domingo, novembro 27, 2005

Obrigado: Aos que compareceram hoje

Exprimo aqui o meu agradecimento – depois de já o ter feito pessoalmente e no local – ao meu irmão Pedro dos Santos, e aos meus amigos Sérgio Sousa Rodrigues, Céu Dias e Emanuel Rosa, por terem comparecido hoje à cerimónia de apresentação da minha obra «Visões», em formato áudio-livro, na loja FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Oráculo: «Visões» é relançado em Lisboa e no Porto

A minha obra «Visões», agora em formato de áudio-livro (disco) editado pela Solutions by Heart, vai ser apresentada: no próximo dia 27 de Novembro, às 12.30 horas, na loja FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa; e no próximo dia 4 de Dezembro, às 17 horas, na loja FNAC de Santa Catarina, no Porto.
Tal como anunciei no passado dia 7 de Julho, o trabalho que constituiu, em Novembro de 2003, a minha estreia literária... em papel, veio a tornar-se, posteriormente e devidamente adaptado (este primeiro volume inclui apenas cinco dos 25 contos presentes na edição original – “Mãe”, “Jovem executivo de sucesso”, “Aniversário”, “Caminhos de ferro” e “A fronteira”), num dos primeiros produtos de uma nova empresa – juntamente com «O Islão Segundo um Ocidental», do meu amigo Sérgio Sousa Rodrigues (S. Franclim), e de «Contos» de Hans Christian Andersen (este em dois volumes).
Estas obras vão estar disponíveis, numa primeira fase, e a partir de dia 14: nas lojas FNAC; e nos postos da GALP do Aeroporto de Lisboa, Águas Santas (perto do Porto), Alcácer do Sal, Aveiras e Oeiras.
Para mais informações, aconselho o acesso, em primeiro lugar, ao sítio da SbH. Depois, à página do «Visões» no sítio da SbH. A seguir, à página do «Visões» no sítio da FNAC. E a Simetria faz também referência a este relançamento.

sábado, novembro 05, 2005

Opinião: A fábrica foi um sonho

Ao lado do bairro onde resido existiu, até 2002, uma das mais importantes – porque das mais antigas e das que mais pessoas empregou - empresas do concelho: a Pentealã, ou Empresa Nacional de Penteação de Lãs de Alhandra, ou, como era mais conhecida, a Fábrica da Figueira.
Com o passar do tempo vieram as dificuldades financeiras e a falência. O espaço foi vendido e todos os edifícios derrubados, juntamente com algumas árvores centenárias e uma alta chaminé onde cegonhas faziam ninhos. Objectivo dos novos proprietários: a construção de... armazéns com escritórios.
Porém, nesta vasta área não existem (no momento em que escrevo) armazéns com escritórios mas sim muito entulho e muita vegetação; tanta que receei consequências graves quando detectei, num dia do último Verão, um foco de incêndio do qual logo avisei os bombeiros. É de supor que burocracias e a crise económica – afinal, este é um segmento de mercado onde, também neste concelho, a oferta é elevada - têm atrasado o início das obras.
A Câmara Municipal de Vila Franca de Xira não deveria ter autorizado a destruição da fábrica. Ela era um património importante que merecia ser preservado e reconvertido. Durante as férias visitei a Fábrica do Inglês, em Silves, lembrei-me da Fábrica da Pólvora, em Oeiras, e imaginei o que a Fábrica da Figueira podia ter sido: um local para a cultura, o trabalho e o lazer; um legado modernizado.
Uma futilidade, claro: nesta terra nem os sonhos feitos de tijolos têm, por isso, mais hipóteses de se tornarem realidade.

Artigo publicado no jornal Notícias de Alverca, Nº 213, 2005/10.

terça-feira, novembro 01, 2005

Object(iv)o: Ópera do Tejo revisitada

Em 2004, e certamente sob a influência da experiência que adquirira enquanto jornalista especializado em factos e figuras ligadas às tecnologias de informação e comunicação, estabeleci os primeiros contactos com vista à constituição de um grupo de trabalho, de uma equipa multidisciplinar, que, utilizando, se possível, os mais avançados sistemas e ferramentas de computação gráfica, procedesse, mais do que à reconstituição virtual (modelação e animação de exteriores e interiores), quase a uma autêntica «ressurreição» de um edifício desaparecido a 1 de Novembro de 1755 e que fora inaugurado... a 2 de Abril desse mesmo ano! Qual? O Teatro Real do Paço da Ribeira... que ficaria conhecido por Ópera do Tejo por, claro, ficar situado junto ao rio, no espaço entre os actuais Praça do Comércio e Cais do Sodré, mais ou menos onde está hoje o Arsenal da Marinha.
A que então era considerada a maior e a melhor «casa da música» da Europa foi erigida por iniciativa do Rei D. José. O monarca continuava assim a tradição, iniciada pelo seu pai e antecessor, D. João V, e prosseguida pela sua filha e sucessora, D. Maria I, de alto patrocínio, por parte da Casa Real portuguesa, à arte da música. Em consequência dessa autêntica política de «mecenato cultural», muitos músicos estrangeiros, em especial italianos, foram convidados a vir e mesmo a residir no nosso país, para tocarem, ensinarem e comporem. Como seria de prever, depressa se sentiu a necessidade de construir um edifício que não só corporizasse, desse forma concreta, a esta atitude, a esta estratégia para com a arte em geral e para com a música em particular, mas que também simbolizasse a benevolência, o bom gosto e a magnificência dos soberanos. Curiosamente, foi também a um italiano que se encomendou, em 1752, o projecto do teatro: Giovanni Carlo Bibiena, filho de outro famoso arquitecto, Francisco Bibiena. A construção terá sido dirigida por João Frederico Ludovice, que já trabalhara no Convento de Mafra. Todos os documentos existentes sobre o edifício – textos descritivos, testemunhos de nacionais e de estrangeiros, plantas (projectos) e desenhos tanto de antes como de depois (do terramoto) – coincidem no salientar da sua imponência e sumptuosidade, no realçar da sua superioridade tanto estética como técnica em comparação com tudo o que se havia feito no género até aí. A estreia decorreu ao som da ópera de David Perez «Alessandro nell’Indie», cuja encenação requeria, a dado momento, a presença simultânea de 25 cavalos no palco! Mas não era só este o único sector do teatro com dimensões desmesuradas: a plateia teria seiscentos lugares e haveria três ou quatro ordens de camarotes, cada uma delas com oito; existiria uma extensa área de apoio sob o palco, com camarins, oficinas e escadas para a entrada e saída dos artistas e para o acesso aos outros pisos e zonas. A Ópera do Tejo seguia o modelo de uma edificação dita de «três volumes» - palco, plateia e átrio – e todos os que nela entravam podiam admirar as «esplêndidas decorações» em que sobressaíam as cores branca e dourada. O Teatro de S. Carlos, aberto em 1793, viria a revelar-se, face ao seu ilustre antecessor, um edifício menor... em tamanho e em luxo.
Porquê um projecto como este? O seu interesse e, logo, a sua justificação, podem ser encontrados na própria história deste teatro e no período durante o qual ele, por «poucos instantes», existiu. Trata-se, no fundo, de resgatar ao esquecimento quase geral – quantos de nós sabiam que este edifício tinha existido? – (mais) uma prova irrefutável de que no passado os portugueses também alcançaram elevados patamares de excelência artística (artes como as entendemos hoje e «artes» enquanto ofícios), em que se colocaram ao nível, e mesmo acima, do que se fazia na Europa e no Mundo. Enfim, está em causa (re)colocar a Ópera do Tejo entre o inventário do património arquitectónico histórico português: não devem ser só as construções que permanecem (mais ou menos) inteiras e aquelas das quais subsistem apenas vestígios arqueológicos, físicos, «palpáveis», que merecem um lugar na «memória oficial».
A primeira pessoa que contactei, e que convidei, para a tarefa de «reconstruir» a Ópera do Tejo foi Maria Alexandra Gago da Câmara, docente e investigadora com trabalhos publicados sobre os teatros do século XVIII. E da entidade escolhida para «parceira tecnológica», a Associação Recreativa para a Computação e Informática, vieram os restantes elementos da equipa: Silvana Moreira e Luís Sequeira. A ARCI desenvolve a sua actividade com base – preferencial – na plataforma Second Life, mais uma iniciativa de vanguarda tecnológica - e filosófica? - de origem norte-americana.

Hoje, 1 de Novembro de 2005, passam 250 anos sobre a destruição, pelo Terramoto de Lisboa, do Teatro Real do Paço da Ribeira, ou Ópera do Tejo.

Obras: "Enterrar os mortos, cuidar dos vivos"

Quando a guerra destruiu tudo o que temos,
quando a fome e a doença começam a nos enfraquecer,
quando a paz está longe de ser conquistada...
Que fazer? Que fazer?

Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.

Quando perdemos as pessoas que amávamos,
quando já não há mais ninguém a quem recorrer,
quando a solidão é a nossa única companhia...
Que fazer? Que fazer?

Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.

Quando não temos vontade nem coragem,
quando o amor é impossível de obter,
quando a felicidade parece perdida para sempre...
Que fazer? Que fazer?

Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.

Quando a existência é monótona e cinzenta,
quando o último sonho acabou de se desvanecer,
quando não resta outra saída senão o suicídio...
Que fazer? Que fazer?

Enterrar os mortos, cuidar dos vivos,
fechar os portos, abrir a esperança.
Estar pronto para aceitar a mudança,
lembrar que podemos sempre escolher.


Hoje, 1 de Novembro de 2005, passam 250 anos sobre o Terramoto de Lisboa... que, é preciso nunca esquecê-lo, também se fez sentir em outros pontos de Portugal.

Poema (Nº 162) escrito em 1987 e incluído no meu livro «Alma Portuguesa».

sábado, outubro 22, 2005

Oráculo: Ópera do Tejo «reabre» a 3 de Novembro

Hoje, 22 Outubro de 2005, a edição Nº 1721 do jornal Expresso traz, no seu caderno Actual, um suplemento de 24 páginas (e, no seu caderno principal, dois textos na página 19) sobre a passagem, no próximo dia 1 de Novembro, dos 250 anos do Terramoto de Lisboa. E entre as muitas iniciativas previstas para assinalar essa efeméride que ali são referidas, uma há que, mais do que a minha participação, recebeu de mim o impulso inicial – é uma ideia, um projecto, que tive aquando da preparação do meu livro «Espíritos das Luzes»: a reconstituição virtual em computação gráfica de um dos mais extraordinários edifícios que já existiram em Portugal, e que, tal como outros, foi destruído por aquele grande cataclismo – o Teatro Real do Paço da Ribeira, ou, como ficou mais conhecido, a Ópera do Tejo.
A primeira apresentação desse trabalho de «reconstrução» vai ter lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no próximo dia 3 de Novembro, no segundo dia do colóquio internacional «O Grande Terramoto de Lisboa: Ficar Diferente», organizado pelo Centro de Estudos Comparatistas em colaboração com a FLUL e a Fundação Cidade de Lisboa. «A Nostalgia de um Património Desaparecido: Uma Obra Emblemática de Encomenda Régia na Lisboa do XVIII - A Real Ópera do Tejo» é o título da comunicação» é o título da comunicação que será lida por Alexandra Câmara. Especialista, docente e investigadora, historiadora da arte com obra publicada sobre os teatros em Portugal no século XVIII, ela será como que a «porta-voz» do grupo de trabalho que eu integro, e que conta ainda com Luís Sequeira e Silvana Moreira, da Associação Recreativa para a Computação e Informática, que procederam, com base nos materiais disponíveis, à modelação tridimensional do desaparecido teatro; e porque os testemunhos conhecidos que ficaram desse notável edifício não são muitos, a obra exibida será não uma reprodução rigorosa mas sim uma evocação que se pretende o mais aproximada possível.
A nossa equipa e o nosso trabalho estarão em foco, além de na imprensa, também na rádio e na televisão: a 27 de Outubro é emitida na TSF uma entrevista a Alexandra Câmara, uma entre várias feitas a diversas personalidades que abordam a grande tragédia do Dia de Todos os Santos de 1755; e em Dezembro, em dia a anunciar, o programa «Entre Nós», da responsabilidade da Universidade Aberta e transmitido na RTP 2, será inteiramente dedicado a... nós.

terça-feira, outubro 11, 2005

Orientação: Mais um artigo no Notícias de Alverca

A edição Nº 213 do jornal Notícias de Alverca, publicada hoje, 11 de Outubro de 2005, e disponível até 4 de Novembro, inclui, na sua página 6, o meu artigo «A fábrica foi um sonho». Comprem e leiam!

quarta-feira, outubro 05, 2005

Opinião: Datas marcadas

Em Portugal há dias feriados correspondentes a datas históricas que foram sendo completamente adulterados e pervertidos no seu significado.
No 1º de Dezembro é mais celebrada a luta contra a Sida do que a restauração da independência - o que, provavelmente, até convém para alguns, que preferem não «ofender» os «nuestros hermanos» e vizinhos espanhóis, eles que dominam cada vez mais a nossa economia, além de não nos devolverem Olivença… Honra seja feita, porém, ao Grupo de Amigos de Olivença, essa agremiação de valorosos patriotas que em 2001, contra a maré do conformismo derrotista, a indiferença e por vezes até a chacota dos que não «mexem uma palha» para defender a dignidade do seu país (mas que, pelos cargos que ocupam, deviam mexer), conquistaram, em tribunal, uma importante vitória, impedindo que a ponte velha daquela cidade portuguesa ocupada fosse «cedida» a Espanha - pelo (des)Governo português de então - para «restauro»…
25 de Abril? Um momento decisivo da nossa história recente que, de tão mal assinalado, parece hoje mais distante do que é. E o 10 de Junho? Justifica-se que o «dia nacional» seja o aniversário de uma morte (a do seu maior poeta, é verdade, mas, mesmo assim…) que coincide também com a perda da independência do país? Completamente desacreditada, esta data tem nas suas comemorações apenas um pretexto para se distribuírem algumas condecorações.
O 14 de Agosto não é feriado, mas provavelmente devia ser. Neste dia, em 1385, aconteceu a Batalha de Aljubarrota, que assegurou - pelo menos até 1580 - a independência de Portugal. Em 2001 não houve comemorações… porque o Exército não dispunha de dinheiro para as fazer. No entanto, mesmo que tivesse, seria difícil de concretizar algo de condigno, porque o campo onde ocorreu o glorioso recontro está hoje quase todo urbanizado… Esta data não deixou de ser, todavia, devidamente e duplamente «festejada» nesse ano: com a derrota por 0-2, em Setúbal, da selecção nacional de futebol de sub-21 face à sua congénere espanhola; e pela vitória de mais um ciclista do país vizinho na etapa daquele dia da Volta a Portugal em Bicicleta.
É no 5 de Outubro, contudo, que a mistificação é mais escandalosa. Neste dia, muito mais do que a implantação da República em 1910, deveria comemorar-se o reconhecimento da independência - a assinatura do Tratado de Zamora - em 1143. Não são muitos os portugueses que sabem deste acontecimento, e a entrega nas escolas, em 2000, do chamado «kit patriótico», foi mais um contributo dos republicanos para a continuação, e até para o aumento, dessa ignorância. O pressuposto - isto é, a mentira - central dessa (tentativa de) lavagem cerebral nacional foi que a História de Portugal só começou, verdadeiramente, com a República.
A minha filha mais velha, que frequentava então o primeiro ano do ciclo básico, foi uma das muitas crianças que, quais potenciais criminosas, receberam nas suas escolas a «visita» da Guarda Nacional... Republicana para aprenderem «a identidade, os valores e os símbolos nacionais.» À noite, eu, como pai responsável que tento ser, expliquei-lhe que a Pátria é muito grande, não cabe numa caixa, não se reduz a alguns autocolantes, brochuras e discos, já teve outros hinos e bandeiras, e tem uma história muito antiga, em que aconteceram muitas coisas, umas boas, outras menos boas. E houve um rei e um príncipe - um pai e o seu filho - que foram mortos, assassinados, pelos antecedentes dos que hoje nos (des)governam. Na verdade, com a República a nossa história tem sido tudo menos um conto de fadas.
O «kit patriótico» foi uma iniciativa não só anacrónica e ridícula mas também, e principalmente, inútil e hipócrita. Inútil, porque os portugueses, e em especial os jovens, não precisam de caixas para envergarem as cores da bandeira e entoarem os sons do hino. Eles tiveram uma grande oportunidade para tal no Campeonato da Europa de Futebol de 2000 - sim, as grandes jogadas dos nossos rapazes (cada um deles era uma autêntica bandeira!) não foram só um «hino ao futebol» - mas não nos Jogos Olímpicos do mesmo ano (o que, recorde-se, não preocupou António Guterres, que afirmou que as medalhas não eram importantes…) nem no Campeonato do Mundo de Futebol de 2002… Hipócrita, porque partiu de pessoas que se têm notabilizado precisamente por enfraquecerem a coesão nacional, ao permitirem e incentivarem a integração (dissolução?) na União «Soviética» Europeia, onde, entre muitas outras normas absurdas dignas dos melhores planos quinquenais, são fixadas quotas máximas de produção de leite e multas para aqueles que as excederem.
Todos os portugueses, incluindo os mais novos, querem orgulhar-se do seu país. Esta é, porém, uma tarefa cada vez mais difícil, porque ele tem vindo a ser paulatinamente transformado numa grande anedota de mau gosto pelos praticantes da chamada «ética republicana». «Ética» que, comprovou-se definitivamente nos últimos anos, condiciona o interesse nacional e a transparência pública a benefícios duvidosos de grupos obscuros; que tem como «valores» a impunidade, a incompetência e a irresponsabilidade; que tem como lemas o «vale tudo», o «deixa andar» e o «a culpa morre solteira». «Ética republicana» que, enfim, provou ser um terreno fértil para a corrupção. Portugal é um dos países mais corruptos da Europa, e não somos nós que o afirmamos, mas sim diferentes organizações internacionais nos seus relatórios anuais e diversos comentadores nacionais nas suas colunas nos jornais. E comprova-se pelo aumento de detenções criminais e de processos nos tribunais…
Até agora, o crime tem compensado, mas talvez não por muito mais tempo. Farto de «pagar e calar», o povo está quase a perder a paciência. É algo que se ouve, se vê, se sente - e que não desapareceu com as mudanças (?) decorrentes das eleições autárquicas e legislativas. As «gotas» continuam a cair, o «copo» está quase a transbordar, e ainda vamos ver, quem sabe, alguns «vendidos» a serem «atirados» da janela abaixo.

Artigo publicado no jornal Vida Ribatejana, Nº 4225, 2003/4/30.

sábado, outubro 01, 2005

Obras: «Códigos»

O meu livro «Códigos» não é para ser lido mas sim para ser ouvido. É, de certa forma, para ser «oulido».
«Códigos» começou por ser – e ainda é – um passatempo. Uma experiência contínua. Que só se tornou possível com o advento do disco compacto. A digitalização da música, e em especial da sua reprodução, veio permitir – graças à função Program – que qualquer pessoa ouça discos pela ordem que quiser. Com o disco de vinil estávamos «prisioneiros» da sequência decidida pelos artistas e/ou pelas editoras. Agora não. Podemos adaptar cada disco à nossa sensibilidade, aos nossos desejos, à nossa criatividade.
O que está em causa no «reordenamento» das canções não são tanto as músicas mas sim as letras. Desde que comecei a ouvir discos «a sério» sempre prestei muita atenção às lyrics. Eu leio tudo, até a ficha técnica! Já na «era do vinil» pensava frequentemente – e ficava frustrado, porque nada podia fazer quanto a isso – que determinada canção estaria melhor junto a outra, que certa canção deveria abrir o álbum e outra deveria fechá-lo, ou vice-versa. Porquê? Porque, sem dúvida por influência dos livros e dos filmes, fui formando a ideia de que também os discos devem contar uma história com princípio, meio e fim. Por isso, assim que adquiri o meu primeiro leitor de CD’s comecei a procurar o livro que há em cada disco. E cada canção é como um capítulo. Eu sou também um escritor, um contador de histórias, e acredito que as palavras têm – devem ter - sempre primazia sobre a música, por mais bela e poderosa que ela seja. A meu ver, um tema musical totalmente instrumental é um tema desperdiçado. Nenhum som é mais importante, na comunicação, que a voz humana... e esta só se torna relevante e pode alcançar a plenitude quando tem mensagens para transmitir.
Subjectivo? Sem dúvida, muito. Mas, de certa forma, lógico. E atenção: não pretendo afirmar que a leitura que eu faço de cada disco é a única ou a melhor, longe disso! Existem tantas combinações quantas as permitidas pelo número de faixas de cada obra... e quantas as pessoas que estejam dispostas a empreender esta experiência.
No fundo, trata-se de fazer de cada álbum um concept-album. Quem nos diz a nós que cada artista (indivíduo ou grupo) não procurou dizer em cada disco - mesmo que inconscientemente, indirectamente – uma história? Afinal, não é cada álbum um reflexo e/ou um repositório das experiências, dos interesses, das sensações durante um dado período? Preocupados, muito provavelmente, em gerir cada trabalho de acordo com o padrão «tradicional» (alternância entre canções lentas e rápidas, ou entre canções «fortes» e «fracas»), os artistas possivelmente nem se apercebem da linha narrativa que está subjacente ao que fazem.
Que uma coisa fique clara: de maneira nenhuma o conteúdo do meu livro, bem como o método que esteve na sua origem, é um desrespeito aos artistas referidos e às suas obras. Muito pelo contrário. E limitei-me a fazer algo que a tecnologia me permite, mas que não é de certeza ilegal ou imoral como fazer downloads ou samples não autorizados.
Desde 1990 já ouvi, analisei e «codifiquei» mais de 500 discos. Caleidoscópio, não de cores, mas de canções, «Códigos» é menos um ensaio crítico – que também é, embora nada ortodoxo – e mais um «roteiro», um «guia» com sugestões de «viagens», de «percursos» pela música. Abaixo estão indicados dez desses percursos.

Alanis Morissette: Jagged Little Pill
» 4 » 8 « 3 » 12 « 1 » 11 « 7 « 5 « 2 » 13 « 9 » 10 « 6

Bjork: Homogenic
» 6 » 9 « 8 « 7 « 1 » 4 » 5 » 10 « 2 » 3

Cabeças No Ar: Cabeças No Ar
» 8 « 1 » 13 « 12 « 9 « 3 » 11 « 4 » 5 « 2 » 10 » 14 « 7 « 6

Daniela Mercury: Feijão Com Arroz
» 14 « 7 » 10 « 8 « 4 « 2 » 13 « 9 » 11 « 3 » 5 « 1 » 12 « 6 » 15

Nelly Furtado: Folklore
» 3 » 8 « 2 » 9 « 1 » 7 « 4 » 10 » 12 « 6 « 5 » 11

Prince: 1999
» 1 » 5 « 3 » 11 « 6 « 2 » 7 « 4 » 9 » 10 « 8

Queen: Innuendo
» 6 « 3 » 10 « 9 « 2 « 1 » 4 » 8 « 5 » 7 » 12 « 11

Radiohead: OK Computer
» 5 » 10 « 7 » 8 « 6 » 9 « 2 » 12 « 11 « 1 » 4 « 3

Tribalistas: Tribalistas
» 13 « 1 » 12 « 2 » 4 » 7 » 11 « 5 « 3 » 6 » 10 « 9 « 8

U2: The Joshua Tree
» 7 » 8 « 3 » 5 » 6 « 1 » 10 « 4 » 11 « 9 « 2


Hoje, 1 de Outubro de 2005, celebra-se o Dia Mundial da Música.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Organização: «Nautas» registado na IGAC

Entreguei hoje, 23 de Setembro de 2005, na sede da Inspecção-Geral das Actividades Culturais, situada no Palácio Foz, em Lisboa, o requerimento de registo de direito de autor - que deu entrada sob o número 6859/05 - sobre mais uma obra: «Nautas – Fragmentos da Construção da Sociedade da Informação em Portugal» é um livro que reúne aqueles que eu considero serem os melhores e/ou os mais importantes textos jornalísticos escritos por mim durante cerca de seis anos, mais concretamente entre 1997 e 2003.
Nesse período, ao serviço das revistas Cyber.Net, Interface e Comunicações, tive a oportunidade e o privilégio de observar de perto a evolução do sector das tecnologias de informação, média e telecomunicações no nosso país, de testemunhar a construção da Sociedade da Informação em Portugal. Esse trabalho não deve ter sido inteiramente irrelevante, porque, em representação daquelas três publicações, fui distinguido - com, respectivamente, um primeiro lugar absoluto, uma menção honrosa e um co-primeiro lugar ex-aequo - em três anos consecutivos pelo Prémio de Jornalismo Sociedade da Informação, atribuído pelo anterior Ministério da Ciência e da Tecnologia.
Os três artigos premiados – intitulados «A cartilha virtual», «A vida em sociedade» e «No país dos comerci@ntes» (escrito com o meu amigo e então colega João Paulo Aires) - estão, obviamente, presentes neste livro. Que está subdividido em nove capítulos: 1) Digitalizar Portugal - Principais tarefas e projectos da Sociedade da Informação nacional; 2) Buro(ti)cracia - Planos e acções de modernização da Administração Pública; 3) O info-inimigo - À procura de soluções para o problema do ano 2000; 4) Escolas com virtualidades - Aprofundar a educação, a formação e a integração; 5) E-Uropa - Políticas da União Europeia para as tecnologias da informação e comunicação; 6) Telefones sem «fios» - Liberalização ou libertação nas telecomunicações?; 7) Empresas em linha - Comércio electrónico e economia digital; 8) Formas (d)e conteúdos - Evolução e desenvolvimento da imprensa, audiovisual e multimédia; 9) Ciber-nacionalidade - Construindo ligações electrónicas em português.
Mais do que as características e as capacidades das máquinas, o que sempre me interessou são as ideias e as iniciativas dos indivíduos e das instituições. «Nautas – Fragmentos da Construção da Sociedade da Informação em Portugal» é por isso uma obra que procura identificar as principais questões, dúvidas, soluções e polémicas que a modernização tecnológica do país tem suscitado. Esta é, enfim, uma obra que apesar de ser abrangente, não pretende ser completa ou exaustiva; seria difícil, se não impossível, alguma neste género sê-lo. Quer, isso sim, assumir-se como uma referência relevante, como um contributo, necessariamente modesto, para o registo, análise e compreensão de um processo indispensável e indissociavelmente ligado ao desenvolvimento – técnico, económico, social, cultural - de Portugal.
«Nautas – Fragmentos da Construção da Sociedade da Informação em Portugal» espera, agora, uma editora que se disponha a publicá-lo e a promovê-lo.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Opinião: Em quem votar?

No dia 9 de Outubro de 2005 realizam-se, mais uma vez, eleições autárquicas em Portugal. E aos que ainda têm dúvidas – e também, já agora, aos que não têm - sobre em quem devem votar para Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, permito-me sugerir três critérios que poderão ajudar a uma decisão definitiva. Assim, e na minha opinião, o candidato ideal seria aquele que, em especial, e entre outros aspectos:
1 – Rejeitasse definitivamente o crescimento urbanístico como principal factor de «desenvolvimento» do concelho e recusasse claramente ser um(a) «pau-mandado(a)» dos construtores civis, nomeadamente de Eduardo Rodrigues e da Obriverca;
2 – Reconhecesse que Vila Franca de Xira não é a cidade mais importante do município, e, mesmo que não defendesse a restauração do concelho de Alverca, preconizasse a valorização institucional, económica e cultural daquela e também da Póvoa, de Vialonga e de Alhandra;
3 – Repudiasse a «festa brava» enquanto elemento fundamental da identidade do concelho e não prestasse a habitual «vassalagem» aos seus aficcionados, tanto antes como depois da votação.
Sei que é muito difícil que, entre os candidatos já conhecidos, exista um que reuna estas condições, ou qualidades. E sei que ainda mais difícil, ou mesmo impossível, seria que, existindo um, conseguisse vencer as eleições. Porém, há que tentar... e não há que desanimar. Se não for desta, quem sabe se será para a próxima? Afinal, quem aguentou quase 30 anos de incompetência pode muito bem aguentar mais quatro...

domingo, agosto 28, 2005

Ordenação: 20 filmes...

... Inesquecíveis. Que me impressiona(ra)m. Que me marca(ra)m. Que me influencia(ra)m. Mas atenção: esta lista não é necessariamente definitiva... embora esteja muito perto de o ser.

«The Crowd» (1928), de King Vidor

«A Canção de Lisboa» (1933), de Cottinelli Telmo

«The Great Dictator» (1940), de Charles Chaplin

«O Pátio das Cantigas» (1942), de Francisco Ribeiro

«It’s a Wonderful Life» (1946), de Frank Capra

«North by Northwest» (1959), de Alfred Hitchcock

«Ben-Hur» (1959), de William Wyler

«The Sound of Music» (1965), de Robert Wise

«2001: A Space Odyssey» (1968), de Stanley Kubrick

«Roma» (1972), de Federico Fellini

«O Rei das Berlengas» (1978), de Artur Semedo

«Apocalypse Now» (1979), de Francis Ford Coppola

«Excalibur» (1981), de John Boorman

«Raiders of the Lost Ark» (1981), de Steven Spielberg

«Blade Runner» (1982), de Ridley Scott

«Aliens» (1986), de James Cameron

«Empire of the Sun» (1987), de Steven Spielberg

«The Abyss» (1989), de James Cameron

«Terminator 2: Judgement Day» (1991), de James Cameron

«Titanic» (1997), de James Cameron

domingo, agosto 14, 2005

Opinião: A Monarquia está viva!

Portugal (sobre)vive há 90 anos sob um regime que, embora tendo já conhecido três «versões», não tem, nunca teve e nunca terá uma verdadeira legitimidade histórica. Não apenas por ter sido instaurado através de um golpe de Estado de um movimento minoritário, e por não ter sido posteriormente referendado e ratificado. A república não tem a legitimidade da Monarquia porque foi com esta que o país nasceu e cresceu.
É à Monarquia que Portugal deve a sua identidade cultural, a sua unidade enquanto nação, e também as páginas mais gloriosas da sua história. Tudo o que Portugal conseguiu de notável em mais de 800 anos, em especial os Descobrimentos, que os republicanos tanto gostam de comemorar, se deve a reis como D. Afonso Henriques, D. Dinis e D. João II, que, mais do que representantes máximos de um regime, foram verdadeiros líderes, autênticos chefes de Estado, que concebiam e dirigiam na prática, todos os dias, os grandes projectos nacionais.
Os republicanos costumam apresentar, como argumento a seu favor, o facto de qualquer pessoa poder ser presidente... desde que tenha mais de 35 anos. Isso constitui precisamente a maior desvantagem, porque é óbvio que não é qualquer pessoa que pode ser o chefe de Estado. Além de que, no contexto da União Europeia, um país é mais facilmente «federalizável» se for uma república: por mais inteligente, influente e importante que seja, um presidente da república é sempre uma espécie de funcionário público, embora de nível superior. Um Rei e uma Rainha, pelo contrário, estão sempre acima, e fora, de uma lógica «administrativista». Um Rei e uma Rainha não são «burocratizáveis».
A Monarquia permite, se for bem estruturada e dirigida, que os futuros chefes de Estado recebam, desde muito cedo, a melhor educação possível, de modo a que o Rei e/ou a Rainha possa vir a constituir um elemento de coesão, de equilíbrio, mas também de motivação, de dinamismo. Portugal precisa de um(a) monarca porque os problemas deste país são, mais do que políticos ou económicos, psicológicos e culturais. O poder real é essencialmente simbólico, mas tal não significa abstracto ou inútil: é concreto e relevante. O regime monárquico é o que reúne as melhores condições para dar definitivamente a Portugal um novo ânimo, uma nova confiança, uma nova esperança, enfim, uma nova alma. É o único que pode recuperar e completar a herança de um passado histórico, ligando-a com o presente e projectando-a para o futuro. E a Monarquia só terá a ganhar se for laica, baseada numa nobreza constituída principalmente sobre o valor das palavras e dos actos das pessoas que a ela aspiram, e não só em títulos nobiliárquicos.
Quanto mais não seja pelo nascimento dos filhos dos Duques de Bragança, este é o momento ideal para todos os monárquicos se assumirem e movimentarem no sentido de conseguirem a realização de um referendo. Há que desafiar os republicanos, e estes só terão a perder se recusarem, porque revelarão ter medo de que, ao contrário do que apregoam, a maioria dos portugueses não apoie a república. A Monarquia deve ser restaurada e exercida democraticamente, e de preferência pacificamente. Todavia, e porque a história de Portugal deste século foi a que foi, os monárquicos teriam toda a legitimidade para, se quisessem, derrubar a república pela força das armas, reunindo os seus partidários, tomando os principais órgãos de poder e ocupando os principais centros de influência.
Mas os monárquicos não precisam de fazer isso, embora em consciência o pudessem. Tal como nunca seriam capazes, estamos certos, de assassinar o presidente da república e o seu filho.

Hoje, 14 de Agosto de 2005, passam 620 (600+20) anos sobre a Batalha de Aljubarrota.

Artigo publicado no jornal Semanário, Nº 892, 2000/12/22.

sábado, agosto 06, 2005

Obras: "O último samurai"

Contemplando o sol nascente num jardim de lótus está o último samurai.
Ele é o último sobrevivente de uma honrada tradição de gloriosos guerreiros
mas agora soam já muito distantes os ecos dos gritos de banzai.

Ele continuou a lutar durante décadas após a guerra estar terminada.
E apesar de ter sido obrigado a depor as armas
no seu espírito a sede de combater nunca foi saciada.

Ainda colocou o lenço branco na cabeça e ofereceu-se como kamikaze.
Mas do céu outro vento divino primeiro soprou,
lançando sobre as ilhas do império uma horrível tempestade.

Com o imperador morto ele sabe que o seu tempo também findou.
Depois de uma taça de saké ele está pronto para o seppuku,
e despede-se de uma época a que não pertence e que nunca o respeitou.

Ele quis que guardassem as suas cinzas num templo do sagrado monte Fuji.
Contra a sua vontade a electrónica profanou a cerimónia
e a sua alma foi evocada num ecrã de televisão e não num palco do Kabuki.


Hoje, 6 de Agosto de 2005, passam 60 anos sobre o lançamento da bomba atómica em Hiroshima.

Poema (Nº 241) escrito em 1991 e incluído no meu livro «Museu da História».

sábado, julho 09, 2005

Opinião: Um desejo chamado Tejo

Não é o único do país em que tal acontece, mas o concelho de Vila Franca de Xira é marcado por um paradoxo: dispõe de diversas vias de comunicação que o atravessam mas que acabam por ser, também, autênticas barreiras. A A1, a EN 10 e a Linha (ferroviária) do Norte, apesar dos benefícios, óbvios, em acessibilidade e mobilidade que proporcionam, têm constituído igualmente sérios constrangimentos à organização e gestão do território.
Porém, existem outras barreiras, mais recentes, que se têm revelado, literalmente, verdadeiras paredes que impedem, indirecta ou mesmo directamente, o aumento da qualidade de vida deste município: os sucessivos - e excessivos - empreendimentos urbanísticos, promovidos invariavelmente pela mesma entidade com a conivência dos órgãos autárquicos, e dos quais tem resultado, basicamente, o congestionamento do seu espaço e a destruição da sua fisionomia.
Existe uma freguesia que, até agora, e felizmente, se tem mantido à margem deste pseudo-progresso: Alhandra. Tal deve-se em muito ao facto de ser a única a ficar situada «para lá» dos carris... e, também por isso, a única a poder desfrutar em pleno da mais importante, e ancestral, via de comunicação – e fronteira - desta região, e que é, em simultâneo, a sua maior marca de identidade: o Tejo. O que era uma desvantagem tornou-se uma vantagem. E, hoje, possibilitar à população deste concelho um completo contacto com o rio é, mais do que um grande desejo, o maior desafio que se coloca a uma política local digna desse nome.

Artigo publicado no jornal Notícias de Alverca, Nº 210, 2005/6.

quinta-feira, julho 07, 2005

Outros: SbH faz de «Visões» um áudio-livro

Teve lugar hoje, 7 de Julho de 2005, na Culturgest, em Lisboa, a conferência de apresentação – a um «grupo de empresários e investidores», e não só - das 16 equipas/empresas finalistas – ou, dito de outra forma, das 16 melhores ideias – submetidas e seleccionadas durante o (primeiro) Concurso Nacional de Empreendedorismo. Trata-se de uma iniciativa conjunta da Caixa Geral de Depósitos e da Universidade Nova de Lisboa que, com o patrocínio de outras entidades e empresas, como a Fujitsu Siemens, a Microsoft e a OutSystems, e sob o lema «Fazer da vontade realidade», tem como principais objectivos «incentivar a inovação e estimular a cultura empreendedora e, deste modo, contribuir para revitalizar o tecido empresarial nacional» através da criação de «condições para o desenvolvimento de projectos de que resultem novas e promissoras unidades de negócio.»
Uma dessas 16 «novas e promissoras unidades de negócio» é a Solutions by Heart. Liderada por Albertina Dias e Jorge Raposo, a sua principal actividade é «a produção audiovisual e multimédia, com a missão de disponibilizar produtos culturais, no formato de audiobook, nas áreas de educação, lazer, informação e tempos livres.» Posteriormente, o objectivo será também, «utilizando os mesmos recursos e sem investimento adicional», desenvolver «outros produtos e serviços, tais como multimédia, publicidade e música.» Os promotores deste projecto realçam as vantagens inerentes a um formato como o audiobook: portabilidade e mobilidade; facilidade de utilização (leitores portáteis de CD e MP3, por exemplo); impacto cultural; acesso de comunidades de indivíduos com dificuldades de leitura. E destacam igualmente a oportunidade de negócio: «O audiobook atingiu a fase de maturidade nos mercados dos países mais desenvolvidos, especialmente o norte-americano», onde possuirá já uma «quota significativa» entre os produtos culturais. «A necessidade já foi criada nos países desenvolvidos e, como tal, perspectiva-se uma adesão semelhante nos restantes países.» Existirá actualmente a possibilidade de «antecipação às necessidades que se perspectivam a curto prazo, produzindo audiobooks para fornecer o mercado nacional com edições em português e conteúdos alinhados com os requisitos culturais nacionais.»
Um dos primeiros áudio-livros que a SbH deverá produzir, pelo menos numa fase experimental, terá como base o meu livro «Visões», editado originalmente – em papel – em Outubro de 2003. Espero poder dar, brevemente, informações mais pormenorizadas sobre esta colaboração.

segunda-feira, junho 27, 2005

Organização: «Espíritos...» registado na IGAC

Após quinze anos de reflexão, dois de preparação e cinco meses de redacção – iniciada a 22 de Janeiro e terminada a 21 de Junho de 2005 – requeri hoje, 27 de Junho, na sede da Inspecção-Geral das Actividades Culturais, situada no Palácio Foz, em Lisboa, o registo da minha nova obra literária. O seu título é «Espíritos das Luzes».
Na folha do requerimento descrevo este meu livro – que deu entrada na IGAC sob o número 5128/05 - como sendo uma «obra de ficção em prosa, próxima do género romance; fantasia baseada em factos e figuras reais da história portuguesa, mais concretamente do século XVIII.»
O ano de 2005 é, vai ser, foi, um ano marcado, entre outras, por importantes efemérides relacionadas com factos e figuras históricas do século XVIII em Portugal: os 250 anos do Terramoto de Lisboa; os 200 anos das mortes de Manuel Maria Barbosa du Bocage e do pintor Francisco Vieira, o Portuense (nascido, tal como o poeta de Setúbal, em 1765!); os 275 anos do nascimento de Manuel de Figueiredo e os 300 anos dos nascimentos de António José da Silva e de Matias Aires (escritores); os 300 anos da morte de Catarina de Bragança; os 250 anos da restituição da liberdade aos índios do Brasil (acompanhada da concessão de privilégios a portugueses que casassem com índios, para o fomento do povoamento do território); os 250 anos da inauguração da Ópera do Tejo (destruída, meses depois, no terramoto).
Tendo-me apercebido deste facto, decidi antecipar a concretização de um projecto que concebi há já muitos anos: um livro que de certa forma «mistura» o ambiente do Portugal setecentista com um cenário de ficção científica – duas das minhas grandes «paixões». Embora seja, à partida, uma obra de ficção, um romance (?), uma fantasia, «Espíritos das Luzes» assenta, contudo, na presença de personagens reais, cujas falas serão na sua totalidade, ou quase, as suas próprias palavras, tal como as escreveram e deixaram nos seus livros, discursos, cartas e outros documentos. Assim, e além de Bocage, que é, inevitavelmente, um dos «protagonistas» principais, outros nomes incontornáveis daquela época que fazem igualmente a sua «aparição» incluem: o Marquês de Pombal; a Rainha D. Maria I; o intendente Pina Manique; a Marquesa de Alorna; Luísa Todi; Leonor Pimentel; o Cavaleiro de Oliveira; Luís António Verney; António Ribeiro Sanches; Filinto Elísio; Nicolau Tolentino; Manuel da Maia; Vieira Portuense. Isto quanto a portugueses; quanto aos estrangeiros, apesar de menos, eles estão (bem) representados por William Beckford (outro dos principais protagonistas), Voltaire, Kant... e um certo marquês francês...
Todos eles foram nomes de destaque do chamado «Século das Luzes», mas nem todos foram exactamente contemporâneos e nem todos chegaram de facto a encontrar-se e a dialogar. Mas porque, precisamente, a ideia inicial, o objectivo principal, é recordar e homenagear – e invocar – esses nomes, pareceu-me sempre uma solução acertada imaginar uma realidade alternativa, um «universo paralelo», um mesmo «tempo» e um mesmo lugar – Lisboa, claro, mas uma Lisboa diferente - onde todos eles pudessem coexistir e interagir. O meu livro é, pois, um trabalho híbrido, parte ficção – o contexto e o enredo que eu criei – e parte realidade – as palavras que eles escreveram há mais de dois séculos. A própria impressão do livro deve reflectir esse carácter híbrido, misto, utilizando dois tipos de letra, um para cada nível de leitura.
«Espíritos das Luzes» espera, agora, uma editora que se disponha a publicá-lo e a promovê-lo… e a lançá-lo, de preferência e se possível, no dia 1 de Novembro próximo.

sexta-feira, junho 10, 2005

Opinião: Nautas, sempre!

«Vês aqui a grande máquina do Mundo/etérea e elemental, que fabricada/assi foi do Saber alto e profundo/que é sem princípio e meta limitada./Quem cerca em derredor este rotundo/globo e sua superfície tão limada/é Deus; mas o que é Deus ninguém o entende/que a tanto o engenho humano não se estende.»
Luís de Camões, «Os Lusíadas», Canto X, 80-87

«Armada intérmina surgindo/sobre ondas de uma visão estranha/do que por haver ou do que é vindo –/e o mesmo: venha!/Vós não soubeste o que havia no fundo incógnito da raça/nem como a Mão, que tudo guia/seus planos traça.»
Fernando Pessoa, «Quinto Império» (excerto)

Há, como se sabe, uma analogia entre o mar e o ciberespaço, comprovada pela utilização constante de termos náuticos – «navegar», «surfar», «explorar» - quando se fala da rede informática mundial. Porém, se esta analogia não tem um significado especial para outros países e povos, tal não é o caso para Portugal e para os portugueses.
É precisamente essa identificação, essa integração de símbolos do passado com símbolos do presente - que é já futuro em muitos casos - que pode contribuir decisivamente, como forte incentivo, para o nosso progresso, desenvolvimento e até mesmo - porque não? - supremacia no domínio das novas tecnologias da informação e da comunicação. Esta convicção é partilhada por muitas pessoas, e, ao longo destes últimos anos, fizeram-se inúmeras declarações em que a construção da Sociedade da Informação é apresentada quase como sendo uns «Novos Descobrimentos». Uma das primeiras personalidades a destacar-se nesse sentido foi José Mariano Gago - veja-se, por exemplo, a sua introdução ao Livro Verde da Sociedade da Informação, de 1997.
Três exemplos - e provas - de um «retomar electrónico» do imaginário quinhentista foram dados por três pioneiras e importantes iniciativas nacionais no âmbito da utilização das novas tecnologias: o Nónio - Século XXI, do Ministério da Educação; o Terràvista, lançado pelo Ministério da Cultura (mas entretanto já «privatizado», vendido e suspenso); e o REDEScoberta 2000, liderado pela Associação (de Língua Portuguesa) para o Desenvolvimento do Teletrabalho.
O primeiro projecto foi buscar o seu nome ao «instrumento de medida de grande precisão» criado pelo «grande matemático, geógrafo e pedagogo» português do século XVI Pedro Nunes; tal como o Nónio, também as TIC são um símbolo e «instrumentos de rigor e de conhecimento - não são fins em si mesmas.»
O segundo, estruturado em torno de «praias», «portos», «faróis», «estaleiros», «marujos» e «marujas», foi apresentado e justificado deste modo: «Os portugueses e, com eles, a sua língua e cultura, foram um dos primeiros povos globais do planeta, numa teia de influências recíprocas com quase 600 anos de construção. A “glocalidade” da rede é uma reprodução da “glocalidade” de uma cultura como a portuguesa, presente nos quatro cantos do Mundo. O movimento é o mesmo dos Descobrimentos: Portugal “glocal”. Hoje, na Internet, o imaginário da navegação e da exploração domina. Fala-se da fronteira electrónica, do território por mapear, de surfar e navegar na rede. Por todo o lado nascem portos seguros, ancoradouros e ilhas. Locais onde um grupo de utilizadores se acaba por fixar, que acaba por frequentar. 200 milhões de falantes da língua portuguesa: uma comunidade lusófona dispersa pela geografia, que a tecnologia pode contribuir para reunir; uma comunidade virtual global dinâmica e em crescimento. É preciso criar uma dinâmica de presença crescente da lusofonia na Internet.»
O terceiro projecto referido, cujo objectivo é desenvolver o teletrabalho junto dos cidadãos dos países de língua oficial portuguesa, representa para os seus organizadores «uma oportunidade histórica de fazer avançar a nau portuguesa pelas águas bravias do ciberespaço, redescobrindo territórios para o trabalho em rede e alargando as fronteiras da identidade linguística.»
Como se vê, os portugueses continuaram a ser «nautas». Antes, foram «argonautas» quando, na época dos Descobrimentos, partiram de Portugal e navegaram pelo Atlântico, pelo Índico, pelo Pacífico... Agora, na época da Sociedade da Informação, são «cibernautas». Em casa, na escola ou no trabalho buscam no seu computador, não o caminho marítimo, mas o caminho electrónico para a Índia… e para todos os outros países do Mundo.
Portugal foi uma nação dominante no Mundo quando a oralidade era a forma dominante de expressão e conservação de conhecimentos. A oralidade pressupõe uma vontade comum, um esforço colectivo, uma maior interligação entre as pessoas, um maior sentido de vida e actividade comunitárias. Com o advento da cultura escrita, pela invenção e generalização da imprensa, o saber tornou-se individualizado, perdeu o seu carácter colectivo, tornou-se quase uma questão íntima, embora com consequências sociais. Originou outro tipo de cultura, que é também uma outra atitude, outra maneira de ser e de estar. Que não é a de Portugal e dos portugueses.
A era da Internet é também a era de uma nova oralidade, ou, dizendo melhor, de uma «cultura visual», multimédia, cujos pressupostos e características, em especial a constituição de comunidades virtuais/reais, se assemelham bastante aos da antiga oralidade. Portugal e os portugueses, pelos exemplos qualitativos que têm dado, de apetência e de adaptação a esta nova era, poderão triunfar de novo. A Internet pode ser, de certa forma, a concretização do sonho e da profecia do Quinto Império, da Idade do Espírito Santo, tantas vezes anunciada e descrita por homens como António Vieira e Agostinho da Silva. A Rede, resultado de uma multiplicidade de espaços atravessados em todos os sentidos e em todos os momentos por quantidades de conhecimentos praticamente incomensuráveis, parece ter qualquer coisa de místico, de divino. Algo que os portugueses talvez estejam em condições de interpretar, compreender e utilizar plenamente.

Artigo publicado na revista Tempo, Nº 80, 2005/6/1.

sexta-feira, junho 03, 2005

Orientação: Artigo no jornal Notícias de Alverca

A edição Nº 210 do jornal Notícias de Alverca, publicada hoje, 3 de Junho de 2005, e disponível até 8 de Julho, inclui, na sua página 6, o meu artigo «Um desejo chamado Tejo». Comprem e leiam!

quinta-feira, junho 02, 2005

Opinião: Por uma nova literatura

Um dos maiores problemas, se não o maior, da actividade literária e livreira em Portugal está em ainda não se considerar devidamente o livro como um produto, e, logo, como algo sujeito às regras do mercado. Modificar o modo como se encara e se trabalha o sector implica melhorar a fase final do processo, isto é, a distribuição e a promoção, mas não só: são necessárias transformações na própria escrita, nos objectivos e nas técnicas de elaboração de um livro.
Com o advento das novas tecnologias da informação e da comunicação, do desenvolvimento do computador, dos sistemas multimédia, da Internet, do e-book, muitas foram as vozes a profetizarem o desaparecimento do livro, ou, pelo menos, a sua inevitável subalternização. É quase impossível que isso aconteça: a História ensina-nos que, normalmente, nenhum novo meio de comunicação ou de expressão artística elimina o antecedente; o cinema não acabou com o teatro, a televisão não acabou com o cinema nem com a rádio, esta não acabou com os jornais; e o livro na sua «forma em carbono» tem uma autonomia e uma durabilidade que a sua «versão electrónica» (ainda) não tem.
A invenção e o desenvolvimento da imprensa permitiram a expansão da boa literatura, mas também o alastramento de vários tipos de lixo literário. Antes, quando um livro era um bem raro e precioso, havia um cuidado muito maior com aquilo que se escrevia. Todos os livros, ou quase, eram também grandes livros, pela dimensão, pela valia artística intrínseca, ou ambas. Aliás, não é por acaso que quanto mais se avança no tempo menos existem livros importantes, obras de referência, clássicos indiscutíveis e de especial significado para uma ou mais gerações.
Actualmente, os livros tendem a submeter-se à realidade em vez de a tentarem dominar – e isto acontece principalmente na ficção. Muitos escritores parecem fazer várias vezes o mesmo livro em lugar de fazerem livros diferentes. A poesia, em particular, só é reconhecida e publicada pelos «entendidos» se for complexa, hermética, ilegível; um «verdadeiro» poeta quase que tem de criar uma nova linguagem de cada vez que escreve um livro, em vez de tentar transmitir as suas ideias e sentimentos, de uma forma clara e simples, ao maior número possível de pessoas - os que fazem isso só escrevem «lugares comuns».
Neste momento, no século XXI, não há lugar para muitos (ou mesmo todos) dos «ismos» que têm marcado e dominado a história da literatura. Romantismo, realismo, neo-realismo, naturalismo, surrealismo, existencialismo, modernismo, pós-modernismo, já não são suficientes para reflectir as novas realidades e actuar sobre elas. A escolher um nome, um «ismo» para uma nova corrente literária, adaptada aos novos tempos e às suas características, ele só poderia ser um: «sintetismo». Porque os livros têm que incidir sinteticamente sobre o que é essencial.
A literatura deveria contribuir para a procura, para a construção de uma unidade, de um equilíbrio, de uma síntese, não só da própria obra mas também das pessoas às quais ela se destina. Ao invés, grande parte da literatura deste século é caracterizada pela fragmentação, pela dispersão, pela confusão artística e mental. Este estado de coisas é o resultado do mal estar característico do século passado, pródigo em atrocidades de toda a espécie, mas também, mais subtilmente e também por causa disso, do domínio e da influência que a psiquiatria, a psicologia, a psicanálise e todas as correntes e subespécies que delas derivaram têm exercido na sociedade e na cultura. O «psi» na literatura privilegia a desarticulação das ideias e das frases, a exposição das fraquezas e dos traumas, aspectos que as duas guerras mundiais só vieram agravar. A literatura teria necessariamente que se ressentir do (mau) ambiente que a rodeava. A fragmentação é, no entanto, uma característica inexorável da literatura, tanto da antiga como da nova. A diferença está em considerá-la ou como ponto de partida ou como ponto de chegada. Na nova literatura ela é, deve ser, sempre um ponto de partida para algo mais completo e superior - um sentido último, uma mensagem derradeira, um sentimento dominante, uma imagem de síntese.
Escrever na «Era da Internet» – e, muitas vezes, para a Internet – implica uma certa disciplina. Mas é a obra, o livro, que é mais importante, e não o autor. Tem que ser útil, relevante, no seu tema e/ou na maneira como o trata. O livro deve ser escrito, construído, trabalhado, fortalecido de uma maneira tal que possa sobreviver no futuro sem ser preciso recorrer à fama ou ao talento da pessoa que o criou. Todos os livros devem constituir como que unidades independentes, ou pelo menos autónomas; devem constituir como que «organismos vivos»; devem conquistar os públicos por si próprios; devem, na medida do possível, fornecer respostas, soluções, exemplos, modelos de conduta, para muitos problemas e situações. A nova literatura, a verdadeira literatura, deve ser uma força ao serviço da ordem e contra o caos, ao serviço da vida e contra a morte.
Os livros construídos deste modo, apesar de coerentes e equilibrados interiormente, dificilmente serão enquadráveis, integráveis em categorias e colecções «normais» das editoras actuais. A nova literatura é, quase por definição, híbrida: abrange diversos assuntos e contextos, utiliza vários estilos e métodos... e pode ter como suportes, além do papel, a electricidade. Por isso, a nova literatura, consequência, e também causa, deste (admirável?) mundo novo das novas tecnologias da informação e da comunicação, requer novas políticas editoriais, novos editores, e, eventualmente, novas editoras.

Artigo publicado na revista Tempo, Nº 79, 2005/5/25.