segunda-feira, junho 27, 2005

Organização: «Espíritos...» registado na IGAC

Após quinze anos de reflexão, dois de preparação e cinco meses de redacção – iniciada a 22 de Janeiro e terminada a 21 de Junho de 2005 – requeri hoje, 27 de Junho, na sede da Inspecção-Geral das Actividades Culturais, situada no Palácio Foz, em Lisboa, o registo da minha nova obra literária. O seu título é «Espíritos das Luzes».
Na folha do requerimento descrevo este meu livro – que deu entrada na IGAC sob o número 5128/05 - como sendo uma «obra de ficção em prosa, próxima do género romance; fantasia baseada em factos e figuras reais da história portuguesa, mais concretamente do século XVIII.»
O ano de 2005 é, vai ser, foi, um ano marcado, entre outras, por importantes efemérides relacionadas com factos e figuras históricas do século XVIII em Portugal: os 250 anos do Terramoto de Lisboa; os 200 anos das mortes de Manuel Maria Barbosa du Bocage e do pintor Francisco Vieira, o Portuense (nascido, tal como o poeta de Setúbal, em 1765!); os 275 anos do nascimento de Manuel de Figueiredo e os 300 anos dos nascimentos de António José da Silva e de Matias Aires (escritores); os 300 anos da morte de Catarina de Bragança; os 250 anos da restituição da liberdade aos índios do Brasil (acompanhada da concessão de privilégios a portugueses que casassem com índios, para o fomento do povoamento do território); os 250 anos da inauguração da Ópera do Tejo (destruída, meses depois, no terramoto).
Tendo-me apercebido deste facto, decidi antecipar a concretização de um projecto que concebi há já muitos anos: um livro que de certa forma «mistura» o ambiente do Portugal setecentista com um cenário de ficção científica – duas das minhas grandes «paixões». Embora seja, à partida, uma obra de ficção, um romance (?), uma fantasia, «Espíritos das Luzes» assenta, contudo, na presença de personagens reais, cujas falas serão na sua totalidade, ou quase, as suas próprias palavras, tal como as escreveram e deixaram nos seus livros, discursos, cartas e outros documentos. Assim, e além de Bocage, que é, inevitavelmente, um dos «protagonistas» principais, outros nomes incontornáveis daquela época que fazem igualmente a sua «aparição» incluem: o Marquês de Pombal; a Rainha D. Maria I; o intendente Pina Manique; a Marquesa de Alorna; Luísa Todi; Leonor Pimentel; o Cavaleiro de Oliveira; Luís António Verney; António Ribeiro Sanches; Filinto Elísio; Nicolau Tolentino; Manuel da Maia; Vieira Portuense. Isto quanto a portugueses; quanto aos estrangeiros, apesar de menos, eles estão (bem) representados por William Beckford (outro dos principais protagonistas), Voltaire, Kant... e um certo marquês francês...
Todos eles foram nomes de destaque do chamado «Século das Luzes», mas nem todos foram exactamente contemporâneos e nem todos chegaram de facto a encontrar-se e a dialogar. Mas porque, precisamente, a ideia inicial, o objectivo principal, é recordar e homenagear – e invocar – esses nomes, pareceu-me sempre uma solução acertada imaginar uma realidade alternativa, um «universo paralelo», um mesmo «tempo» e um mesmo lugar – Lisboa, claro, mas uma Lisboa diferente - onde todos eles pudessem coexistir e interagir. O meu livro é, pois, um trabalho híbrido, parte ficção – o contexto e o enredo que eu criei – e parte realidade – as palavras que eles escreveram há mais de dois séculos. A própria impressão do livro deve reflectir esse carácter híbrido, misto, utilizando dois tipos de letra, um para cada nível de leitura.
«Espíritos das Luzes» espera, agora, uma editora que se disponha a publicá-lo e a promovê-lo… e a lançá-lo, de preferência e se possível, no dia 1 de Novembro próximo.

sexta-feira, junho 10, 2005

Opinião: Nautas, sempre!

«Vês aqui a grande máquina do Mundo/etérea e elemental, que fabricada/assi foi do Saber alto e profundo/que é sem princípio e meta limitada./Quem cerca em derredor este rotundo/globo e sua superfície tão limada/é Deus; mas o que é Deus ninguém o entende/que a tanto o engenho humano não se estende.»
Luís de Camões, «Os Lusíadas», Canto X, 80-87

«Armada intérmina surgindo/sobre ondas de uma visão estranha/do que por haver ou do que é vindo –/e o mesmo: venha!/Vós não soubeste o que havia no fundo incógnito da raça/nem como a Mão, que tudo guia/seus planos traça.»
Fernando Pessoa, «Quinto Império» (excerto)

Há, como se sabe, uma analogia entre o mar e o ciberespaço, comprovada pela utilização constante de termos náuticos – «navegar», «surfar», «explorar» - quando se fala da rede informática mundial. Porém, se esta analogia não tem um significado especial para outros países e povos, tal não é o caso para Portugal e para os portugueses.
É precisamente essa identificação, essa integração de símbolos do passado com símbolos do presente - que é já futuro em muitos casos - que pode contribuir decisivamente, como forte incentivo, para o nosso progresso, desenvolvimento e até mesmo - porque não? - supremacia no domínio das novas tecnologias da informação e da comunicação. Esta convicção é partilhada por muitas pessoas, e, ao longo destes últimos anos, fizeram-se inúmeras declarações em que a construção da Sociedade da Informação é apresentada quase como sendo uns «Novos Descobrimentos». Uma das primeiras personalidades a destacar-se nesse sentido foi José Mariano Gago - veja-se, por exemplo, a sua introdução ao Livro Verde da Sociedade da Informação, de 1997.
Três exemplos - e provas - de um «retomar electrónico» do imaginário quinhentista foram dados por três pioneiras e importantes iniciativas nacionais no âmbito da utilização das novas tecnologias: o Nónio - Século XXI, do Ministério da Educação; o Terràvista, lançado pelo Ministério da Cultura (mas entretanto já «privatizado», vendido e suspenso); e o REDEScoberta 2000, liderado pela Associação (de Língua Portuguesa) para o Desenvolvimento do Teletrabalho.
O primeiro projecto foi buscar o seu nome ao «instrumento de medida de grande precisão» criado pelo «grande matemático, geógrafo e pedagogo» português do século XVI Pedro Nunes; tal como o Nónio, também as TIC são um símbolo e «instrumentos de rigor e de conhecimento - não são fins em si mesmas.»
O segundo, estruturado em torno de «praias», «portos», «faróis», «estaleiros», «marujos» e «marujas», foi apresentado e justificado deste modo: «Os portugueses e, com eles, a sua língua e cultura, foram um dos primeiros povos globais do planeta, numa teia de influências recíprocas com quase 600 anos de construção. A “glocalidade” da rede é uma reprodução da “glocalidade” de uma cultura como a portuguesa, presente nos quatro cantos do Mundo. O movimento é o mesmo dos Descobrimentos: Portugal “glocal”. Hoje, na Internet, o imaginário da navegação e da exploração domina. Fala-se da fronteira electrónica, do território por mapear, de surfar e navegar na rede. Por todo o lado nascem portos seguros, ancoradouros e ilhas. Locais onde um grupo de utilizadores se acaba por fixar, que acaba por frequentar. 200 milhões de falantes da língua portuguesa: uma comunidade lusófona dispersa pela geografia, que a tecnologia pode contribuir para reunir; uma comunidade virtual global dinâmica e em crescimento. É preciso criar uma dinâmica de presença crescente da lusofonia na Internet.»
O terceiro projecto referido, cujo objectivo é desenvolver o teletrabalho junto dos cidadãos dos países de língua oficial portuguesa, representa para os seus organizadores «uma oportunidade histórica de fazer avançar a nau portuguesa pelas águas bravias do ciberespaço, redescobrindo territórios para o trabalho em rede e alargando as fronteiras da identidade linguística.»
Como se vê, os portugueses continuaram a ser «nautas». Antes, foram «argonautas» quando, na época dos Descobrimentos, partiram de Portugal e navegaram pelo Atlântico, pelo Índico, pelo Pacífico... Agora, na época da Sociedade da Informação, são «cibernautas». Em casa, na escola ou no trabalho buscam no seu computador, não o caminho marítimo, mas o caminho electrónico para a Índia… e para todos os outros países do Mundo.
Portugal foi uma nação dominante no Mundo quando a oralidade era a forma dominante de expressão e conservação de conhecimentos. A oralidade pressupõe uma vontade comum, um esforço colectivo, uma maior interligação entre as pessoas, um maior sentido de vida e actividade comunitárias. Com o advento da cultura escrita, pela invenção e generalização da imprensa, o saber tornou-se individualizado, perdeu o seu carácter colectivo, tornou-se quase uma questão íntima, embora com consequências sociais. Originou outro tipo de cultura, que é também uma outra atitude, outra maneira de ser e de estar. Que não é a de Portugal e dos portugueses.
A era da Internet é também a era de uma nova oralidade, ou, dizendo melhor, de uma «cultura visual», multimédia, cujos pressupostos e características, em especial a constituição de comunidades virtuais/reais, se assemelham bastante aos da antiga oralidade. Portugal e os portugueses, pelos exemplos qualitativos que têm dado, de apetência e de adaptação a esta nova era, poderão triunfar de novo. A Internet pode ser, de certa forma, a concretização do sonho e da profecia do Quinto Império, da Idade do Espírito Santo, tantas vezes anunciada e descrita por homens como António Vieira e Agostinho da Silva. A Rede, resultado de uma multiplicidade de espaços atravessados em todos os sentidos e em todos os momentos por quantidades de conhecimentos praticamente incomensuráveis, parece ter qualquer coisa de místico, de divino. Algo que os portugueses talvez estejam em condições de interpretar, compreender e utilizar plenamente.

Artigo publicado na revista Tempo, Nº 80, 2005/6/1.

sexta-feira, junho 03, 2005

Orientação: Artigo no jornal Notícias de Alverca

A edição Nº 210 do jornal Notícias de Alverca, publicada hoje, 3 de Junho de 2005, e disponível até 8 de Julho, inclui, na sua página 6, o meu artigo «Um desejo chamado Tejo». Comprem e leiam!

quinta-feira, junho 02, 2005

Opinião: Por uma nova literatura

Um dos maiores problemas, se não o maior, da actividade literária e livreira em Portugal está em ainda não se considerar devidamente o livro como um produto, e, logo, como algo sujeito às regras do mercado. Modificar o modo como se encara e se trabalha o sector implica melhorar a fase final do processo, isto é, a distribuição e a promoção, mas não só: são necessárias transformações na própria escrita, nos objectivos e nas técnicas de elaboração de um livro.
Com o advento das novas tecnologias da informação e da comunicação, do desenvolvimento do computador, dos sistemas multimédia, da Internet, do e-book, muitas foram as vozes a profetizarem o desaparecimento do livro, ou, pelo menos, a sua inevitável subalternização. É quase impossível que isso aconteça: a História ensina-nos que, normalmente, nenhum novo meio de comunicação ou de expressão artística elimina o antecedente; o cinema não acabou com o teatro, a televisão não acabou com o cinema nem com a rádio, esta não acabou com os jornais; e o livro na sua «forma em carbono» tem uma autonomia e uma durabilidade que a sua «versão electrónica» (ainda) não tem.
A invenção e o desenvolvimento da imprensa permitiram a expansão da boa literatura, mas também o alastramento de vários tipos de lixo literário. Antes, quando um livro era um bem raro e precioso, havia um cuidado muito maior com aquilo que se escrevia. Todos os livros, ou quase, eram também grandes livros, pela dimensão, pela valia artística intrínseca, ou ambas. Aliás, não é por acaso que quanto mais se avança no tempo menos existem livros importantes, obras de referência, clássicos indiscutíveis e de especial significado para uma ou mais gerações.
Actualmente, os livros tendem a submeter-se à realidade em vez de a tentarem dominar – e isto acontece principalmente na ficção. Muitos escritores parecem fazer várias vezes o mesmo livro em lugar de fazerem livros diferentes. A poesia, em particular, só é reconhecida e publicada pelos «entendidos» se for complexa, hermética, ilegível; um «verdadeiro» poeta quase que tem de criar uma nova linguagem de cada vez que escreve um livro, em vez de tentar transmitir as suas ideias e sentimentos, de uma forma clara e simples, ao maior número possível de pessoas - os que fazem isso só escrevem «lugares comuns».
Neste momento, no século XXI, não há lugar para muitos (ou mesmo todos) dos «ismos» que têm marcado e dominado a história da literatura. Romantismo, realismo, neo-realismo, naturalismo, surrealismo, existencialismo, modernismo, pós-modernismo, já não são suficientes para reflectir as novas realidades e actuar sobre elas. A escolher um nome, um «ismo» para uma nova corrente literária, adaptada aos novos tempos e às suas características, ele só poderia ser um: «sintetismo». Porque os livros têm que incidir sinteticamente sobre o que é essencial.
A literatura deveria contribuir para a procura, para a construção de uma unidade, de um equilíbrio, de uma síntese, não só da própria obra mas também das pessoas às quais ela se destina. Ao invés, grande parte da literatura deste século é caracterizada pela fragmentação, pela dispersão, pela confusão artística e mental. Este estado de coisas é o resultado do mal estar característico do século passado, pródigo em atrocidades de toda a espécie, mas também, mais subtilmente e também por causa disso, do domínio e da influência que a psiquiatria, a psicologia, a psicanálise e todas as correntes e subespécies que delas derivaram têm exercido na sociedade e na cultura. O «psi» na literatura privilegia a desarticulação das ideias e das frases, a exposição das fraquezas e dos traumas, aspectos que as duas guerras mundiais só vieram agravar. A literatura teria necessariamente que se ressentir do (mau) ambiente que a rodeava. A fragmentação é, no entanto, uma característica inexorável da literatura, tanto da antiga como da nova. A diferença está em considerá-la ou como ponto de partida ou como ponto de chegada. Na nova literatura ela é, deve ser, sempre um ponto de partida para algo mais completo e superior - um sentido último, uma mensagem derradeira, um sentimento dominante, uma imagem de síntese.
Escrever na «Era da Internet» – e, muitas vezes, para a Internet – implica uma certa disciplina. Mas é a obra, o livro, que é mais importante, e não o autor. Tem que ser útil, relevante, no seu tema e/ou na maneira como o trata. O livro deve ser escrito, construído, trabalhado, fortalecido de uma maneira tal que possa sobreviver no futuro sem ser preciso recorrer à fama ou ao talento da pessoa que o criou. Todos os livros devem constituir como que unidades independentes, ou pelo menos autónomas; devem constituir como que «organismos vivos»; devem conquistar os públicos por si próprios; devem, na medida do possível, fornecer respostas, soluções, exemplos, modelos de conduta, para muitos problemas e situações. A nova literatura, a verdadeira literatura, deve ser uma força ao serviço da ordem e contra o caos, ao serviço da vida e contra a morte.
Os livros construídos deste modo, apesar de coerentes e equilibrados interiormente, dificilmente serão enquadráveis, integráveis em categorias e colecções «normais» das editoras actuais. A nova literatura é, quase por definição, híbrida: abrange diversos assuntos e contextos, utiliza vários estilos e métodos... e pode ter como suportes, além do papel, a electricidade. Por isso, a nova literatura, consequência, e também causa, deste (admirável?) mundo novo das novas tecnologias da informação e da comunicação, requer novas políticas editoriais, novos editores, e, eventualmente, novas editoras.

Artigo publicado na revista Tempo, Nº 79, 2005/5/25.

quarta-feira, junho 01, 2005

Orientação: Outro artigo na revista Tempo

A edição Nº 80 da revista Tempo, publicada hoje, 1 de Junho de 2005, e disponível até 8 do mesmo mês, inclui, na sua página 25, o meu artigo «Nautas, sempre!» Comprem e leiam!

terça-feira, maio 31, 2005

Opinião: É só fumaça!

Segundo a Organização Mundial de Saúde, um terço da população mundial com mais de 15 anos - cerca de um bilião de pessoas - fuma. Três milhões de pessoas morrem por ano vitimadas por doenças causadas pelo tabaco. Dentro de 30 anos o número pode subir aos 10 milhões.
O problema é muito grave. E está por resolver. Haverá alguém hoje que duvide de que o fumador é um indivíduo perigoso? Um risco ambulante? Uma ameaça permanente à saúde pública e privada? Senão, vejamos:
- O fumador é um egoísta. Entrega-se ao seu vício sem se preocupar com o bem-estar dos não fumadores. Estes ficam com o cabelo e a roupa a cheirarem mal, o sistema respiratório afectado, o almoço estragado.
- O fumador é um cobarde. Está constantemente a dizer que vai deixar de fumar. Porém, só pensa nisso a sério quando o médico lhe diz que tem seis meses de vida.
- O fumador é um irresponsável. É um incendiário em potência, porque espalha cinzas e beatas mal apagadas por todo o lado. Não seria de admirar que o incêndio no Chiado tivesse sido provocado por um cigarro...
- O fumador é um criminoso. Os seus crimes vão desde a bronquite asmática às doenças cardiovasculares, passando pelos numerosos e variados tumores: na boca, na língua, na laringe, nos pulmões, no estômago. Como todos os criminosos, o fumador deveria ser perseguido e punido: não só provoca a sua morte (lenta) como a dos outros.
Há países onde isso já se faz. Nos Estados Unidos da América existe actualmente um novo tipo de segregação, não entre diferentes raças, mas sim entre fumadores e não fumadores. Os muitos «cancermen» e «cancerwomen» são expulsos de praticamente todos os espaços públicos, fechados e abertos. Além disso, todas as grandes companhias tabaqueiras já foram alvo de processos judiciais por parte de fumadores, dos seus familiares e até mesmo dos governos estaduais, que terminaram recentemente em acordos e indemnizações no valor de muitos milhões de dólares.
A fúria com que os americanos tratam os fumadores e as empresas de tabaco pode parecer surpreendente e excessiva. Mas tem uma explicação lógica. Durante décadas, o cigarro foi um elemento fundamental, quase omnipresente, da iconografia cultural americana. Eram poucas as grandes figuras do cinema, da televisão, da literatura, da imprensa, que não apareciam com um cigarro - ou um charuto ou um cachimbo - ao canto da boca. O cigarro era um companheiro, a marca do herói, o símbolo do verdadeiro americano. A publicidade sugeria aos filhos que oferecessem maços de cigarros aos pais nos aniversários, no Dia do Pai e no Natal. Hoje, que as consequências do tabaco são por demais conhecidas e comprovadas, muitos sentem-se enganados. Ofendidos. E querem vingança.
Em Portugal, alguns conhecidos «líderes de opinião», que são também fumadores, queixam-se de perseguição, de atentado às liberdades, até de um novo «fascismo anti-tabagista» que se aproxima... Tretas! Eles parecem esquecer-se que a liberdade de cada um tem limites, ou que acaba quando começa a prejudicar a liberdade - e, neste caso, a saúde - dos outros. Larguem o cigarro, e aí poderão esperar ser tratados como indivíduos, homens e mulheres, normais, como membros de pleno direito da raça humana. Porque não o serão enquanto deitarem fumo pela boca!

Com um pedido de desculpa aos meus amigos fumadores... mas é para o bem deles!

Hoje, 31 de Maio de 2005, celebra-se o Dia Mundial do Não Fumador.

Artigo publicado no jornal Vida Ribatejana, Nº 3934, 1997/10/1.

quarta-feira, maio 25, 2005

Orientação: Artigo na revista Tempo

A edição Nº 79 da revista Tempo, publicada hoje, 25 de Maio de 2005, e disponível até 1 de Junho, inclui, na sua página 32, o meu artigo «Por uma nova literatura». Comprem e leiam!

domingo, maio 01, 2005

Obras: "O elmo"

Há uma sala imensa imersa na escuridão
em cujo centro incide uma intensa luz.
Nele está exposto o elmo de uma armadura
que outrora pertenceu a um homem da Cruz.

É um capacete arredondado, amarelo, dourado,
e foi usado pelo mais audaz dos cavaleiros da estrada.
Muitas corridas ele disputou, muitas batalhas ele ganhou,
conduzindo o seu bólide, lançado na sua montada.

Era aos domingos que ele demonstrava a sua fé,
e ao chegar à meta fazia de cada circuito uma igreja.
Subia ao altar, erguia o troféu, bebia do cálice e orava,
celebrando uma missa depois da motorizada peleja.

Até os não crentes, como eu, se converteram,
levados pela sua coragem, que operava milagres.

No Estoril, suportando um dilúvio com afinco,
em mil novecentos e oitenta e cinco.

Em Suzuka, «e no entanto ele se move!»,
em mil novecentos e oitenta e nove.

Em Interlagos, sofrendo como mais nenhum,
em mil novecentos e noventa e um.

E no dia em que, com 34 anos, entraste para a eternidade,
ninguém quis chorar porque ninguém acreditou de imediato.
Visto do alto, o teu corpo, o teu carro, crucificado, imolado,
como um mártir prestes a ser canonizado e santificado.

Há quem diga que aquele que experimentar o teu elmo
poderá ver imagens indescritíveis nunca antes sonhadas.
Meu ídolo, meu irmão no idioma, que saudades eu tenho
de exultar com a tua arte e a tua velocidade inultrapassadas.


Ayrton Senna morreu a 1 de Maio de 1994... um domingo.
Poema (Nº 282) escrito em 2000.

segunda-feira, abril 25, 2005

Orientação: Ligações para três artigos

Em quase 20 anos já escrevi e publiquei muitos artigos de opinião sobre vários assuntos, em especial relacionados com Portugal e com os portugueses. Abaixo estão as ligações para três dos mais recentes:

De Espanha... um bom casamento!

O país é o meu, mas não a bandeira...

A República está morta!

Obras: "Abril"

Foi em Abril
que um casamento se deu.
E a felicidade foi esperada porque choveram águas mil.

Foi em Abril
que uma criança nasceu.
E a solidariedade foi dada com um nome contra uma ditadura senil.

Foi em Abril
que uma revolução viveu.
E a liberdade foi conquistada com flores num dia de festa primaveril.

Foi em Abril que tudo aconteceu.
Nada do que contaram é mentira.
Entre os idos de Março e as cantigas de Maio
a saudade os artistas inspira
e à verdade o povo aspira.


Poema (Nº 259) escrito em 1992 e incluído no meu livro «Alma Portuguesa».

sexta-feira, abril 22, 2005

Outros: Referência da Umbigo a «Visões»

A revista Umbigo, no seu Nº 10, publicado em 2004, inclui, na secção «5 Sentidos», página 18, o seguinte comentário ao meu livro:

«Visões»: é este o título do livro de Octávio dos Santos, editado pela Hugin, dentro da colecção Bibliotheca Phantastica. São textos curtos, contos e outros, com ideias desconcertantes. Do erotismo à crítica social, um conjunto de obras que fogem ao conformismo literário.
A revista Umbigo constitui um dos mais inovadores e interessantes projectos editoriais de qualidade lançados em Portugal nos últimos anos. É dirigida por Elsa Garcia e por Miguel Matos, que, tal como eu, começaram a sua carreira jornalística no... Notícias de Alverca!

sábado, abril 16, 2005

Outros: Entrevista ao Notícias de Alverca

Na sua edição Nº 127, de Fevereiro de 2004, que assinalava, aliás, o seu vigésimo aniversário, o jornal Notícias de Alverca - onde eu iniciara quase vinte anos antes, meio a sério meio a brincar, o meu percurso enquanto jornalista - publicou uma entrevista que me fizera a propósito da edição do meu livro «Visões». Dessa entrevista transcreve-se a seguir um excerto.

Em primeiro lugar, fale-me um pouco deste seu livro...

Este livro constitui o culminar de uma tentativa, com mais de vinte anos, de construção de uma carreira literária. Com os meus 13, 14 anos, comecei a escrever com regularidade, especialmente poesia... que é, creio, aquilo que quase todos nós começamos por tentar escrever. A partir de 1985 fui bater à porta das editoras, sempre sem sucesso... até 2001, ano em que recebi «luz verde» da Hugin Editores para o «Visões», tornado realidade dois anos depois. Foi muito gratificante, para mim, que tal tenha acontecido. E, neste particular, estou grato a António de Macedo, conhecido cineasta e escritor, que dirige a colecção «Bibliotheca Phantastica», onde o meu livro se insere.

Noto que escreve sobre coisas do senso comum, no fundo, acerca de factos do dia a dia de todos nós, de uma forma acutilante e directa...

Sim. Aliás, em qualquer texto que eu elabore, seja jornalístico, pois essa é a minha profissão, ou de outro tipo, a minha intenção é sempre ir directo ao assunto, não perder tempo com grandes «floreados». Se tenho uma ideia para expressar, então tento exprimi-la o mais claramente possível. Por exemplo, um dos contos do meu livro chama-se «Caminhos de ferro» e resulta, em grande parte, das experiências que venho acumulando diariamente, enquanto utente da CP, desde há muitos anos. Actualmente, temos um serviço ferroviário com algum conforto e eficiência, mas eu ainda sou do tempo em que os comboios eram absolutamente deploráveis, velhos, atrasados... E, depois, houve aquele acidente, trágico, na Póvoa de Santa Iria, em 1986, que traumatizou bastante a minha geração. Naquele comboio iam amigos meus; uns morreram; outros ficaram feridos e marcados para sempre, um dos quais o Luís Lamancha, a quem eu dedico o «Visões». Esse episódio significou um ponto de viragem em muitos aspectos, um sinal de que a tragédia nos pode acontecer a qualquer momento.

Esta obra relembra-nos, assim, o nosso quotidiano...

É... O género fantástico de que eu mais gosto é, precisamente, aquele que está mais perto do quotidiano, das coisas do dia a dia, dos afazeres normais das pessoas. Outro exemplo é o conto «A caixa negra», em que eu procuro explorar até onde podem ir os limites da burocracia, que chega a alterar, completamente, as vidas dos cidadãos. No fundo, as pessoas são, de facto, a minha grande fonte de inspiração.

E usa uma linguagem muito frontal, que, em alguns casos, poderá mesmo chocar...

A ideia também é essa. De resto, como já referi, eu sou, tento ser, frontal, não só a escrever mas em todos os aspectos da minha vida e da minha profissão, e penso que esse estilo deve ser estimulado.

Continua a ser difícil encontrar uma editora para os nossos livros?

Digamos que, hoje em dia, é mais fácil ser-se publicado. Mas, mesmo conseguindo-o, existe, posteriormente, o problema da promoção da obra. E quando não somos figuras televisivas essa dificuldade aumenta... O que não faltam, presentemente, são livros escritos por pessoas que, de uma forma ou de outra, aparecem na televisão, e que têm à partida, desde logo, outro tipo de cobertura que eu não tenho.

Os leitores portugueses continuam a «ligar» mais aos títulos estrangeiros?

Eu penso que já não é tanto assim, quer na literatura quer na música. Temos um José Saramago, um António Lobo Antunes, um Miguel Sousa Tavares, uma Margarida Rebelo Pinto... Houve, de facto, um tempo em que não se gostava mais do que era nacional, mas, agora, felizmente, isso mudou.

Este seu livro é igualmente o resultado de uma actividade jornalística continuada? Ou seja, contém uma visão jornalística dos assuntos?

Esta obra consiste numa série de contos, autónomos, aos quais procurei dar uma certa sequência, um «fio condutor». Se neles se nota um cunho jornalístico, tal não é deliberado, pois já tinha este estilo antes de ser jornalista. Embora, obviamente, a minha actividade contribua para, em tudo, procurar ser conciso, claro e buscar aquilo que é essencial.

Obras: "Caminhos de ferro"

Era o fim do dia.
O sol começava a esconder-se no horizonte e anunciava o crepúsculo, a saída dos locais de trabalho e o início do caminho de regresso a casa. As ruas enchiam-se de pessoas apressadas, que se dirigiam para os seus carros ou para os transportes públicos, para o barco, para o autocarro, para o metropolitano... e para o comboio.
Na estação ferroviária, homens e mulheres vão chegando a pouco e pouco. Alguns conseguem sentar-se nos poucos bancos, mas a maior parte tem de esperar em pé. Muitos lêem jornais e revistas, comem alguma coisa que trouxeram ou compraram, porque a hora de jantar está próxima e a fome já aperta.
Aqui e ali formam-se pequenos grupos de duas, três, quatro, cinco pessoas, amigos e conhecidos, colegas de trabalho e vizinhos, que discutem o tempo, a última jornada do campeonato de futebol, a remodelação do governo e o mais recente escândalo sexual.
Então, uma voz pelo altifalante anuncia:
- O comboio que vai dar entrada na linha número um tem paragem prevista em todas as estações e apeadeiros. Avisamos as senhoras e os senhores passageiros que não nos responsabilizamos por eventuais danos, físicos e psicológicos, que eventualmente venham a sofrer. Informamos, uma vez mais, que correm perigo de vida se entrarem neste comboio.
Este aviso, que por ser repetido sempre antes da chegada de qualquer comboio já se tornara banal e monótono, funciona também como o sinal para todos os passageiros prepararem os seus equipamentos de viagem: capacetes ou máscaras especiais de protecção facial, coletes à prova de bala e blusões reforçados, e diversas armas, como bastões, punhais e até mesmo pistolas. Um a um, todos ficam prontos.
O combóio pára na estação, e como sempre a esta hora, vem cheio. As portas abrem-se, e a grande batalha começa.
Cenas de uma violência indescritível desenrolam-se na plataforma, junto de todas as portas das carruagens. Os cidadãos comuns e pacatos transformaram-se em guerreiros sanguinários que lutarão, até à morte se for preciso, por um lugar no comboio que os leve a casa. Neste momento nada é mais importante. E por isso empurram, batem, ferem, matam. As mãos dão bofetadas e murros, brandem punhais e disparam pistolas. O pandemónio é total. Gritos de raiva e de dor rasgam a noite, enquanto o sangue se espalha e acumula no cimento do chão e nos vidros das janelas.
Finalmente, depois de dez minutos de tumulto violentíssimo, a situação começa a definir-se. Os mais fortes, ou talvez apenas os mais afortunados, conseguiram entrar no comboio e ocupar os poucos lugares que restavam. Estão exaustos, sujos, as roupas rasgadas, quase todos feridos, alguns com gravidade. Gemem e choram por causa de mais algumas fracturas e hemorragias que os seus já tão martirizados corpos vão ter de sofrer. Porém, os que entraram estão de certeza muito melhores do que os outros.
À medida que o comboio, lentamente, reinicia a sua marcha, vêem-se os cadáveres dos infelizes perdedores do dia. As janelas das carruagens são um grande ecrã onde passa um filme de terror verdadeiro. Entretanto, as brigadas de limpeza da empresa ferroviária estão já em acção, removendo os corpos e limpando e desinfectando o pavimento. Há que desocupar e preparar o espaço para a próxima carnificina, que terá ali lugar quinze minutos depois.
Todavia, não é só naquela estação. A loucura assassina ataca em cada paragem, e as imagens de violência e de morte repetem-se sucessivamente. Enquanto ainda existem lugares no comboio, são apenas as pessoas de fora que entram em luta. Mas quando já não é possível comprimir mais ninguém dentro das carruagens, quando as pessoas vão já tão apertadas que quase não é possível respirar, são estas que regressam ao combate, defendendo com ferocidade os seus poucos centímetros sagrados de espaço. Entre as carruagens sobrelotadas e as plataformas apinhadas há troca de tiros e de insultos, estes, provavelmente, em número inferior àqueles.
Depois da lotação ficar completamente esgotada, o comboio já não pára nas outras estações onde há ainda passageiros a quererem entrar, verdadeiros loucos com instintos suicidas. A próxima paragem será feita quando alguém quiser sair. E, aí, isso quererá dizer que haverá mais violência.
No comboio, um lugar é também um motivo para matar e morrer.
O interior não é um local mais seguro do que o exterior. É preciso estar sempre atento, pronto para reagir, no caso de algum ocupante que ainda não esteja imobilizado pela compressão ou pela exaustão pretender roubar, agredir ou violar. Pequenas escaramuças rebentam regularmente dentro do comboio, formas agradáveis de passar o tempo até se enfrentarem as próximas ameaças.
No comboio há sempre um perigo desconhecido que espera por si.
Seria bom que a morte só se aproximasse quando o comboio parasse. Infelizmente, ela espreita até mesmo a alta velocidade. Em determinados pontos do percurso, que os passageiros veteranos, ou seja, os sobreviventes e reincidentes, já conhecem, são sempre de esperar ataques por parte dos «Filhos do Inferno». Este é o nome que se dá às crianças marginais e delinquentes, que habitam nos bairros de lata instalados ao longo da linha, e que atacam os comboios para se divertirem. E hoje não é dia de folga para eles.
O comboio é atacado, primeiro, por uma chuva de pedras, que partem os poucos vidros que ainda restavam. Em seguida atiram garrafas em chamas, autênticos «cocktails Molotov», que semeiam o pânico entre os passageiros ainda acordados e conscientes e que se podem mover. Vários ficam em chamas antes de se conseguir atirar de volta os objectos incendiários pelas janelas, e essas tochas humanas são por sua vez atiradas lá para fora, iluminando, com os seus corpos, este normal percurso suburbano e sub-humano.
As crianças traquinas não desistem. E insistem, desta vez com metralhadoras. Os combatentes das carruagens ripostam com todas as armas que ainda dispõem, e as baixas vão aumentando de ambos os lados. Alguns «filhotes» mais ousados saltam de pontes e viadutos para o tecto das carruagens, e tentam entrar nelas aproveitando o efeito de surpresa. Sem grandes resultados: praticamente todos são repelidos e caem, sendo vários trucidados, decepados e decapitados pelas rodas do comboio.
Porém, os sobressaltos não acabaram.
A meio do percurso o comboio pára, mas não numa estação. Está-se numa terra de ninguém, um descampado, onde as luzes mais próximas estão a vários quilómetros de distância. Os passageiros receiam o pior: uma emboscada preparada por um bando de cobradores renegados, daqueles que enlouqueceram devido ao stress terrível da profissão e atacam os passageiros com os seus alicates.
Depois de alguns minutos de uma expectativa angustiada, o comboio recomeça a mover-se e entra num desvio. Os passageiros suspiram de alívio: o comboio parara simplesmente para dar passagem a outro comboio, este de mercadorias. Ninguém protesta. Afinal, prioridades são prioridades. Não há dúvidas sobre o que é mais importante.
Duas horas foram precisas para se percorrer trinta quilómetros. Um a um, o comboio dos malditos fica vazio da sua carga repelente. As carruagens imundas, agora desertas, exalam um odor insuportável a morte.
Estes caminhos são de ferro. O ferro dos carris e também o ferro das lâminas e das balas.
As pessoas, que antes de entrarem no comboio eram cidadãos bem vestidos e compostos, são agora pouco mais do que vagabundos esfarrapados, fantasmas que cambaleiam e gemem a cada passo que dão.
Habitualmente, eles arrastam-se para as suas casas logo depois de descerem. Mas hoje não. Há outra coisa que têm de fazer antes.
Em cada estação do país forma-se um cortejo de miseráveis que fazem fila até à bilheteira.
Por ser o último dia do mês, é também o dia de comprar a senha do passe.

Conto incluído no meu livro «Visões».

Outros: Prefácio de António de Macedo a «Visões»

Depois de fuzilado/ao levar/o tiro na nuca pra acabar/chateou-se/e viu-se obrigado/a explicar/ao major/que comandava o pelotão/que o tinha fuzilado/por favor/preste atenção/e não me obrigue a repetir/a repreensão/na próxima vez/que mandar matar/dê tempo ao morto/pra gritar/convicto/um último viva a revolução.
Mário-Henrique Leiria

Não é raro ouvir-se por aí que a «ficção especulativa» portuguesa não tem raízes, ou, se as tem, são tão ténues, esparsas e engastadas em terreno tão ingrato que mal servem para aguentar um pequeno arbusto, quanto mais uma árvore frondosa e ramalhuda, corcovada ao peso de suculentos frutos.
Felizmente esta visão pessimista – e acentuo o termo visão já que, no caso vertente, de Visões se trata! – esta visão pessimista, dizia eu, não tem fundamento. Existem, na tradição literária e artística portuguesa, copiosos exemplos do que nos últimos vinte ou trinta anos se convencionou chamar «ficção especulativa», curioso sintagma cunhado pelos anglófonos (speculative fiction) que abrange um vasto leque que vai da ficção científica mais «dura» (hard SF) até ao fantástico que segundo alguns especialistas não é um subgénero nem uma forma mas uma estrutura, e abrange campos tão díspares como o surrealismo, o sobrenatural, o mágico, o horror, o visionário, o conto de fadas, o grotesco, o maravilhoso, a fantasia heróica, o monstruoso, a tecnofantasia... Sim, temos na nossa tradição cultural, tanto nas letras como nas artes, exemplos de autores que navegam e navegaram pelo maravilhoso e pelo imaginário, e a existência desta colecção, «Bibliotheca Phantastica», é disso prova pela necessidade que não poucos têm sentido de conhecer o que se faz e o que se fez, em Portugal, nesse vasto território.
O que sucede, desditosamente, é que a tal visão pessimista referida acima é possível devido à voluntária ignorância em que a generalidade do nosso público se enquista no que concerne aos valores «tradicionais» da cultura portuguesa, entendendo, por um periférico e provinciano vício de tortuoso intelectualismo, que só o que é estrangeiro (francês até aos anos 60 do século XX, anglo-americano de então para cá) é que a tal visão pessimista referida acima é possível devido à voluntária ignorância em que a generalidade do nosso público se enquista no que concerne aos valores «tradicionais» da cultura portuguesa, entendendo, por um periférico e provinciano vício de tortuoso intelectualismo, que só o que é estrangeiro (francês até aos anos 60 do século xx, anglo-americano de então para cá) é que merece atenção e vale a pena saber de cor, e que das nossas raízes pouco mais se aproveita do que Camões (do qual pouco ou nada leram) e Eça de Queirós. Já os nossos escritores do século xix se queixavam que vivíamos com o embasbacado olho posto no que nos vinha lá de fora, e sobranceiramente virávamos as costas ao que de melhor se fazia por cá… Recomendo aos cépticos – e só para começar, ele há muito bom exemplo português por onde escolher! – a consulta de duas antologias que são duas admiráveis «experiências» do imaginário lusitano: A Experiência do Prodígio: Bases Teóricas e Antologia de Textos Visuais Portugueses dos Séculos XVII e XVIII (IN-CM, 1983), de Ana Hatherly, e Antologia do Conto Fantástico Português (Edições Afrodite, 2.ª ed., 1974), editada por Fernando Ribeiro de Mello, uma antologia de ficções fantásticas de 35 autores portugueses dos séculos XIXe XX, com um recomendável estudo introdutório por E. M. de Melo e Castro.
Vem tudo isto a propósito de duas ou três coisas que importa considerar: o livro Visões, que o leitor tem entre mãos, a epígrafe de Mário-Henrique Leiria que antecede este prefácio e a conversa sobre «raízes».
As Visões de Octávio dos Santos são mesmo «visões» que assumem a forma de pequenas-grandes histórias; agridem-nos por entre o horror, o extravagante, o fantástico, o satírico, o atroz e o sociológico, com muito «realismo» subliminar à mistura. O seu autor, especializado em Sociologia e Economia, e que foi – entre outras actividades – colaborador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos, teve o instinto arguto de criar um fantástico psicossociológico que tira partido do «terror» da política, do trivial, do lado negro da História, da informação e do consumismo, terror a que infelizmente nos amoldámos por uma hábil anestesia que o «sistema» nos injectou, para melhor o servirmos e de nós melhor se servir. É tempo de «acordar!», grita-nos Octávio dos Santos por um altifalante com muitas bocas – as bocas todas de cada um dos seus «contos» que me fizeram irresistivelmente recordar um outro autor que também gritava através dos seus contos, nem que fosse depois de morto, «um último viva a revolução». Já sabem, estou mesmo a falar de Mário-Henrique Leiria e dos seus Contos do Gin-Tonic (1973) mais os seus Novos Contos do Gin (2.ª ed. revista, 1978). A epígrafe em forma de poemeto ao cimo deste preâmbulo é do primeiro destes dois livros, e agora sim, vou mesmo falar de «raízes», finalmente.
Isto de raízes tem muito que se lhe diga. A originalidade das Visões de Octávio dos Santos não é uma originalidade saída do vazio, ou reformulada a partir de modelos alienígenas – alienígenas, quero dizer, tanto os habituais «lá de fora» (anglo-saxónicos, de preferência…) como sobretudo os de outras galáxias, haja em vista o seu pendor para a ficção científica, confirmado pelas distinções que obteve no Prémio Literário de Ficção Científica organizado pela associação Simetria FC & F no ano 2000. Fiquemo-nos pela lusitana «galáxia», que já tem muito por onde o situar, e pelo modelo cáustico de Mário-Henrique Leiria, considerado em muitos aspectos «fundador» entre os nossos modelos de «ficção especulativa». Este, sobretudo, é um modelo muito forte e de boas raízes, e tiro o chapéu a Octávio dos Santos pela forma exímia como soube testemunhar e reerguer, bem alto, o facho (de «luz negra»?) da maratona.
Mas, atenção! Já que falamos em raízes, recordemos que o próprio Mário-Henrique Leiria tão-pouco surgiu do nada, é um continuador-inovador na corrente da «ficção visionária» portuguesa, e, com a devida licença – e indulgência – do leitor desejoso de bisbilhotar mais umas coisitas sobre estas palpitantes matérias, aproveito o ensejo para fazer um breve excurso sobre a história dessas tais «fantásticas» raízes (e só para nos cingirmos ao século que passou) donde brotaram os frutos de Mário-Henrique Leiria e de Octávio dos Santos.
Ora vejamos: nos princípios do século XX a literatura fantástica em Portugal limitou-se a prolongar o que vinha dos fins do século anterior, e que já tive ocasião de abordar em outros prefácios desta colecção dedicados precisamente a autores portugueses do século XIX.
Os dois exemplos mais flagrantes que costumam ser referidos nesse período inicial do século XX são Fernando Pessoa (1888-1935) e Mário de Sá-Carneiro (1890-1916).
Do primeiro podem reter-se algumas prosas de ficção como, por exemplo, «Um Jantar Muito Original» (1907), onde o fantástico se mistura com o horror do mais frio canibalismo, «A Rosa de Seda» (1915), que finge ser uma antiga fábula, e uns fragmentos da novela «Czarkresko», que deixou incompleta.
O segundo é mais propriamente um autor «negro», onde o fantástico se associa ao horror e às obsessivas preocupações com a morte, a loucura, os estados de alma tragicamente depressivos, o suicídio. Para além da sua obra-prima, A Confissão de Lúcio (1914), onde a tortura moral do protagonista e o pesadelo são levados a extremos alucinatórios, é porém na sua colectânea de novelas Céu em Fogo (1915) que o fantástico de Sá-Carneiro mais claramente se recorta, sobretudo em «A Grande Sombra» ou em «O Fixador de Instantes», e talvez mais ainda em «A Estranha Morte do Prof. Antena», considerada a primeira novela portuguesa de ficção científica.
Historiando mais um pouco, constatamos que foi somente na primeira metade do século XX que as obras de teor fantástico produzidas em Portugal começaram a libertar-se do gótico do século anterior – e para isso terá concorrido sem dúvida o advento do surrealismo entre nós, que, ao renovar o «visionário» com uma nova tónica, produziu bons frutos narrativos, além da sua expressão em poesia e em artes plásticas. São de realçar, dentro do fantástico, a obra-prima de ironia e humor de António Pedro, Apenas uma Narrativa (1942), além dos textos de Virgílio Martinho e Mário Cesariny de Vasconcelos.
Ultrapassar o real e captar os mistérios que irrompem entre o sonho e a realidade foi uma constante do fantástico de José Régio (1901-1969), um dos «grandes» da literatura portuguesa. Essa característica é flagrante no seu romance O Príncipe com Orelhas de Burro (1942) e mais ainda no livro de contos Há Mais Mundos (1963), dos quais a Profª. Maria Leonor Machado de Sousa destaca o «Conto de Natal» no seu estudo sobre O Horror na Literatura Portuguesa (ICP, 1979), referindo-se-lhe nos seguintes termos:
«É de salientar “Conto de Natal” onde há um monstro meio animal, “talvez dos princípios do mundo”, que aterroriza toda a população das serras onde vive e que, ao morrer, se transforma num ser de beleza sem igual, numa metamorfose que só a um pastorzito ingénuo é visível. Há aqui uma preocupação alegórica que Régio já exprimira em O Príncipe com Orelhas de Burro (1942), a ideia de que a perfeição não é deste mundo, o que condena à morte os seres que a obtenham. Ao tratar este tema, é completamente livre o recurso ao fantástico, que em ambos os casos chega a ser aterrador.» (pp. 81-82)
Até aos fins da década de 70 do século XX podemos considerar que se encerra um período do fantástico português caracterizado por formas sombrias, talvez ainda reminiscentes da evanescente influência do gótico do século anterior, mais do que por um apelo puro à livre imaginação; entre os exemplos mais citados, salientam-se: Branquinho da Fonseca (1905-1974) - O Barão (1942); Domingos Monteiro (1903-1980) - Histórias Castelhanas (1955) e Histórias deste Mundo e do Outro (1961); José Rodrigues Miguéis (1901-1980) - Léah e Outras Histórias (1958); Jorge de Sena (1919-1978) - O Físico Prodigioso (1977).
Exceptua-se deste «clima» o extraordinário romance de José Gomes Ferreira (1900-1985) As Aventuras de João Sem Medo (1963), a que o próprio autor chamou «panfleto mágico em forma de romance», uma obra-prima de imaginação fulgurante e um dos livros fantásticos mais espantosos, senão mesmo delirantes, da literatura portuguesa.
É então que surgem dois autores de grande relevância, dentro deste segundo período citado, e que merecem uma referência especial – dois nomes que costumam ser invocados pelos modernos autores portugueses de speculative fiction como seus «antecessores», embora as suas produções, por vezes de difícil classificação, oscilem entre o surrealismo, a ficção científica e o fantástico: são eles Mário-Henrique Leiria (1923-1980), de que já falámos um pouco, e Romeu de Melo (1933-1991). Do primeiro, além dos já citados Contos do Gin-Tonic e Novos Contos do Gin, há sobretudo que considerar Casos do Direito Galáctico (1975), uma verdadeira obra-prima, que se projecta luminosamente, como uma asa padroeira, no extraordinário conto (conto?) «Decreto Lei Nº 54» do presente livro Visões. Do segundo autor, Romeu de Melo, ficarão para a história da literatura portuguesa (ficarão? O mainstream é tão vesgo, tardonho e ferrugento…) os romances-do-absurdo AK - A Tese e o Axioma (1959), Não lhes Faremos a Vontade (1970) e A Buzina (1972).
A importância de Mário-Henrique Leiria e de Romeu de Melo como «figuras tutelares» da moderna tradição portuguesa de ficção científica e fantástico ficou bem testemunhada pela homenagem que se lhes prestou por ocasião dos 2os Encontros de Ficção Científica e Fantástico de Cascais de 1997: a antologia de contos intitulada Efeitos Secundários/Side Effects, que nesse ano a Simetria FC & F editou em versão bilingue para assinalar o evento, é antecedida, significativamente, pela seguinte dedicatória: «À memória de Romeu de Melo e Mário-Henrique Leiria, que resolveram transformar-se em luz e viajar através do tempo e do espaço rumo ao coração da galáxia.»
Nas duas últimas décadas do século XX, sobretudo, e nestes inícios do século XXI, o Fantástico português desenvolveu-se e expandiu-se duma forma quase explosiva, fenómeno de certo modo associado ao desenvolvimento e expansão da ficção científica criada em Portugal, bem como à influência da permanente transfiguração das mentalidades a que assistimos todos os dias, com o recurso às novas «magias» possibilitadas pela utilização desenfreada dos computadores, da Internet, dos «efeitos especiais» nos meios audiovisuais…
Enfim, tanto haveria a dizer sobre este explosivo e inesgotável tema que prefiro quedar-me por aqui; a história da «ficção especulativa» portuguesa está viva, frondeja e os seus frutos são cada vez mais saborosos e sumarentos… O leitor que o ajuíze por si, deliciando-se – ou saudavelmente «horrificando-se»! – a ler as páginas que se seguem, e fazendo bem, talvez, em meditar seriamente nos signos, nas cifras e nas passwords que as Visões de Octávio dos Santos nos oferecem «como maçãs de ouro em bandeja de prata».

ANTÓNIO DE MACEDO

Orientação: A ligação para o meu livro «Visões»

Editado há cerca de ano e meio, é actualmente pouco provável encontrar o meu primeiro livro nos locais – isto é, livrarias - que constituem o normal circuito de distribuição. Assim, quem quiser adquiri-lo poderá fazê-lo muito mais facilmente contactando directamente a Hugin Editores, mais concretamente através do seu sítio na Internet, e mais especificamente ainda na página daquele referente ao «Visões».

Origens: Uma breve biografia

Octávio José Pato dos Santos nasceu em Lisboa a 16 de Abril de 1965. Começou a escrever poesia em 1978, e o seu primeiro poema foi publicado na edição de Maio de 1979 da revista O Professor – inserido, com outros, num artigo da Professora Doutora Leonor Malik, que era então a sua docente de português. O tema desse artigo era uma exposição de textos e de desenhos, feitos por alunos da Escola Secundária Gago Coutinho de Alverca do Ribatejo, sobre o livro «Esteiros», de Soeiro Pereira Gomes.
Após passar pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, segue Sociologia no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, onde foi um dos alunos a concluir o primeiro seminário (especialização) de Sociologia da Comunicação daquela licenciatura; a sua tese foi orientada pelo Professor Doutor José Manuel Paquete de Oliveira. Naquele estabelecimento de ensino foi ainda membro da Direcção e Presidente do Conselho Fiscal da Associação de Estudantes do ISCTE, membro da Assembleia de Escola e da Assembleia Especial para a Aprovação dos Estatutos do ISCTE, membro do Conselho Directivo do ISCTE, e membro da Comissão Executiva do 1º Encontro Nacional de Estudantes de Sociologia, realizado em 1990.
Com excepção de um breve estágio em publicidade na McCann Erickson Portugal em 1991, e de colaborações pontuais e posteriores em outras instituições, praticamente toda a sua carreira tem sido feita no jornalismo. Actividade que iniciou em 1985, enquanto «amador», como redactor e chefe de redacção do jornal regional Notícias de Alverca, e que prosseguiu como coordenador do DivulgACÇÃO, boletim informativo da Associação de Estudantes do ISCTE. Enquanto profissional, começou na (equipa inicial da) revista TV Mais, esteve na revista África Hoje, e desde 1997 que observa de perto a evolução do sector das tecnologias de informação, media e telecomunicações em Portugal. Ao serviço das revistas Cyber.Net, Inter.Face e Comunicações, foi distinguido - com, respectivamente, um primeiro lugar absoluto, uma menção honrosa e um co-primeiro lugar ex-aequo - em três anos consecutivos – 1998, 1999 e 2000 - pelo Prémio de Jornalismo Sociedade da Informação, uma iniciativa do anterior Ministério da Ciência e da Tecnologia. Eis os títulos desses três artigos premiados: «A cartilha virtual: construindo as ciberescolas», «A vida em sociedade» e «No país dos comerci@ntes» - este escrito em parceria com João Paulo Aires.
Colaborou e/ou colabora em outros jornais e revistas, nomeadamente A Capital, Diário de Notícias, Diário Digital, Diário Económico, Finisterra, Fórum Estudante, Jornal de Leiria, Media XXI, Número Magazine, Page, Público, Seara Nova, Semanário, Vértice e Vida Ribatejana.
Leitor desde criança de livros, clássicos e modernos, de todos os géneros literários, é porém na música e no cinema que tem as suas principais fontes de inspiração e de influência. Contudo, o seu fascínio pela cultura popular anglo-americana é superado pela sua paixão pela lusofonia. Sobre este tema: escreveu vários artigos; mantém, desde 1988, um arquivo de imprensa; e prepara actualmente, enquanto principal projecto profissional, uma revista.
Após 18 anos a tentar editar as suas obras, «Visões» – escrito na sua maior parte em 1997 mas que inclui textos elaborados em 1982 e em 1985/87 – constituiu, em Novembro de 2003, a sua estreia literária. Este livro é o Nº 7 da colecção - dirigida pelo escritor e cineasta António de Macedo - «Bibliotheca Phantastica» da Hugin Editores. Dois dos contos que o integram - «A caixa negra» e «Caminhos de ferro» – já haviam sido seleccionados como «merecedores de publicação» pela associação Simetria FC & F, no âmbito da edição de 2000 do seu Prémio Literário de Ficção Científica.
No presente, está a escrever um livro que pode definir-se como sendo uma fantasia baseada em factos e em figuras reais do passado, e que pretende evocar o Portugal do século XVIII a propósito dos 250 anos do Terramoto de Lisboa. Entre os seus outros livros já prontos para publicação no futuro, e registados na Inspecção Geral das Actividades Culturais, incluem-se: «Espelhos», «Alma Portuguesa» e «Museu da História» (poesia); «Festas» (prosa); «O Novo Portugal» e «Códigos» (ensaio).

Orientação: Uma ligação para outra lista, esta de...

... Nascimentos, e não só, ocorridos a 16 de Abril.

quinta-feira, abril 07, 2005

Obras: "O sonho de Beethoven"

Naquela noite de 7 de Abril de 1805, domingo, em Viena,
o mestre apresentava pela primeira vez a sua terceira sinfonia.
No teatro da cidade a alta sociedade estava reunida
com os ouvidos e os corações afinados em perfeita sintonia.

A orquestra começou a tocar, e a surpresa foi imediata e geral:
nunca ninguém ouvira sons tão fortes e tão contrastantes.
A música também passava por uma violenta revolução,
e nela, tal como na Europa, em breve nada seria como antes.

Finda a actuação, o mestre ia agradecer os aplausos que não podia ouvir.
Mas quando se voltou viu, espantado, algo que lhe gelou as veias:
o teatro havia-se transformado num fumarento campo de batalha,
com destroços de homens e de cavalos, de canhões e de bandeiras.

Depressa ele afastou dos olhos e da mente aquela terrível visão.
Mas compreendeu depois que ela era uma assustadora premonição.
Aquele a quem dedicara aquela obra aproximava-se da cidade
e iria tornar aquele funesto sonho em sombria realidade.


Poema (Nº 240) escrito em 1991 e incluído no meu livro «Museu da História».

sábado, abril 02, 2005

Obras: "O"

«O» está no centro da dor.

«O» é a expressão do sofrimento.

«O» é uma roda que nunca irá parar de rodar.

«O» é um anel flamejante, uma corrente de que nunca nos poderemos libertar.

«O» é um círculo que se fecha à nossa volta e aperta até não nos deixar respirar.

«O» é também zero, é nada.

«O» é a primeira letra do meu nome.


Poema (Nº 149) escrito em 1986 e incluído no meu livro «Espelhos».