidos todos os elementos, agrupamentos e comportamentos nocivos que, directa ou indirectamente, corroem, minam, as legítimas estruturas e os processos normais dos dois países, e impedem um verdadeiro desenvolvimento em todos os aspectos. Ambos precisam de um período de excepção; de uma breve, embora implacável, ditadura. Para pôr as «casas» em ordem; para as «limpar». E para depois se poder, realmente, recomeçar.
Hoje, 1 de Dezembro de 2005, passam 365 (300+50+10+5) anos sobre a Restauração da Independência de Portugal.
domingo, novembro 27, 2005
Obrigado: Aos que compareceram hoje
Exprimo aqui o meu agradecimento – depois de já o ter feito pessoalmente e no local – ao meu irmão Pedro dos Santos, e aos meus amigos Sérgio Sousa Rodrigues, Céu Dias e Emanuel Rosa, por terem comparecido hoje à cerimónia de apresentação da minha obra «Visões», em formato áudio-livro, na loja FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa.
quarta-feira, novembro 09, 2005
Oráculo: «Visões» é relançado em Lisboa e no Porto
A minha obra «Visões», agora em formato de áudio-livro (disco) editado pela Solutions by Heart, vai ser apresentada: no próximo dia 27 de Novembro, às 12.30 horas, na loja FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa; e no próximo dia 4 de Dezembro, às 17 horas, na loja FNAC de Santa Catarina, no Porto.
Tal como anunciei no passado dia 7 de Julho, o trabalho que constituiu, em Novembro de 2003, a minha estreia literária... em papel, veio a tornar-se, posteriormente e devidamente adaptado (este primeiro volume inclui apenas cinco dos 25 contos presentes na edição original – “Mãe”, “Jovem executivo de sucesso”, “Aniversário”, “Caminhos de ferro” e “A fronteira”), num dos primeiros produtos de uma nova empresa – juntamente com «O Islão Segundo um Ocidental», do meu amigo Sérgio Sousa Rodrigues (S. Franclim), e de «Contos» de Hans Christian Andersen (este em dois volumes).
Estas obras vão estar disponíveis, numa primeira fase, e a partir de dia 14: nas lojas FNAC; e nos postos da GALP do Aeroporto de Lisboa, Águas Santas (perto do Porto), Alcácer do Sal, Aveiras e Oeiras.
sábado, novembro 05, 2005
Opinião: A fábrica foi um sonho
Ao lado do bairro onde resido existiu, até 2002, uma das mais importantes – porque das mais antigas e das que mais pessoas empregou - empresas do concelho: a Pentealã, ou Empresa Nacional de Penteação de Lãs de Alhandra, ou, como era mais conhecida, a Fábrica da Figueira.
Com o passar do tempo vieram as dificuldades financeiras e a falência. O espaço foi vendido e todos os edifícios derrubados, juntamente com algumas árvores centenárias e uma alta chaminé onde cegonhas faziam ninhos. Objectivo dos novos proprietários: a construção de... armazéns com escritórios.
Porém, nesta vasta área não existem (no momento em que escrevo) armazéns com escritórios mas sim muito entulho e muita vegetação; tanta que receei consequências graves quando detectei, num dia do último Verão, um foco de incêndio do qual logo avisei os bombeiros. É de supor que burocracias e a crise económica – afinal, este é um segmento de mercado onde, também neste concelho, a oferta é elevada - têm atrasado o início das obras.
A Câmara Municipal de Vila Franca de Xira não deveria ter autorizado a destruição da fábrica. Ela era um património importante que merecia ser preservado e reconvertido. Durante as férias visitei a Fábrica do Inglês, em Silves, lembrei-me da Fábrica da Pólvora, em Oeiras, e imaginei o que a Fábrica da Figueira podia ter sido: um local para a cultura, o trabalho e o lazer; um legado modernizado.
Uma futilidade, claro: nesta terra nem os sonhos feitos de tijolos têm, por isso, mais hipóteses de se tornarem realidade.
Artigo publicado no jornal Notícias de Alverca, Nº 213, 2005/10.
Com o passar do tempo vieram as dificuldades financeiras e a falência. O espaço foi vendido e todos os edifícios derrubados, juntamente com algumas árvores centenárias e uma alta chaminé onde cegonhas faziam ninhos. Objectivo dos novos proprietários: a construção de... armazéns com escritórios.
Porém, nesta vasta área não existem (no momento em que escrevo) armazéns com escritórios mas sim muito entulho e muita vegetação; tanta que receei consequências graves quando detectei, num dia do último Verão, um foco de incêndio do qual logo avisei os bombeiros. É de supor que burocracias e a crise económica – afinal, este é um segmento de mercado onde, também neste concelho, a oferta é elevada - têm atrasado o início das obras.
A Câmara Municipal de Vila Franca de Xira não deveria ter autorizado a destruição da fábrica. Ela era um património importante que merecia ser preservado e reconvertido. Durante as férias visitei a Fábrica do Inglês, em Silves, lembrei-me da Fábrica da Pólvora, em Oeiras, e imaginei o que a Fábrica da Figueira podia ter sido: um local para a cultura, o trabalho e o lazer; um legado modernizado.
Uma futilidade, claro: nesta terra nem os sonhos feitos de tijolos têm, por isso, mais hipóteses de se tornarem realidade.
Artigo publicado no jornal Notícias de Alverca, Nº 213, 2005/10.
terça-feira, novembro 01, 2005
Object(iv)o: Ópera do Tejo revisitada
Em 2004, e certamente sob a influência da experiência que adquirira enquanto jornalista especializado em factos e figuras ligadas às tecnologias de informação e comunicação, estabeleci os primeiros contactos com vista à constituição de um grupo de trabalho, de uma equipa multidisciplinar, que, utilizando, se possível, os mais avançados sistemas e ferramentas de computação gráfica, procedesse, mais do que à reconstituição virtual (modelação e animação de exteriores e interiores), quase a uma autêntica «ressurreição» de um edifício desaparecido a 1 de Novembro de 1755 e que fora inaugurado... a 2 de Abril desse mesmo ano! Qual? O Teatro Real do Paço da Ribeira... que ficaria conhecido por Ópera do Tejo por, claro, ficar situado junto ao rio, no espaço entre os actuais Praça do Comércio e Cais do Sodré, mais ou menos onde está hoje o Arsenal da Marinha.
A que então era considerada a maior e a melhor «casa da música» da Europa foi erigida por iniciativa do Rei D. José. O monarca continuava assim a tradição, iniciada pelo seu pai e antecessor, D. João V, e prosseguida pela sua filha e sucessora, D. Maria I, de alto patrocínio, por parte da Casa Real portuguesa, à arte da música. Em consequência dessa autêntica política de «mecenato cultural», muitos músicos estrangeiros, em especial italianos, foram convidados a vir e mesmo a residir no nosso país, para tocarem, ensinarem e comporem. Como seria de prever, depressa se sentiu a necessidade de construir um edifício que não só corporizasse, desse forma concreta, a esta atitude, a esta estratégia para com a arte em geral e para com a música em particular, mas que também simbolizasse a benevolência, o bom gosto e a magnificência dos soberanos. Curiosamente, foi também a um italiano que se encomendou, em 1752, o projecto do teatro: Giovanni Carlo Bibiena, filho de outro famoso arquitecto, Francisco Bibiena. A construção terá sido dirigida por João Frederico Ludovice, que já trabalhara no Convento de Mafra. Todos os documentos existentes sobre o edifício – textos descritivos, testemunhos de nacionais e de estrangeiros, plantas (projectos) e desenhos tanto de antes como de depois (do terramoto) – coincidem no salientar da sua imponência e sumptuosidade, no realçar da sua superioridade tanto estética como técnica em comparação com tudo o que se havia feito no género até aí. A estreia decorreu ao som da ópera de David Perez «Alessandro nell’Indie», cuja encenação requeria, a dado momento, a presença simultânea de 25 cavalos no palco! Mas não era só este o único sector do teatro com dimensões desmesuradas: a plateia teria seiscentos lugares e haveria três ou quatro ordens de camarotes, cada uma delas com oito; existiria uma extensa área de apoio sob o palco, com camarins, oficinas e escadas para a entrada e saída dos artistas e para o acesso aos outros pisos e zonas. A Ópera do Tejo seguia o modelo de uma edificação dita de «três volumes» - palco, plateia e átrio – e todos os que nela entravam podiam admirar as «esplêndidas decorações» em que sobressaíam as cores branca e dourada. O Teatro de S. Carlos, aberto em 1793, viria a revelar-se, face ao seu ilustre antecessor, um edifício menor... em tamanho e em luxo.
Porquê um projecto como este? O seu interesse e, logo, a sua justificação, podem ser encontrados na própria história deste teatro e no período durante o qual ele, por «poucos instantes», existiu. Trata-se, no fundo, de resgatar ao esquecimento quase geral – quantos de nós sabiam que este edifício tinha existido? – (mais) uma prova irrefutável de que no passado os portugueses também alcançaram elevados patamares de excelência artística (artes como as entendemos hoje e «artes» enquanto ofícios), em que se colocaram ao nível, e mesmo acima, do que se fazia na Europa e no Mundo. Enfim, está em causa (re)colocar a Ópera do Tejo entre o inventário do património arquitectónico histórico português: não devem ser só as construções que permanecem (mais ou menos) inteiras e aquelas das quais subsistem apenas vestígios arqueológicos, físicos, «palpáveis», que merecem um lugar na «memória oficial».
A primeira pessoa que contactei, e que convidei, para a tarefa de «reconstruir» a Ópera do Tejo foi Maria Alexandra Gago da Câmara, docente e investigadora com trabalhos publicados sobre os teatros do século XVIII. E da entidade escolhida para «parceira tecnológica», a Associação Recreativa para a Computação e Informática, vieram os restantes elementos da equipa: Silvana Moreira e Luís Sequeira. A ARCI desenvolve a sua actividade com base – preferencial – na plataforma Second Life, mais uma iniciativa de vanguarda tecnológica - e filosófica? - de origem norte-americana.
Hoje, 1 de Novembro de 2005, passam 250 anos sobre a destruição, pelo Terramoto de Lisboa, do Teatro Real do Paço da Ribeira, ou Ópera do Tejo.
A que então era considerada a maior e a melhor «casa da música» da Europa foi erigida por iniciativa do Rei D. José. O monarca continuava assim a tradição, iniciada pelo seu pai e antecessor, D. João V, e prosseguida pela sua filha e sucessora, D. Maria I, de alto patrocínio, por parte da Casa Real portuguesa, à arte da música. Em consequência dessa autêntica política de «mecenato cultural», muitos músicos estrangeiros, em especial italianos, foram convidados a vir e mesmo a residir no nosso país, para tocarem, ensinarem e comporem. Como seria de prever, depressa se sentiu a necessidade de construir um edifício que não só corporizasse, desse forma concreta, a esta atitude, a esta estratégia para com a arte em geral e para com a música em particular, mas que também simbolizasse a benevolência, o bom gosto e a magnificência dos soberanos. Curiosamente, foi também a um italiano que se encomendou, em 1752, o projecto do teatro: Giovanni Carlo Bibiena, filho de outro famoso arquitecto, Francisco Bibiena. A construção terá sido dirigida por João Frederico Ludovice, que já trabalhara no Convento de Mafra. Todos os documentos existentes sobre o edifício – textos descritivos, testemunhos de nacionais e de estrangeiros, plantas (projectos) e desenhos tanto de antes como de depois (do terramoto) – coincidem no salientar da sua imponência e sumptuosidade, no realçar da sua superioridade tanto estética como técnica em comparação com tudo o que se havia feito no género até aí. A estreia decorreu ao som da ópera de David Perez «Alessandro nell’Indie», cuja encenação requeria, a dado momento, a presença simultânea de 25 cavalos no palco! Mas não era só este o único sector do teatro com dimensões desmesuradas: a plateia teria seiscentos lugares e haveria três ou quatro ordens de camarotes, cada uma delas com oito; existiria uma extensa área de apoio sob o palco, com camarins, oficinas e escadas para a entrada e saída dos artistas e para o acesso aos outros pisos e zonas. A Ópera do Tejo seguia o modelo de uma edificação dita de «três volumes» - palco, plateia e átrio – e todos os que nela entravam podiam admirar as «esplêndidas decorações» em que sobressaíam as cores branca e dourada. O Teatro de S. Carlos, aberto em 1793, viria a revelar-se, face ao seu ilustre antecessor, um edifício menor... em tamanho e em luxo.
Porquê um projecto como este? O seu interesse e, logo, a sua justificação, podem ser encontrados na própria história deste teatro e no período durante o qual ele, por «poucos instantes», existiu. Trata-se, no fundo, de resgatar ao esquecimento quase geral – quantos de nós sabiam que este edifício tinha existido? – (mais) uma prova irrefutável de que no passado os portugueses também alcançaram elevados patamares de excelência artística (artes como as entendemos hoje e «artes» enquanto ofícios), em que se colocaram ao nível, e mesmo acima, do que se fazia na Europa e no Mundo. Enfim, está em causa (re)colocar a Ópera do Tejo entre o inventário do património arquitectónico histórico português: não devem ser só as construções que permanecem (mais ou menos) inteiras e aquelas das quais subsistem apenas vestígios arqueológicos, físicos, «palpáveis», que merecem um lugar na «memória oficial».
A primeira pessoa que contactei, e que convidei, para a tarefa de «reconstruir» a Ópera do Tejo foi Maria Alexandra Gago da Câmara, docente e investigadora com trabalhos publicados sobre os teatros do século XVIII. E da entidade escolhida para «parceira tecnológica», a Associação Recreativa para a Computação e Informática, vieram os restantes elementos da equipa: Silvana Moreira e Luís Sequeira. A ARCI desenvolve a sua actividade com base – preferencial – na plataforma Second Life, mais uma iniciativa de vanguarda tecnológica - e filosófica? - de origem norte-americana.
Hoje, 1 de Novembro de 2005, passam 250 anos sobre a destruição, pelo Terramoto de Lisboa, do Teatro Real do Paço da Ribeira, ou Ópera do Tejo.
Obras: "Enterrar os mortos, cuidar dos vivos"
Quando a guerra destruiu tudo o que temos,
quando a fome e a doença começam a nos enfraquecer,
quando a paz está longe de ser conquistada...
Que fazer? Que fazer?
Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.
Quando perdemos as pessoas que amávamos,
quando já não há mais ninguém a quem recorrer,
quando a solidão é a nossa única companhia...
Que fazer? Que fazer?
Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.
Quando não temos vontade nem coragem,
quando o amor é impossível de obter,
quando a felicidade parece perdida para sempre...
Que fazer? Que fazer?
Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.
Quando a existência é monótona e cinzenta,
quando o último sonho acabou de se desvanecer,
quando não resta outra saída senão o suicídio...
Que fazer? Que fazer?
Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.
Hoje, 1 de Novembro de 2005, passam 250 anos sobre o Terramoto de Lisboa... que, é preciso nunca esquecê-lo, também se fez sentir em outros pontos de Portugal.
Poema (Nº 162) escrito em 1987 e incluído no meu livro «Alma Portuguesa».
quando a fome e a doença começam a nos enfraquecer,
quando a paz está longe de ser conquistada...
Que fazer? Que fazer?
Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.
Quando perdemos as pessoas que amávamos,
quando já não há mais ninguém a quem recorrer,
quando a solidão é a nossa única companhia...
Que fazer? Que fazer?
Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.
Quando não temos vontade nem coragem,
quando o amor é impossível de obter,
quando a felicidade parece perdida para sempre...
Que fazer? Que fazer?
Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.
Quando a existência é monótona e cinzenta,
quando o último sonho acabou de se desvanecer,
quando não resta outra saída senão o suicídio...
Que fazer? Que fazer?
Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.
Hoje, 1 de Novembro de 2005, passam 250 anos sobre o Terramoto de Lisboa... que, é preciso nunca esquecê-lo, também se fez sentir em outros pontos de Portugal.
Poema (Nº 162) escrito em 1987 e incluído no meu livro «Alma Portuguesa».
sábado, outubro 22, 2005
Oráculo: Ópera do Tejo «reabre» a 3 de Novembro
Hoje, 22 Outubro de 2005, a edição Nº 1721 do jornal Expresso traz, no seu caderno Actual, um suplemento de 24 páginas (e, no seu caderno principal, dois textos na página 19) sobre a passagem, no próximo dia 1 de Novembro, dos 250 anos do Terramoto de Lisboa. E entre as muitas iniciativas previstas para assinalar essa efeméride que ali são referidas, uma há que, mais do que a minha participação, recebeu de mim o impulso inicial – é uma ideia, um projecto, que tive aquando da preparação do meu livro «Espíritos das Luzes»: a reconstituição virtual em computação gráfica de um dos mais extraordinários edifícios que já existiram em Portugal, e que, tal como outros, foi destruído por aquele grande cataclismo – o Teatro Real do Paço da Ribeira, ou, como ficou mais conhecido, a Ópera do Tejo.
A primeira apresentação desse trabalho de «reconstrução» vai ter lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no próximo dia 3 de Novembro, no segundo dia do colóquio internacional «O Grande Terramoto de Lisboa: Ficar Diferente», organizado pelo Centro de Estudos Comparatistas em colaboração com a FLUL e a Fundação Cidade de Lisboa. «A Nostalgia de um Património Desaparecido: Uma Obra Emblemática de Encomenda Régia na Lisboa do XVIII - A Real Ópera do Tejo» é o título da comunicação» é o título da comunicação que será lida por Alexandra Câmara. Especialista, docente e investigadora, historiadora da arte com obra publicada sobre os teatros em Portugal no século XVIII, ela será como que a «porta-voz» do grupo de trabalho que eu integro, e que conta ainda com Luís Sequeira e Silvana Moreira, da Associação Recreativa para a Computação e Informática, que procederam, com base nos materiais disponíveis, à modelação tridimensional do desaparecido teatro; e porque os testemunhos conhecidos que ficaram desse notável edifício não são muitos, a obra exibida será não uma reprodução rigorosa mas sim uma evocação que se pretende o mais aproximada possível.
A nossa equipa e o nosso trabalho estarão em foco, além de na imprensa, também na rádio e na televisão: a 27 de Outubro é emitida na TSF uma entrevista a Alexandra Câmara, uma entre várias feitas a diversas personalidades que abordam a grande tragédia do Dia de Todos os Santos de 1755; e em Dezembro, em dia a anunciar, o programa «Entre Nós», da responsabilidade da Universidade Aberta e transmitido na RTP 2, será inteiramente dedicado a... nós.
A primeira apresentação desse trabalho de «reconstrução» vai ter lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no próximo dia 3 de Novembro, no segundo dia do colóquio internacional «O Grande Terramoto de Lisboa: Ficar Diferente», organizado pelo Centro de Estudos Comparatistas em colaboração com a FLUL e a Fundação Cidade de Lisboa. «A Nostalgia de um Património Desaparecido: Uma Obra Emblemática de Encomenda Régia na Lisboa do XVIII - A Real Ópera do Tejo» é o título da comunicação» é o título da comunicação que será lida por Alexandra Câmara. Especialista, docente e investigadora, historiadora da arte com obra publicada sobre os teatros em Portugal no século XVIII, ela será como que a «porta-voz» do grupo de trabalho que eu integro, e que conta ainda com Luís Sequeira e Silvana Moreira, da Associação Recreativa para a Computação e Informática, que procederam, com base nos materiais disponíveis, à modelação tridimensional do desaparecido teatro; e porque os testemunhos conhecidos que ficaram desse notável edifício não são muitos, a obra exibida será não uma reprodução rigorosa mas sim uma evocação que se pretende o mais aproximada possível.
A nossa equipa e o nosso trabalho estarão em foco, além de na imprensa, também na rádio e na televisão: a 27 de Outubro é emitida na TSF uma entrevista a Alexandra Câmara, uma entre várias feitas a diversas personalidades que abordam a grande tragédia do Dia de Todos os Santos de 1755; e em Dezembro, em dia a anunciar, o programa «Entre Nós», da responsabilidade da Universidade Aberta e transmitido na RTP 2, será inteiramente dedicado a... nós.
terça-feira, outubro 11, 2005
Orientação: Mais um artigo no Notícias de Alverca
A edição Nº 213 do jornal Notícias de Alverca, publicada hoje, 11 de Outubro de 2005, e disponível até 4 de Novembro, inclui, na sua página 6, o meu artigo «A fábrica foi um sonho». Comprem e leiam!
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